A estrutura horizontal de funcionamento do Movimento 15M, de Espanha, sem um centro de decisão, portanto, exprime a recusa em alienar a soberania popular a “representantes”, comprovada que está a apropriação abusiva que estes fazem da procuração que lhes é outorgada.
Estes abusos pacíficos de poder acontecem em muitas estruturas, desde os próprios partidos até às organizações internacionais. No âmbito destas, a forma como foi “aprovado” o Tratado de Lisboa, fica para a História como demonstração da falsa democraticidade da União Europeia, a que se junta o irrefutável domínio de dois ou três países por força da sua vantagem económica - num caso e noutro, a vontade é imposta de cima. Quanto aos partidos, as eleições directas para os respectivos presidentes não disfarçam, antes chamam a atenção, para os mecanismos elitistas de funcionamento interno – destes mecanismos resulta a selecção de candidaturas que interessa ao poder instalado.
No Partido Comunista Português chegou a haver quem se atrevesse a propor uma estrutura horizontal de funcionamento, por oposição à estrutura centralista consagrada nos estatutos dos PC's desde 1902. Tratava-se de desobstruir a circulação de opiniões entre todos os militantes. O PCP tratou de remeter tais propostas para a lista das maldições, traições e outras más-intenções. Fê-lo “democraticamente”, claro, tanto quanto permite o envenenamento da opinião interna (criada pelo mesmo centralismo!) e a formação de maiorias acríticas nos congressos. Avante!
O que poderia parecer estranho era a tolerância e até o aparente carinho com que os poderes políticos e partidários se referem aos movimentos horizontais de intervenção socio-política, do tipo do 15M. Mas aqui joga a circunstância de “o touro” não ser perigoso, pela natureza do seu corpo (social) e pelos métodos pacifistas que adopta. Afinal, quando “o mal” está controlado, basta mantê-lo sob vigilância. Enquanto for possível.
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2011/08/23
2011/07/25
O problema é o sistema
Foto recortada de lainformacion.com Também há quem diga que o problema é "o paradigma", e há quem fale em "modelo de desenvolvimento"... O tempo dirá para onde pende mais a correlação de forças - mais que de palavras.
Enquanto "Democracia real, já!" não é para já, "tomar la calle" é um bom princípio, provado que nem a "Comunicação Social" nem os parlamentos se revelam espaços de representação real ou suficiente.
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2011/06/16
Quem julga os juízes?
Um mês depois de nascer o Movimento 15M, de Espanha, um grupo integrante dos seus “indignados” tentou impedir de forma violenta a entrada dos 135 deputados que compõem o parlamento da Catalunha.
«... incidentes que esta mañana han obligado al Gobierno catalán y 24 diputados a acceder en helicóptero al Parlament de Cataluña tras los ataques que han sufrido varios parlamentarios cuando trataban de acceder a la Cámara»
«... Los indignados habían pedido por carta a los diputados del Parlament que no acudieran a la sesión plenaria para tramitar los presupuestos de la Generalitat y que boicotearan los recortes. En la misiva instaban a los parlamentarios que a título individual, "si son conscientes de lo que supondrán los recortes para la mayoría de la población", no acudieran al Parlament. "Si venís y nos encontráis a la puertas, dad la vuelta o uniros a nosotros", proclamaban». EL PAÍS
Em Espanha discute-se a legitimidade das acções do Movimento 15M, independentemente das acções violentas e das motivações sociais concretas.
De notar que este protesto visava contestar um debate agendado sobre o orçamento da Catalunha que prevê uma redução em cerca de 10 por cento das despesas públicas e de prestações sociais e na área da saúde.
Há uma tendência de políticos e jornalistas para que se estabeleça uma forma de comunicação do Movimento com o Parlamento e, desde logo, se identifiquem os seus objectivos e representantes. Não percebem que os “indignados” rejeitam os deputados e os governantes como interlocutores; denunciam, pelo contrário, o sistema com que estes dominam a sociedade.

Representantes? Programas? Acordos? Subordinação ás legitimidades formais? Isso são as ferramentas "legitimadoras" da dominação. Essa é a armadilha em que não podem deixar-se prender. O seu papel não é governar, é denunciar e exigir aos governantes que governem ao serviço da nação, quando os deputados não querem ou não são capazes de assumir essa função.
Os cidadãos não precisam de ser dentistas para saberem que lhes doem os dentes, não precisam de ser economistas para saber que não ganham para viver nem precisam de ser advogados para se oporem à corrupção. Não têm que envolver-se em discussões técnicas mas avaliar a prática governativa.
Alguém terá que julgar os juízes!
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