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2012/11/24

As pedras e as palavras

Até hoje, nenhum post inserido aqui teve tanto a ver com o título deste blogue - nome e imagem! Mas isto não é tanto um artigo, é mais um comentário a um artigo de JN.


Na comparação que faz entre o apoiante de Passos Coelho, provocador que apareceu num comício do PS, e os indivíduos que estiveram a atirar pedras à polícia, digo aos polícias, na sequência da recente manifestação de 14 de Novembro, JN deixa-me perplexo. A consideração que tenho por ele, se é quem penso que é, inibe-me de dizer mais!

Em todo o restante argumentário, no entanto, o JN prossegue numa lógica formal sobre teses “moralistas” e teses “militaristas” e sobre a diferença entre “os fins e os meios”, que me fazem duvidar das suas competências filosóficas, de tal modo se deixa levar pelas palavras – destas dizia Sartre, em "Les Mots", que são de tal modo fascinantes que por vezes nos fazem perder a noção da realidade – passe a citação de memória. Começo a duvidar, enfim, que o JN seja quem eu penso.

Finalmente o JN não percebeu que o que distingue aqueles indivíduos, de Gandhi, é que este estava verdadeiramente empenhado na revolução social e por isso, consciente da desproporção de forças com que contava, não se deixava entusismar com fogachadas contra forças bem armadas, arremetidas que duram apenas duas horas ou o tempo que as autoridades quiserem, e deixam um sabor a impotência, a frustração, a desistência, a divisão na base social de contestação. Definitivamente, este JN não é quem eu pensava que era.

Nem violência gratuita nem “abstenção violenta” à moda do PS. O que o país precisa é que os cidadãos reforcem a capacidade de intervenção da esquerda consequente nas instâncias do Poder, o que requer mais tempo do que duas horas, mais trabalho e mais coragem do que atirar pedras e incendiar caixas de lixo às escondidas.

Quem é o JN? Isso importa pouco. Há vários.

2012/09/20

A estratégia da provocação

Não tem época, não tem lugar. Acontece em todo o tempo e em todos os lugares. É apenas uma forma de luta – tão inteligente quanto cobarde. Quem nunca se deixou enganar pelos métodos provocatórios, certamente não frequentou os campos da batalha política.

Para dar um exemplo fácil de reconhecer, pela actualidade,
hesito entre Portugal e o Egipto mas acabarei por invocar os dois até para vermos como o vírus se adapta a contextos tão diversos.

Nas manifestações populares que decorreram em Portugal no passado dia 15 de Setembro, assistimos em Lisboa a uma acção desencadeada por um grupo de manifestantes que atiraram garrafas contra a Polícia, digo contra os polícias que porventura sofrem mais do que eles (aqueles!) os efeitos da política de empobrecimento. No Porto, outro pequeno grupo aproximou-se do pequeno palco onde populares anónimos denunciavam a política vigente - o que este pequeno grupo fazia era ruído para interferir com aqueles depoimentos, um ruído que usava palavras de ordem aparentemente adequadas às circunstâncias.


Ás vezes, como eu testemunhei agora no Porto, são menos de meia dúzia, mas a sua impetuosa animação e um megafone lhes chegam para fazer o trabalhinho que convém à Direita oficial - sujar a imagem da manifestação..

Topo-os há mais de trinta anos nas manifestações organizadas pela CGTP ou pelo PCP. O seu azar é que nestas são mais controlados. Mas até do controlo que sobre eles se exerce para manter as manifestações em ordem, eles tiram partido, dizendo que “um grupo independente” foi impedido por aquelas organizações, de se manifestar – isto é, de provocar, desvirtuando os objectivos e os métodos dos organizadores.

Alguns órgãos de Informação fazem o maior eco possível destas acções provocatórias e exportam “o produto” para o estrangeiro. Este trabalho é remunerado. O que fazem os provocadores, só faz sentido se também for…

Ontem, na Assembleia da República, Carlos Abreu Amorim, ex-analista político "independente", agora deputado do PSD, fazendo o jogo dos provocadores invocou os distúrbios ocorridos junto ao edifício do Parlamento. Mas a sua intervenção saiu-lhe mais frustrada ainda que a tentativa dos "meninos queques" apalhaçados de meninos pobres.

