Esta é uma história verdadeira. É verdadeiro que ma tenham contado, pelo menos. E tendo sido minha avó a contá-la, senhora de fé e prática religiosa, temente a Deus e crente no Inferno, mais credível se torna. Além de que a minha avó não era pessoa com formação académica suficiente para inventar histórias.
O que ela contou a minha mãe e minha mãe a mim, foi que minha avó, em criança, era vizinha de um tal bispo que não vou mencionar porque toda a gente reconheceria atendendo ao elevadíssimo grau a que ascendeu na sociedade portuguesa no tempo de Salazar.
Sendo vizinhos, a minha avó e o tal bispo, quando nem ele era bispo nem minha avó sonhava ser avó, ainda crianças ambos, ajudavam os pais, lavradores e lavradeiras, em terras de Famalicão.
Quando digo terras é de terras mesmo que estou a falar, não de lugares. Dessas terras de que falava Jesus quando dizia que um homem lançou semente à terra e etc.. Dessa terra onde medram as cebolas, as batatas, as alfaces e as pencas, tanto mais quanto a água e o adubo ajudarem.
O adubo, àquele tempo, era o estrume, matéria orgânica resultante da defecação dos animais, excremento, fezes, bosta. Recolhia-se ao longo dos caminhos por onde andavam vacas ou cavalos ou mesmo outras bestas. Por isso era vulgar que os agricultores se encarregassem de recolher o produto onde ele abundava e para os fins a que se destinava, conforme já expliquei. Mas porque fosse fácil de fazer ou pouco dignificante, também era frequente que os agricultores encarregassem os filhos do mester. E é assim que ocorre o que a minha avó relata.
No dia em que o bispo foi à merda, mandado pelos pais agricultores, a minha avó viu e fixou para memória futura como se já soubesse a importância que esse testemunho haveria de ter para mim, para este conto ou até para a História de Portugal.
Consta que minha avó, antevendo os frutos que haveriam de vir para o vizinho, ainda tentou seguir-lhe as pisadas mas foi logo avisada que há coisas que não estão destinadas às mulheres. E a maior importância que teve enquanto viveu, além de ser minha avó, foi ter visto um bispo ao adubo.
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2014/10/19
2014/09/01
Divina inspiração
Manel, dono de um bar, quando queria fechar, corria os clientes delicadamente, desligando o ar condicionado e baixando progressivamente as luzes. Dizia que aprendeu com Deus que assim procede nas praias…!
Na verdade, o Manel nunca tinha o bar muito fresco, porque o calor levava os clientes a consumir mais cerveja. Neste particular, não sei se Deus nos dá dias tão quentes pela mesma razão.
Finalmente, o Manel, empreendedor e criativo à imagem do próprio Criador, confrontado com a crise económica, procedeu a uma “reforma estrutural”: montou bar na própria praia, deixando ao seu Mentor a tarefa de controlar a luz e a temperatura.
Na verdade, o Manel nunca tinha o bar muito fresco, porque o calor levava os clientes a consumir mais cerveja. Neste particular, não sei se Deus nos dá dias tão quentes pela mesma razão.
Finalmente, o Manel, empreendedor e criativo à imagem do próprio Criador, confrontado com a crise económica, procedeu a uma “reforma estrutural”: montou bar na própria praia, deixando ao seu Mentor a tarefa de controlar a luz e a temperatura.
2012/07/13
História de um chapéu
quando perde a cabeça
Esta é a história de um chapéu que perdeu a cabeça. Não falo em sentido figurado, de perder o juízo; falo em perder a cabeça propriamente dita.
Trata-se de um chapéu que, pela estima que lhe tinha o dono ou pela forma como a cabeça se lhe ajustava, se afeiçoou àquele que o usava como eu só conheço na afeição dos apaixonados e dos cães.
Nisto do afecto escapou a obra ao criador, como tantas vezes acontece, porque quem faz chapéus não quer deles senão que tenham quem os compre e quem os pague, sendo-lhe estranho o valor afectivo.
Foi o que me fez pensar que há na mercadoria e no que se lhe compare, vida própria, e assim como um chapéu, uma cerejeira ou uma casa, podem ser muito mais do que coisas negociáveis ou “reestruturáveis”, dependendo da função que tiveram na vida dos seus usuários, assim uma praça, uma escola, um hospital, não podem ser entregues apenas ao arbítrio da Economia, mas também ao domínio da História e da Cultura, raízes, tronco e flores da nossa identidade, da nossa realidade e da nossa felicidade.
Este pode parecer um discurso conservador. Em algum sentido, talvez seja. Mas para que serve ao Homem um "progresso" que destrói o próprio Homem, convertendo-o em máquina, avaliando-o em bolsa? Sacrificar o domínio financeiro ao domínio humano, no contexto do caos a que nos trouxe o liberalismo económico, isso sim é indispensável ao progresso. Quem não entender isto nunca entenderá as convulsões sociais que se desenrolam fora das sedes do poder político-económico.
O chapéu é de palha – não vale nada na Bolsa. Mas não sossegará enquanto não voltar à cabeça que lhe deu uma alma. E quando se perde a cabeça, tudo pode acontecer.
A imagem reproduz o autoretrato de Van Gogh, «O Chapéu de Palha».
Trata-se de um chapéu que, pela estima que lhe tinha o dono ou pela forma como a cabeça se lhe ajustava, se afeiçoou àquele que o usava como eu só conheço na afeição dos apaixonados e dos cães.
Nisto do afecto escapou a obra ao criador, como tantas vezes acontece, porque quem faz chapéus não quer deles senão que tenham quem os compre e quem os pague, sendo-lhe estranho o valor afectivo.
Foi o que me fez pensar que há na mercadoria e no que se lhe compare, vida própria, e assim como um chapéu, uma cerejeira ou uma casa, podem ser muito mais do que coisas negociáveis ou “reestruturáveis”, dependendo da função que tiveram na vida dos seus usuários, assim uma praça, uma escola, um hospital, não podem ser entregues apenas ao arbítrio da Economia, mas também ao domínio da História e da Cultura, raízes, tronco e flores da nossa identidade, da nossa realidade e da nossa felicidade.
Este pode parecer um discurso conservador. Em algum sentido, talvez seja. Mas para que serve ao Homem um "progresso" que destrói o próprio Homem, convertendo-o em máquina, avaliando-o em bolsa? Sacrificar o domínio financeiro ao domínio humano, no contexto do caos a que nos trouxe o liberalismo económico, isso sim é indispensável ao progresso. Quem não entender isto nunca entenderá as convulsões sociais que se desenrolam fora das sedes do poder político-económico.
O chapéu é de palha – não vale nada na Bolsa. Mas não sossegará enquanto não voltar à cabeça que lhe deu uma alma. E quando se perde a cabeça, tudo pode acontecer.
A imagem reproduz o autoretrato de Van Gogh, «O Chapéu de Palha».
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