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2023/08/04

A histeria das massas e dos mass-media

(Imagem do site oficial JMJ Lisboa 2023 / Franciscanos)

Vem de longe a consciência de que a colectividade é uma realidade distinta dos indivíduos e da sua mera soma.
Freud assinala, na psicologia de massas, duas características típicas: o sentimento de desresponsabilização individual – se tantos fazem, eu também posso ou devo fazer– e o seguidismo – a obediência a um líder cujo carisma legitima o comportamento colectivo. A irracionalidade do populismo ou da crença religiosa, por exemplo, encontram neste mecanismo psicológico uma grande parte da sua explicação. A demagogia é o seu instrumento promocional – digo eu.

Ortega y Gasset fala da divisão entre duas classes de criaturas: as que exigem muito de si e acumulam sobre si mesmos dificuldades e deveres, e as que não exigem de si nada de especial, pois para elas viver é ser em cada instante o que já são, sem esforço de aperfeiçoamento em si mesmas, bóias que andam à deriva.

De outro ponto de vista, talvez haja uma consciência mais profunda do que pode parecer: a consciência de que “o caminho é melhor do que o destino”, como dizia Cervantes. E, sendo assim, o objectivo anunciado assume uma importância secundária ou é apenas um pretexto para a caminhada. O que é mais exaltante na descoberta da América, é a América ou é a viagem de Colombo?

No contexto da vinda do Papa a Portugal por ocasião da Jornada Mundial da Juventude, penso que os “peregrinos” estão pouco interessados no Papa e menos ainda em Jesus Cristo do que na peregrinação em si mesma com tudo o que oferece de diversão e convívio. E a própria motivação da Igreja é menos a evangelização do que o recrutamento de aderentes, numa fase da História em que a evolução cultural e informativa das pessoas deixa cada vez menos espaço à irracionalidade e à ignorância, logo, à mensagem religiosa. Resta a seu favor a vantagem de oferecer o conforto psicológico da alienação, a que outros chamaram “o ópio do povo”. O que, no entanto, não é pouco.

2014/09/17

Terceira Guerra à vista?

Subscrevo, muito modestamente, a tese do Papa, segundo a qual está em curso a Terceira Guerra Mundial. E ele que se cuide mais que eu...


Reunindo mais de 30 estados, entre os quais há 10 países árabes, o combate internacional ao terrorismo do Estado Islâmico acolhe finalmente uma dimensão numérica quase comparável ao das forças aliadas contra o nazismo na Segunda Guerra Mundial. Num e noutros casos, a monstruosidade do inimigo comum engendra as alianças mais imprevisíveis.

O califa de Abu Bakr al Bagdadi substitui o Terceiro Reich, e a “civilização cristã” ocupa o lugar dos judeus como povos ameaçados, mas o que motiva os soberanos loucos na sua crueldade é o fanatismo ideológico associado a uma febre absoluta e paranóica de domínio.

«Eu sigo o caminho que a providência me indica com a segurança (confiança?) de um sonâmbulo» - atribui-se a Hitler. E também «A natureza é cruel; então também estamos destinados a ser cruéis. Temos de ser cruéis». E o resultado é que a Segunda Guerra Mundial custou a vida de 50 a 70 milhões de pessoas – para não falar de tudo o resto.

Ao que parece, aquilo que explica as adesões de militantes, além de ambições subjectivas, continua a ser a manipulação ideológica favorecida pela ignorância. Isso explica que o recrutamento seja feito entre jovens permeáveis a conceitos extremistas de fidelidade e sacrifício suportados por uma lógica moral ou religiosa. E em contextos obscurantistas de pensamento único.

O que o mundo tem a aprender daqui - passe a presunção, uma vez mais - é que um país onde a liberdade de informação e a cultura sejam depreciadas, é uma fonte de conflitos irracionais e cruéis. E neste tipo de conflitos não há soluções negociadas.

2014/02/04

Os sacanas de amanhã

Há quem fale de praxes boas e praxes más, porém o que eu vejo são praxes estúpidas e praxes violentas. Mas não há que admirar que haja tantos jovens a aprovar ou tolerar as praxes; é que os jovens de hoje são os sacanas de amanhã. Também os homens sérios e generososos, inteligentes e até heróicos de amanhã, felismente.