Quanto às caricaturas de Maomé que têm vendido jornais e filmes e têm comprado ódios e retaliações desnecessários, não visam ajudar os EUA e a França a pacificar as suas relações com o mundo muçulmano. Mas ajudam certamente o Partido Republicano americano e os conservadores franceses, à falta de estratégias mais sérias para contrariar os efeitos dos resultados eleitorais naqueles países – resultados previsíveis ou apurados, respectivamente. E que dizer dos efeitos que esta “arte pela arte” provoca na árdua luta dos muçulmanos progressistas pela laicização dos seus estados?

2011/07/25

O problema é o sistema

Foto recortada de lainformacion.com

Também há quem diga que o problema é "o paradigma", e há quem fale em "modelo de desenvolvimento"... O tempo dirá para onde pende mais a correlação de forças - mais que de palavras.

Enquanto "Democracia real, já!" não é para já, "tomar la calle" é um bom princípio, provado que nem a "Comunicação Social" nem os parlamentos se revelam espaços de representação real ou suficiente.

2011/06/16

Quem julga os juízes?


Um mês depois de nascer o Movimento 15M, de Espanha, um grupo integrante dos seus “indignados” tentou impedir de forma violenta a entrada dos 135 deputados que compõem o parlamento da Catalunha.

«... incidentes que esta mañana han obligado al Gobierno catalán y 24 diputados a acceder en helicóptero al Parlament de Cataluña tras los ataques que han sufrido varios parlamentarios cuando trataban de acceder a la Cámara»
«... Los indignados habían pedido por carta a los diputados del Parlament que no acudieran a la sesión plenaria para tramitar los presupuestos de la Generalitat y que boicotearan los recortes. En la misiva instaban a los parlamentarios que a título individual, "si son conscientes de lo que supondrán los recortes para la mayoría de la población", no acudieran al Parlament. "Si venís y nos encontráis a la puertas, dad la vuelta o uniros a nosotros", proclamaban».
EL PAÍS

Em Espanha discute-se a legitimidade das acções do Movimento 15M, independentemente das acções violentas e das motivações sociais concretas.

De notar que este protesto visava contestar um debate agendado sobre o orçamento da Catalunha que prevê uma redução em cerca de 10 por cento das despesas públicas e de prestações sociais e na área da saúde.

Há uma tendência de políticos e jornalistas para que se estabeleça uma forma de comunicação do Movimento com o Parlamento e, desde logo, se identifiquem os seus objectivos e representantes. Não percebem que os “indignados” rejeitam os deputados e os governantes como interlocutores; denunciam, pelo contrário, o sistema com que estes dominam a sociedade.


Representantes? Programas? Acordos? Subordinação ás legitimidades formais? Isso são as ferramentas "legitimadoras" da dominação. Essa é a armadilha em que não podem deixar-se prender. O seu papel não é governar, é denunciar e exigir aos governantes que governem ao serviço da nação, quando os deputados não querem ou não são capazes de assumir essa função.

Os cidadãos não precisam de ser dentistas para saberem que lhes doem os dentes, não precisam de ser economistas para saber que não ganham para viver nem precisam de ser advogados para se oporem à corrupção. Não têm que envolver-se em discussões técnicas mas avaliar a prática governativa.

Alguém terá que julgar os juízes!

2011/03/17

Algazarra e explosão

A manifestação da chamada “Geração à Rasca”,
do passado dia 12 de Março de 2011, vale muito
pelo que revela ou confirma do estado de espírito da sociedade mas parece valer pouco como instrumento para melhorá-la.
Do ponto de vista subjectivo, isto é, do sentimento dos participantes, tanto quanto se possa identificar em conjunto, sobressai a expressão de descontentamento com os poderes, isto é, com os representantes da população nos orgãos de poder, quer estejam em exercício ou em oposição.


Contra o poder em exercício, contestam (algumas) políticas adoptadas; contra as oposições partidárias denunciam a incapacidade destas para interpretar a vontade da população ou para serem eficazes na oposição que encenam. Os manifestantes pretendem afirmar-se como vozes genuínas contra a algazarra geral. As motivações de cada grupo de interesses dilui-se neste inócuo propósito de afirmação. Reproduzem a algazarra mas de forma desorganizada.

