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2017/05/11

Salvemos a Irmã Lúcia

Com a inteligência que "Deus me deu” – o Deus cristão, entenda-se – sou levado a descrer das aparições da Virgem Maria que também dá pelos nomes de Imaculada Conceição, de Nossa Senhora de Fátima, de Lurdes e de tudo o que a imaginação popular inventou e a Igreja oportunistamente sancionou.
Maria, aquela de que aqui se fala, seria uma jovem de 19 anos quando pariu Jesus “por obra e graça do Espírito Santo” como bem esclareceu um tal Gabriel a quem chamaram anjo para não levantar suspeitas – os anjos não têm sexo…
«Nascer de uma virgem fecundada por um deus ou por um seu emissário foi um mito bastante difundido em todo o mundo anterior a Jesus» - diz Pedro Barahona de Lemos, identificando “pelágios” ocorridos na China e no Japão, no México e na Pérsia, entre outros, séculos antes de Jesus.
Quase tão misteriosa como a gravidez de Maria foi a vida e a morte, esta tendo ocorrido quando ela tinha entre 38 e 48 anos de idade, segundo historiadores, ou nunca tendo ocorrido, segundo Pio XII e papas seguintes até o actual Francisco incluído.
Fosse como fosse, Maria teve mais sorte do que a sua amiga Lúcia, vidente de Fátima, cuja inocência foi aproveitada pela Igreja Católica com sacrifício de uma vida sexual saudável e reclusão rigorosa, sacrifícios a que a falsa virgem Maria nunca esteve sujeita.
Pela libertação de Lúcia, essa sim, enquanto mártir da Igreja, eu iria a Fátima a pé. E quem diz Lúcia diz todas as vítimas do obscurantismo religioso.

Pedro Barahona de Lemos é aqui citado quanto ao seu livro "Todos Somos Lázaro"

2012/08/05

Porque hoje é domingo (20)

Se eu fosse um deus, desses que transformam cinco pães em cinco mil, desses que caminham sobre as águas dos rios, desses que curam os enfermos e ressuscitam mortos, não me indignava como ele, só porque os famintos me seguiam à míngua de pão.

“Estais me procurando não porque vistes sinais (milagres), mas porque comestes pão e ficastes satisfeitos”. Com todo o respeito, isto não são coisas que se digam a uma multidão ingénua de famintos, sabendo eles e tendo comprovado que esse milagre o faz Jesus com uma perna às costas, por assim dizer.

Tu disseste: “Eu sou o pão da vida; eu sou uma água viva, e quem bebe desta água nunca mais terá sede”. Vai daí, a pobre samaritana que não estava acostumada a metáforas, hipérboles e outras figuras de estilo literário, na sua inocência te pediu humildemente: “Senhor, dá-me dessa, para que eu não tenha mais sede, nem tenha de vir aqui tirar água” (Jo 4,15).

Mas tu que respondeste? Deste-lhe uma descasca... do diabo, dizendo que eles te seguiam por interesse e não por amor.

Francamente! Que falta de sensibilidade social! Não devias ser tu a quem não falta pão e peixe e carne de ovelha; quem devia exprimir solidariedade,que já nem falo de amor ou compaixão, dando-lhes do que precisavam em vez de santidade? Que pecados cometeram esses filhos de Deus, que mereçam ser sacrificados mais do que já são?


Tem razão numa coisa um certo padre na sua homilia: as pessoas não querem ser cristãs, querem ter Cristo como um mago para suprir as suas necessidades. Mas alguma vez a Igreja onde o padre exerce a sua profissão, se importou com isso? Pelo contrário: vai resolvendo as suas próprias necessidades materiais a troco de... paraísos futuros. Nada que os governos mais perversos não façam também, profetizando milagres económicos.


Senhor: morrem de fome, anualmente, pelo menos 5 milhões de crianças no mundo. De fome! E tu que concebeste o Homem e a sua natureza - boca, esófago, estomago, sangue e coração - deixas que isto aconteça porque o que te interessa é a salvação das almas. Pois não teria sido muito mais razoável, nesse caso, ter criado os homens sem corpo?