Eles andam aí, uns e outros. Estão na altura de escolher o seu papel na História.



Sobre o assunto subscrevo a análise de José Gomes André em Delito de Opinião, de Abril de 2009!, que transcrevo parcialmente.

"Diz-se que a tradição da praxe serve para "integrar" e "facilitar o entrosamento" e que apenas é reprovável se executada com violência e sem moderadação. Nada mais errado. O equívoco reside nesta dicotomia, que define os contornos de uma praxe “boa” e de uma praxe “má”. A primeira procuraria familiarizar os indivíduos com a instituição a que agora pertence; a segunda utilizaria meios violentos para o atingir.

Trata-se de uma mistificação. A essência da praxe não é a “integração”, mas sim a humilhação. A praxe não existe para introduzir um indivíduo num contexto social harmónico ao qual ele aspira pertencer, mas sim para clarificar desde logo a relação de forças que existe nesse mesmo contexto, ou seja, para tornar evidente que o noviço se encontra na base da estrutura hierárquica da instituição, devendo submeter-se às condições impostas pelo topo da pirâmide.

(...) Não se trata pois de um ritual iniciático, cujo móbil é o desejo de inscrever e assimilar. A praxe é uma cerimónia puramente exclusiva, que define os espaços interditos ao aspirante, confinando-o às rígidas fronteiras da hierarquia imutável da instituição. Na verdade, só o tempo permitirá a ascensão na pirâmide, embora apenas com o intuito de cristalizar a ordem pré-definida. Em rigor, a praxe é o mais acabado e cínico exercício de mumificação que as sociedades modernas engendraram.

Uma sociedade civilizada devia erradicar este fenómeno puro de exclusão, esta coacção psicológica necessariamente violenta, esta forma de opressão perpétua. Num mundo esclarecido, não há lugar para a praxe".

2011/05/30

As revoltas dos jovens

Os jovens revoltosos não-organizados que tiveram particular expressão nos anos 60, manifestavam-se então por dois fenómenos: o aparecimento de novas designações (incluindo neologismos) e de “fogachos”, isto é, ocorrências desordenadas.
As designações originais respondem a características da juventude: inadaptação ao sistema socio-político, necessidade de identificação e comunicação próprias de grupo, de bando.

No final dos anos 50 e princípios dos anos 60 do século 20, a Suécia, a França a Inglaterra, a Índia assistiram a violentas acções de massas de jovens, por vezes grupos com menos de 20 anos de idade, no seio das quais se integram vadios mas também sectores desfavorecidos do meio laboral, em todo o caso rebeldes sem causas instituídas, sem organização prévia e sem lideranças.

Uma existência angustiada e uma força vital impetuosa, parecendo contraditórias embora, coincidem num sentimento estimulante para a luta e para a luta desorganizada: o desespero!
Lá onde as revoltas se identificam com motivações socio-políticas mais concretas do que a contestação da ordem e da autoridade, como seja a recusa da guerra (como na Argélia e no Vietname) e a recusa da repressão política (fascismos e estalinismos), as lutas dos jovens encontram por vezes eco noutras camadas etárias e organizadas.

O meio universitário é particularmente combustível para acções de contestação e reivindicação colectiva de autonomia e de reformas. Do Líbano a Paris, da Itália à Inglaterra, da Checoslováquia comunista à Espanha franquista, os estudantes exigem, combatem e contagiam. E por exigência natural das próprias acções que desencadeiam, organizam–se.

Da contestação abstracta à identificação de objectivos, dos confrontos anárquicos à luta organizada, as revoltas dos jovens não-organizados ganham em eficiência o que perdem em tempo? Talvez haja espaço para as duas formas de intervenção, certos que haverá algumas colisões entre as duas correntes. Mas isso é outro tema que talvez venha a tomar a pretexto do "Maio de 68".

NOTA: O título deste artigo reproduz o título da obra onde recorto a maior parte da informação aqui produzida. O autor do livro de 1969 é J. Joussellin. Uma sugestão para a Feira do Livro em curso.