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2011/07/03

Independência nacional

No dia 28 de Junho estive numa sessão de lançamento do livro “Tempo de Barbárie e Luta”, de Miguel Urbano Rodrigues, desta vez no Clube Literário do Porto.

Embora as intervenções e perguntas fossem para outras latitudes, eu queria ouvi-lo sobre a América-Latina, região que tão bem conhece. Da sua resposta recorto as seguintes passagens, não porque fossem as mais relevantes para ele mas sim para mim:
“a Venezuela é hoje o principal apoio à Revolução Bolivariana” e “sem Hugo Chavez a Revolução Bolivariana desaparece”.

A importância destas afirmações feitas por um grande admirador do regime cubano e defensor do papel político positivo das Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, com quem conviveu, denunciam dois factos novos: que nem Cuba nem as FARC têm já um papel importante no devir histórico da região. E sendo Chavez um político frágil, enredado em populismo e contradições, e sem garantias de continuidade no Poder, o sonho frustrado de Simon Bolívar terá que esperar por novos heróis e novas circunstâncias que os produzam.

Simón Bolívar, apesar das lutas heroicas e generosas que travou e do legado que deixou para o imaginário da América-Latina, morreu após uma batalha dolorosa contra a tuberculose sem que o seu projecto federalista se realizasse. Chavez, corre o risco de ser vitimado pela doença da nossa época, sem méritos que se comparem aos do seu inspirador histórico. Além do mais, são outras as circunstâncias.

As circunstâncias da revolta mais depressa parecem estar a formar-se na Europa. Assim queiram os escravos do colonialismo económico que alastra no "velho continete", e não faltarão simons-bolívares.

2011/05/30

As revoltas dos jovens

Os jovens revoltosos não-organizados que tiveram particular expressão nos anos 60, manifestavam-se então por dois fenómenos: o aparecimento de novas designações (incluindo neologismos) e de “fogachos”, isto é, ocorrências desordenadas.
As designações originais respondem a características da juventude: inadaptação ao sistema socio-político, necessidade de identificação e comunicação próprias de grupo, de bando.

No final dos anos 50 e princípios dos anos 60 do século 20, a Suécia, a França a Inglaterra, a Índia assistiram a violentas acções de massas de jovens, por vezes grupos com menos de 20 anos de idade, no seio das quais se integram vadios mas também sectores desfavorecidos do meio laboral, em todo o caso rebeldes sem causas instituídas, sem organização prévia e sem lideranças.

Uma existência angustiada e uma força vital impetuosa, parecendo contraditórias embora, coincidem num sentimento estimulante para a luta e para a luta desorganizada: o desespero!
Lá onde as revoltas se identificam com motivações socio-políticas mais concretas do que a contestação da ordem e da autoridade, como seja a recusa da guerra (como na Argélia e no Vietname) e a recusa da repressão política (fascismos e estalinismos), as lutas dos jovens encontram por vezes eco noutras camadas etárias e organizadas.

O meio universitário é particularmente combustível para acções de contestação e reivindicação colectiva de autonomia e de reformas. Do Líbano a Paris, da Itália à Inglaterra, da Checoslováquia comunista à Espanha franquista, os estudantes exigem, combatem e contagiam. E por exigência natural das próprias acções que desencadeiam, organizam–se.

Da contestação abstracta à identificação de objectivos, dos confrontos anárquicos à luta organizada, as revoltas dos jovens não-organizados ganham em eficiência o que perdem em tempo? Talvez haja espaço para as duas formas de intervenção, certos que haverá algumas colisões entre as duas correntes. Mas isso é outro tema que talvez venha a tomar a pretexto do "Maio de 68".

NOTA: O título deste artigo reproduz o título da obra onde recorto a maior parte da informação aqui produzida. O autor do livro de 1969 é J. Joussellin. Uma sugestão para a Feira do Livro em curso.

2011/05/26

Exortação aos movimentos emergentes

São massas invisíveis e instáveis que, em momentos críticos, abalam, imprevisíveis e incontroláveis, a crusta suave e firme em que se desenrola a vida superficial.