Do ponto de vista das motivações, o que parece mais saliente são reivindicações ligadas com o direito ao trabalho e às condições de trabalho, nomeadamente o combate à generalização do trabalho precário. Nada que não seja dito, argumentado e insistido diariamente pelas organizações sindicais e políticas de esquerda, todos os dias e em todos os foros, afinal, pelo que se exprime a desconfiança dos manifestantes em tais organizações – fica o recado! O que esta forma de manifestação acrescenta é a demonstração do caracter plural e amplamente abrangente do descontentamento.

Nesta forma alternativa de algazarra desorganizada, não se adivinham as consequências sonhadas por alguns - é bom ter presente que não estamos (ainda) perante uma revolta. Mas que aquecem as condições sociais para uma “mudança de paradigma” no combate político, lá isso aquecem.
Para pôr água na fervura têm os políticos profissionais, métodos conhecidos que vão das remodelações governamentais até às eleições antecipadas. Mas há que ter em conta o exemplo das centrais nucleares japonesas: quando o sismo
da deterioração social se junta ao "sunami" do descontentamento, não haverá água que chegue para arrefecer os motores da revolta.

Nessa altura, o melhor que pode acontecer é a explosão do paradigma liberal. Até lá, vão-se contando as vítimas.

2011/02/23

Democracia quê?

A subida dos preços dos alimentos, tratada no G20, e a subida dos preços do petróleo e do gás, decorrentes das crises políticas do Médio Oriente e norte de África, juntam-se aos problemas de dívida soberana com que se confrontam os países desenvolvidos da Europa e da América do Norte, especialmente.

São elementos demasiados e demasiado fortes para que se vislumbre uma solução. Para já não falar das divisões que provocam entre os países.

Por sua vez, a recessão nestes países leva a retrair despesas, isto é, investimentos, prestação de serviços, salários e empregos. As migrações tenderão a recuar para os países pobres de origem e as tensões farão sentir-se nuns e noutros por todas as razões mencionadas.

Retracção económica e conflitualidade social é o que se pode esperar nestas circunstâncias. Será que se encontrarão saídas satisfatórias para o problema económico, nomeadamente através de um “novo paradigma”?

Por enquanto, a recessão económica parece alimentar, por oposição, alguns avanços democráticos. Seguir-se-ão avanços mais radicais, isto é, respostas que vão à raiz dos problemas, à democracia económica?
Não parece que os poderes nacionais e transnacionais, políticos e económicos, estejam disponíveis para fazer esse caminho de recuo nas suas estratégias, antes pelo contrário, mas talvez seja porque a água ainda não chegou aos tornozelos.

2010/11/17

Carta histórica

«... Todos estamos de acordo em que há dois problemas fundamentais, sem cuja solução não poderá haver paz social, sejam quais forem as aparências. O primeiro é que os frutos do trabalho comum devem ser divididos com equidade e justiça social entre os membros da comunidade, quer no ponto de vista dos indivíduos quer no dos sectores sociais».
(...)
«O segundo é que, seja qual for o conforto ou riqueza que se atribuam a um indivíduo ou a uma classe, nunca eles estarão satisfeitos enquanto não experimentarem que são colaboradores efectivos, que têm a sua justa quota-parte na condução da vida colectiva, isto é, que são sujeito e não objecto da vida económica, social e política».
(...)
«Nestes termos e pedindo me releve a recta intenção em tudo quanto possa ter magoado V. Exa e reiterando a expressão da minha muita consideração pessoal, fico aguardando ordens de V. Exa e subscrevo-me
De V. Exa
Venerando e muito obrigado
a) António, Bispo do Porto

13 de Julho de 1958

(Fim de citação)

Sendo eu António e do Porto, não sou o autor deste texto como acima ficou esclarecido - extraí-o da carta histórica que deu origem ao exílio de António Ferreira Gomes (na foto).

Tampouco pretendo fazer comparações de personagens ou de contexto senão naquilo que este excerto denuncia: a vocação dos dirigentes políticos para abusarem do poder que supostamente pertence ao povo.


Até para que os mais distraídos compreendam o sentido de uma greve geral.