Nota: A foto do meio (original) é de uma pista criada no santuário de Fátima, para cumprimento de promessas, de joelhos!

2009/09/29

Papas e bolos

«A visita de um papa católico é assunto da Igreja católica e não matéria do Estado português. Num Estado laico o Papa é apenas um líder religioso. Que o cidadão Cavaco Silva se regozije é um direito; que o chefe de Estado de um País laico exulte com a visita do seu líder espiritual é uma interferência nefasta da política na religião, e vice-versa; e que essa visita tenha sido anunciada fora de tempo, contra a vontade da própria Conferência Episcopal, é uma politização inadmissível daquilo que é apenas matéria de crença pessoal.

Fátima é um dos santuários mais importantes e rentáveis da Igreja católica. Estes aspectos de fé e ges-tão religiosa justificam a visita do Papa, mas é lamentável que esta deslocação seja considerada – como disse o bispo Carlos Azevedo – «uma visita de profundo significado, também por ser o centenário da implantação da República». Fátima foi um instrumento da propaganda contra a República e contra o socialismo. Os milagres tentados noutros locais do país acabaram adjudicados numa região onde a religiosidade e o analfabetismo os facilitava. E, hoje, a crença nas piruetas do Sol, passeios da Virgem pelas azinheiras e aterragem de anjos na Cova da Iria são uma opção pessoal, motivada pela fé e não por provas objectivas, e sem qualquer relação com a nossa forma actual de governo».

Texto integralmente recortado do Diário Ateísta.

Que se trate do mesmo papa que levantou a excomunhão (ditada 20 anos antes pelo seu antecessor João Paulo II) contra quatro bispos que foram consagrados por monsenhor Marcel Lefebvre... não terá pesado certamente no entusiasmo político português... Pelo menos em desentusiasmo não pesou de certeza.

2008/10/12

Lógica das massas

«...Milhares de peregrinos estão já no Santuário de Fátima, para participarem nas cerimónias que assinalam os 91 anos das aparições de N. Senhora aos pastorinhos...».
Notícia de 2008-10-12 (JN)

Estima-se que em 12 e 13 de Maio 2007, o número de pessoas que se deslocaram ao Santuário tenha atingido o meio milhão !

Digo eu:

Quer caminhem para o Santuário de Fátima ou para qualquer outro, as multidões, as massas, são convocadas por um mito salvador da Humanidade, é certo, mas
são sempre movidas por sentimentos íntimos; respondem a uma mobilização colectiva, é certo, mas motivadas por razões subjectivas - na melhor das hipóteses, por convicções pessoais, mas em última análise, por egoismo. Juntam-se para lutar contra um inimigo comum, é certo, mas não é por ser comum, é por ser o "seu" inimigo.

O encontro colectivo proporciona as condições materiais e o pretexto, um clima favorável e o simbolismo justificativo. Mas creio que é nas profundezas psicológicas, nas cavernas secretas da mente que se encontram as motivações de tamanha exaltação.

Depois, há a festa, a celebração da comunhão, da solidariedade, mas que responde sobretudo ao humano sentimento de insegurança que busca, na pertença, protecção e afecto.


Irei longe demais se acrescentar que muitos namoros começam assim, nestes rituais? Já Ovídeo, na Arte de Amar, aconselhava a que se procurassem os espaços povoados... Mas voltemos ao discurso “correcto”!

O papel das grandes concentrações de massas em celebrações políticas ou religiosas é de amplificar o grito individual, por um lado, e legitimá-lo. Um grito que não raras vezes se esgota em si mesmo.

Isto para o comum dos participantes, para as massas. Para os promotores é sobretudo espaço de afirmação da sua autoridade moral ou política, e da sua força. A relação que uns estabelecem com os outros é de confiança na direcção ideológica e organizativa.

Em nada disto vejo a mão de Deus nem a mão do Diabo; vejo a lógica das massas. E nem tenho a certeza.