Na Natureza tem um nome estranho, “tectónica de placas”; na Sociedade, mais prosaicamente chama-se “revolta”. Bem-vistas as coisas são designações equivalentes com que se exprime a desconstrução de um edifício ou, por extensão, de um sistema.

A questão política é esta: não se trata de "apoiar" um partido - em última análise, ninguém representa ninguém, ninguém merece a confiança total de ninguém. Do que se trata é de tomar “posição”, de mudar o caminho aos acontecimentos, de atrever-se por mares não navegados. É de comparar sistemas, inútil como é esta cacofonia social-democrata em busca de diferenças in-significantes.

E aqui não se trata, uma vez mais, de escolher os programas à venda – trata-se de agir, de abrir sulcos no caminho dos consensos paralizantes, de remover escolhos formais, destruir os alicerces da exploração, furar a crusta da corrupção, estremecer a Terra e libertar o Homem da asfixia a que chegou neste momento histórico. Cientes – e daí? – que a História não acaba aqui. Os políticos, os partidos, saberão "como" mudar o rumo, mas aos cidadãos comuns compete saber "para onde" querem ir.


2011/05/21

A importância do protesto

Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos. Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.

Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.

Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.

2011/03/07

A força do mêdo

Quando eu ia passar as férias à aldeia do meu pai, em criança, havia duas coisas que me divertiam especialmente: andar de bicicleta e “tocar aos bois”. No primeiro caso era um prazer compreensível de quem não tinha acesso a essa experiência durante o resto do ano, no Porto; no segundo caso, era um sentimento confuso, uma estranha consciência do poder de dominar um animal enorme.

Eu, pequeno, frágil, sem outro recurso que não fosse uma vara do meu próprio tamanho, obrigava o boi a percorrer em círculo o perímetro do poço durante todo o tempo que eu quizesse, preso o animal pelo cachaço à vara que se prendia, na outra ponta, à nora, fazendo-a subir os baldes carregados de água.

Era espantoso como o possante animal se submetia, obediente, esforçado e temeroso, a uma criança sem força e sem coragem para mais do que seguir a prudente distância o bicho poderoso e bem armado de chifres.

Esta eficácia do mêdo apesar da desproporção das forças, devia ter-me ensinado desde cedo aquilo que só vim a compreender com a consciência política: o poder do mêdo. E pensar que já compreendi, talvez seja um engano.

A foto que acrescento a seguir , ilustra uma situação comparável, numa fazenda do Brasil.
Quando assisto ás revoltas que disparam pelo norte de África e Médio Oriente, eu vejo como é frágil o Poder que submete os povos pelo mêdo, mais que tudo. E como estes se agigantam e tornam invencíveis quando se libertam do jugo que os domina cruelmente. E como tardam, quantas vezes, a tomar consciência da sua própria força.


A primeira foto foi encontrada num site de Oliveira de Azemeis

2011/02/23

Democracia quê?

A subida dos preços dos alimentos, tratada no G20, e a subida dos preços do petróleo e do gás, decorrentes das crises políticas do Médio Oriente e norte de África, juntam-se aos problemas de dívida soberana com que se confrontam os países desenvolvidos da Europa e da América do Norte, especialmente.

São elementos demasiados e demasiado fortes para que se vislumbre uma solução. Para já não falar das divisões que provocam entre os países.

Por sua vez, a recessão nestes países leva a retrair despesas, isto é, investimentos, prestação de serviços, salários e empregos. As migrações tenderão a recuar para os países pobres de origem e as tensões farão sentir-se nuns e noutros por todas as razões mencionadas.

Retracção económica e conflitualidade social é o que se pode esperar nestas circunstâncias. Será que se encontrarão saídas satisfatórias para o problema económico, nomeadamente através de um “novo paradigma”?

Por enquanto, a recessão económica parece alimentar, por oposição, alguns avanços democráticos. Seguir-se-ão avanços mais radicais, isto é, respostas que vão à raiz dos problemas, à democracia económica?
Não parece que os poderes nacionais e transnacionais, políticos e económicos, estejam disponíveis para fazer esse caminho de recuo nas suas estratégias, antes pelo contrário, mas talvez seja porque a água ainda não chegou aos tornozelos.