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2013/09/02

Síria em contra-ponto

O programa incendiário dos Estados Unidos da América e Israel, para o Médio Oriente, vai cumprindo o seu calendário, ateando os fogos previstos pela forma prevista. Primeiro, semeando o descontentamento interno e incentivando as revoltas, depois manipulando a opinião pública mundial.

Criadas as condições subjectivas, o ódio contra “o inimigo”, desencadeiam-se os fogos violentos e acentuam-se as acusações convenientes enquanto se alimentam as fogueiras. Já só falta um pretexto “legal” para intervir assumidamente desde o exterior – e aqui, à falta de melhor, recorre-se a estafados argumentos sobre uso de armas proibidas cuja comprovação, de resto, virá ou não virá, tanto faz, depois da decisão de atacar. Obama diz que mata, a NATO diz que esfola, Putin diz que não há razões suficientes, a ONU ainda não tem provas...


Entretanto, para que ninguém diga mais tarde que não sabia de nada, AQUI fica uma entrevista que só vi na Ewronews – apesar da sua grelha editorial de direita.

2012/07/19

Síria em contexto

Quando um regime de excepção se eterniza,
já não é excepção, é o regime.

Foi assim na União Soviética, como é assim em Cuba ou na Coreia do Norte. E na Síria.

Lá onde as liberdades cívicas são suspensas e os dirigentes são nomeados ou herdeiros, onde se instala a censura de imprensa, a repressão dos opositores políticos, a subordinação de todas as instituições, ao Governo, em nome da Felicidade, o que se oferece às populações não é a Felicidade, é a ditadura com toda a sua violência.

Apesar destas coincidências e ainda do conceito de "governo forte" e parlamento irrelevante, distingue-se uma ditadura de esquerda de uma ditadura de direita? Sim, há diferenças. Desde logo porque a negação da democracia formal é para uns uma questão de princípio e para outros uma questão de meio, embora dê o mesmo, no fim. Mas também se distinguem, de facto, porque a primeira extingue a anterior classe dominante, “a burguesia” e generaliza o acesso aos serviços essenciais: de saúde e de ensino.

Mas saem os cidadãos mais livres em resultado daquela extinção? A substituição de uma oligarquia financeira por uma oligarquia partidária auto-proclamada "representante da classe trabalhadora", traz diferenças escassas ou perversas aos súbditos do Estado.

E sobre os benefícios aparentes há que perguntar: são realmente gratuitos os serviços, como apregoa o regime? Pois não é a riqueza do país, a riqueza produzida pelos cidadãos que paga esses serviços? Ou é dos bolsos dos governantes que sai o dinheiro para adquiri-los? E quanto custa a um cidadão daqueles estados, sair para outro país por sua iniciativa? Em grande parte das vezes, custa a própria vida!


Dir-se-á que apesar de tudo a distribuição dos bens e serviços à população é mais igualitária. Sem dúvida que sim. Mas que significa isso num regime de ditadura? Significa que o poder instaurado, a nova oligarquia, compra o silêncio e as liberdade cívicas dos cidadãos, que compra a dignidade das pessoas, tal como o cliente paga à prostituta para ela se submeter aos seus caprichos.

Pode também ser analisado à luz destas considerações, o percurso histórico da Síria desde que o Partido Baath, socialista e nacionalista tomou o poder em 1963 e empreendeu uma série de profundas reformas sociais e económicas, constituindo-se em República Popular da Síria em 1964.

Os confrontos com Israel e a posição de apoio activo à causa palestina, reforçam o caracter anti-imperialista da política dos Assad (pai e filho, na foto, á direita). O caracter "socialista" do Partido Baath e sua relação de amizade com a Rússia, nomeadamente o tratado de cooperação com a União Soviética em 1980, revelam sem reservas o seu enquadramento ideológico e geoestratégico. E com isto, a que se juntam relações mais amplas e complexas no plano internacional e no âmbito interno, o papel dos EUA e aliados joga os seus interesses muito acima da defesa dos Direitos Humanos - aproveitando o pretexto da oposição política interna.

De notar que o actual presidente Bashar al-Assad sucedeu em 2000 ao seu próprio pai, através de um referendo e num regime de partido único! Em Maio de 2007 seria reconfirmado nas mesmas condições.

Em 2011, no contexto das lutas populares que decorreram nos países Árabes, a pressão da oposição no seu próprio país levou Bashar al-Assad a prometer mudanças democráticas que não levou à prática e gerou-se assim uma série de protestos que reclamavam o derrube do Presidente. A resposta foi violenta e prossegue.

Há no processo sírio, enfim, todos os tiques políticos do “socialismo real”, como se vê, desde a designação dos dirigentes até à política de alianças internacionais. Que a Rússia continue a ser o principal aliado da Síria, na Europa, apesar da ruptura ideológica que sofreu com a extinção da União Soviética, é bem significativo da importância que desempenham as estratégias nacionais, sobrepondo-se às ideologias. De resto, toda a evolução da Rússia neste quadro confirma a regra.

Nada que legitime o pendor imperial dos Estados Unidos da América e dos seus porta-vozes, neste âmbito, entenda-se. Mas que deveria levar muito radicalista ideológico a ponderar, digo a moderar, digo a racionalizar alguma exaltação clubista.

2011/02/21

O direito ao futuro


A falta de uma liderança das revoltas no norte de África e no Médio Oriente, sendo talvez a sua maior fragilidade é também a sua maior defesa. Os poderes estão habituados a fazer rolar a cabeça do inimigo, mas quando o inimigo não tem uma cabeça (ou não tem uma cabeça visível), os poderes ficam desnorteados.

É que as manifestações de revolta são motivadas pelo próprio Poder, estimuladas pela sua natureza despótica e incompetente para responder aos anseios mais primários da população.

Depois há outro aspecto que desorienta os poderes instalados: o caracter geral, elementar, das reivindicações – liberdade, dignidade, democracia. Com que argumentos se podem contrariar tais reivindicações?

Claro que nada disso impediria, como não impede noutras partes do mundo, que a força bruta fosse descarregada contra os manifestantes, enchendo de sangue as ruas e as praças. Mas aqui há duas contrariedades: a disposição das próprias forças armadas e as repercussões internacionais.

A destabilização interna, em última análise, seria aproveitada pelos “inimigos externos” com fortes motivações económicas. Não escapa a ninguém que se trata de países das regiões que fazem andar os motores do mundo.

Em última análise, tudo indica que para os clientes de petróleo e para a própria população descontente, sobretudo a mais jovem, é o seu futuro que está em causa.

Bem diz um provérbio chinês que «pessoas com diferentes sonhos podem partilhar a mesma cama».