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2016/06/17

Congressos partidários e tal

Um João e duas Catarinas irão disputar a direcção do Bloco de Esquerda (BE) – a Mesa Nacional – na Convenção marcada para os próximos dias 25 e 26.

Serão certamente "discutidas" questões de organização como a representação da diversidade interna, e questões de estratégia política como as próximas eleições autárquicas. Mas nada disto, como as outras coisas, se resolve numa sessão de discursos. Os congressos servem apenas para legitimar decisões que já foram tomadas nos bastidores ao longo de um processo mais ou menos assumido de negociações e avaliação de forças. É sempre assim, em todos os partidos.

Isto não quer dizer que os perdedores não aproveitem para marcar o seu descontentamento. Provavelmente ouviremos alguém dizer que «O Bloco de Esquerda precisa de se organizar e suprir as dificuldades que fazem com que, 17 anos depois da sua fundação, seja tão frágil a militância em grande parte dos concelhos do país, sem estruturas a funcionar, sem núcleos de empresa ou de escolas», e Catarina Príncipe reclamar que «Os órgãos de direcção do Bloco não foram tidos nem achados no desafio inicial lançado pela Catarina Martins ao António Costa. De uma maneira geral os e as militantes do Bloco acompanharam o processo do acordo pela comunicação social, sem nele terem participado». Cumprem-se as formalidades ociosas de um congresso ou de uma convenção!

Apesar de tudo, vale a pena ver até que ponto as tendências radicais que podem desmantelar a geringonça, encontram eco entre os participantes.

Sobre o desastre que poderia significar neste sentido, uma vitória da moção “B” de João Madeira, por exemplo, nada melhor do que ler o editorial do Avante de 13 de Dezembro de 2007!

À parte do que fica dito ou insinuado, os congressos partidários que tenho visto acontecerem desde sempre, destinam-se a convencer os seus militantes e o público em geral, de que são orgãos de decisão sobre as políticas e os políticos, isto é, que satisfazem as escolhas dos seus militantes.

Os que fingem melhor nesta matéria, há que reconhecê-lo, são o Partido Comunista e o Bloco de Esquerda. Só porque os outros assumem este “bluff” sem pudor.

O BE não perde energia nem tempo que se compare ao que faz o PCP. Até pela razão óbvia de que não tem implantação de bases nem organização nem experiência que lho permita.

O PCP (e os partidos comunistas em geral) elaboram exaustivas teses, promovem incontáveis reuniões, difundem toneladas de papéis sobre os assuntos que irão ser “propostos” ao Congresso. Mas o sumo que os orgãos de direcção extraem de todo esse trabalho, não serve senão para dar volume à nata produzida por um reduzido núcleo de dirigentes – são as “propostas” que se destinam a ser aprovadas.

De resto, a elaboração dos documentos postos “à discussão”, o método de selecção das propostas recolhidas nas bases, e os métodos de “eleição” dos delegados, asseguram esse objectivo. Depois há a influência dos funcionários no funcionamento das reuniões e no encaminhamento de tais propostas, e, em última instância, digamos assim, há uma “comissão de redacção” com poder factico para filtrar aqueles “milhares de contributos” de que os partidos comunistas se gabam sempre e tanto, mas contributos destinados apenas ao “enriquecimento e aperfeiçoamento” do documento posto à discussão.

É uma certa interpretação do conceito bolchevique de “centralismo democrático” que, de resto, vigora sem nome nem pudor na direita e corre o risco de se implementar no Bloco se não tiverem juízo.

2008/11/26

Congresso faz-de-conta

Proposta ao XVIII Congresso do PCP

Porque será que as Teses que serão aprovadas no congresso do PCP do próximo fim de semana, não excitam os jornais nem os blogues, incluindo aqueles onde os militantes do PCP vertem os seus pensamentos?

Nota-se em alguns destes a preocupação de divulgar as teses “propostas” pela direcção do partido, quando muito, mas não fazem mais do que recopiar os respectivos textos. Não há um comentário à “proposta”, uma opinião divergente ou alternativa ou complementar...

Qualquer coisa me diz que assim correram as “mais de 800 reuniões e plenários de organismos e organizações” onde terão sido analisadas e debatidas (?) as teses que formam o “projecto” de Resolução Política a ser aprovado no congresso.

Diz a direcção, por exemplo, que « O debate preparatório da primeira fase confirmou que o Programa e os Estatutos do Partido em vigor mantêm no essencial actualidade e validade, pelo que decide não apresentar propostas de alteração a estes documentos». Se assim foi ou não o que aconteceu nas “800 reuniões e plenários”, não há meio de saber. Mas nem isso contraria a razão da proposta que aqui trago:

Não seria melhor fazerem uma sardinhada na Alameda?

Já não é tempo de sardinhas? Ora, e é tempo de congressos-comício? Faz-se de-conta!

2008/10/12

Lógica das massas

«...Milhares de peregrinos estão já no Santuário de Fátima, para participarem nas cerimónias que assinalam os 91 anos das aparições de N. Senhora aos pastorinhos...».
Notícia de 2008-10-12 (JN)

Estima-se que em 12 e 13 de Maio 2007, o número de pessoas que se deslocaram ao Santuário tenha atingido o meio milhão !

Digo eu:

Quer caminhem para o Santuário de Fátima ou para qualquer outro, as multidões, as massas, são convocadas por um mito salvador da Humanidade, é certo, mas
são sempre movidas por sentimentos íntimos; respondem a uma mobilização colectiva, é certo, mas motivadas por razões subjectivas - na melhor das hipóteses, por convicções pessoais, mas em última análise, por egoismo. Juntam-se para lutar contra um inimigo comum, é certo, mas não é por ser comum, é por ser o "seu" inimigo.

O encontro colectivo proporciona as condições materiais e o pretexto, um clima favorável e o simbolismo justificativo. Mas creio que é nas profundezas psicológicas, nas cavernas secretas da mente que se encontram as motivações de tamanha exaltação.

Depois, há a festa, a celebração da comunhão, da solidariedade, mas que responde sobretudo ao humano sentimento de insegurança que busca, na pertença, protecção e afecto.


Irei longe demais se acrescentar que muitos namoros começam assim, nestes rituais? Já Ovídeo, na Arte de Amar, aconselhava a que se procurassem os espaços povoados... Mas voltemos ao discurso “correcto”!

O papel das grandes concentrações de massas em celebrações políticas ou religiosas é de amplificar o grito individual, por um lado, e legitimá-lo. Um grito que não raras vezes se esgota em si mesmo.

Isto para o comum dos participantes, para as massas. Para os promotores é sobretudo espaço de afirmação da sua autoridade moral ou política, e da sua força. A relação que uns estabelecem com os outros é de confiança na direcção ideológica e organizativa.

Em nada disto vejo a mão de Deus nem a mão do Diabo; vejo a lógica das massas. E nem tenho a certeza.