2010/09/27

Chá das cinco

Eram cinco mulheres. Mulheres de seus maridos. Todos ricos. Todos grandes-empresários. Por sorte, os próprios filhos eram também ricos. Encontravam-se elas uma vez por mês.

Tudo começou por causa da Boazona que era uma delas e que ninguém se atrevia a identificar com aquele palavrão senão à socapa. Mas não se ponham já a imaginar um conto erótico porque a vantagem da senhora era apenas, para o que aqui nos trás, suscitar o mêdo do marido, de contrariá-la. O risco de perdê-la seria para ele, antes de mais e acima de tudo, perder uma vantagem sobre os seus pares que em tudo o resto eram iguais a ele em capitais fixos e flutuantes, casas, iates e talvez amantes – isto não está provado.

Um dia, uma noite em que o marido saía de casa para o encontro mensal dos cinco amigos, por assim dizer, a Boazona puxou discretamente a saia mais para cima e reivindicou: se eles podiam reunir-se sozinhos, então elas também podiam organizar um chá por mês, só para mulheres. Dadas as circunstâncias e a atenuante de pensar que o chá seria à tarde como é tradição, ele fez de conta que achava muito bem, que até já tinha pensado nisso, que era justo... E se havia homem justo, era ele. Aqui para nós, ele não levava muito a sério o que dizem as mulheres, pelo que levou aquilo à conta de queixume, uma pequena cena de ciúmes sem consequências.

Depressa as mulheres se organizaram – como é próprio das mulheres – e no mês seguinte, quando ele se preparava para sair para a tal reunião, a que os empregados do bar chamavam o G5, ela perguntou se ele podia levá-la para o chá das senhoras. Surpreendido, gaguejante, mas ponderando o mêdo de perder a mulher, ou a sua consideração, o que ia dar ao mesmo, fez uma ou duas perguntas inúteis e dispôs-se a dizer que sim, não sem conferir primeiro que a saia estava à altura conveniente.

Quando chegou ao bar, espaço discreto inserido nos bairros de vivendas da Boavista, a Boazona já encontrou uma das convivas, a Dona Constança, alta e magra como os eucaliptos que o seu marido transformava – mandava transformar – em pasta para papel. Esta combinação entre “pasta” e “papel” dominava a vida dele desde o primeiro dia em que tomou consciência da sua existência.

Dona Constança não era muito dada a falar do marido, se é que havia alguma coisa para dizer além do que eu próprio acabei de contar, mas aquela penumbra aluarada, aquele envolvimento dos arbustos à entrada do bar, puxava às confidências. Daqui a desabafar que o marido andava angustiado por causa do filho, foi o tempo de fumar um cigarro.

A questão era que o marido queria dar um Ferrari ao filho – para quem não souber, Ferrari é um automóvel para mais de duzentos mil euros - mas o filho não queria. Era fascinado por motas e achava isso dos Ferraris uma coisa de “cotas”, o ingrato. A Boazona nem precisou de perguntar porque é que o marido da Constança não dava antes uma mota ao filho, ele que lhe podia dar até a Mota-Engil. Era o único filho do G5 que não tinha ainda um Ferrari, esta a explicação. Entretanto vão chegando as outras senhoras e muda-se a conversa, de carros para vestidos, brincos e aneis - que por ser Verão não seria oportuno trazer à liça os casacos de peles.

Coincidência ou não, no bar dos empresários a conversa era sobre esta iniciativa das mulheres deles se encontrarem no seu próprio G, passe a expressão no que possa insinuar de ambiguidade. O marido de Constança, porém, era o mais apreensivo, a ponto de os outros comentarem: «Não te preocupes, homem. Vais ver que aquilo lhes passa. Não tarda muito que se zanguem e acaba-se o chá».

Ele exprimiu um sorriso da cor do seu whiski como se aceitasse por bom o que diziam. Mas, na verdade, não era nisso que pensava. Apenas fazia contas a quantos empregados teria que despedir para comprar uma mota e um Ferrari.

Era 28 de Setembro, a véspera das manifestações promovidas pela CGTP/Intersindical Nacional para Lisboa e Porto. Na Imprensa, na Rádio e na Televisão a opinião dos políticos, dos economistas e até dos jornalistas era unânime: "o país" precisava de medidas mais sérias de austeridade!