12/10/2008

Lógica das massas

«...Milhares de peregrinos estão já no Santuário de Fátima, para participarem nas cerimónias que assinalam os 91 anos das aparições de N. Senhora aos pastorinhos...».
Notícia de 2008-10-12 (JN)

Estima-se que em 12 e 13 de Maio 2007, o número de pessoas que se deslocaram ao Santuário tenha atingido o meio milhão !

Digo eu:

Quer caminhem para o Santuário de Fátima ou para qualquer outro, as multidões, as massas, são convocadas por um mito salvador da Humanidade, é certo, mas
são sempre movidas por sentimentos íntimos; respondem a uma mobilização colectiva, é certo, mas motivadas por razões subjectivas - na melhor das hipóteses, por convicções pessoais, mas em última análise, por egoismo. Juntam-se para lutar contra um inimigo comum, é certo, mas não é por ser comum, é por ser o "seu" inimigo.

O encontro colectivo proporciona as condições materiais e o pretexto, um clima favorável e o simbolismo justificativo. Mas creio que é nas profundezas psicológicas, nas cavernas secretas da mente que se encontram as motivações de tamanha exaltação.

Depois, há a festa, a celebração da comunhão, da solidariedade, mas que responde sobretudo ao humano sentimento de insegurança que busca, na pertença, protecção e afecto.


Irei longe demais se acrescentar que muitos namoros começam assim, nestes rituais? Já Ovídeo, na Arte de Amar, aconselhava a que se procurassem os espaços povoados... Mas voltemos ao discurso “correcto”!

O papel das grandes concentrações de massas em celebrações políticas ou religiosas é de amplificar o grito individual, por um lado, e legitimá-lo. Um grito que não raras vezes se esgota em si mesmo.

Isto para o comum dos participantes, para as massas. Para os promotores é sobretudo espaço de afirmação da sua autoridade moral ou política, e da sua força. A relação que uns estabelecem com os outros é de confiança na direcção ideológica e organizativa.

Em nada disto vejo a mão de Deus nem a mão do Diabo; vejo a lógica das massas. E nem tenho a certeza.

1 comentário:

manhã disse...

concordo, a motívação é íntima e egoísta, mas será mais íntima e egoísta que a motivação de qualquer outra manifestação de massas? Não haverá sempre um interesse egoísta que nos move?
bjos