Porque hoje é domingo 81

Era um tempo em que havia mais profetas do que hoje há comentadores políticos ou políticos comentadores e, tal como estes, dedicavam-se a prever o futuro e anunciar desgraças.

Entre eles aparece um tal João Batista de que fala a homilia deste domingo. Lê-se (Mat. 3, 1-12) que ele avisou da chegada do “reino dos céus” e daquele que viria depois dele, referindo-se a Jesus ao que tudo indica.

Duvido que o profeta João Batista tivesse profetizado a sua própria desgraça, ele que seria preso por delito de opinião e extremismo revolucionário, “arrastando multidões” atrás de si.


Mais duvidam alguns historiadores que tenha sido decapitado por capricho duma gaja da corte de Herodes. O certo é que há registo “fotográfico” e a cores, destes horrores à maneira jihadista.

Quanto à mensagem do falecido, ainda em vida - se era vida andar pelo deserto vestido com pelos de camelo e “alimentando-se de gafanhotos e mel silvestre” - o que ele anunciava era o que nós sabemos que “vai acontecer” daqui a menos de um mês: o nascimento de Jesus!

Não foi grande proeza ter ele profetizado "a vinda" de Jesus, uma vez que eram primos com apenas seis meses de diferença. Pela mesma razão podemos nós “profetizar” que toda a história à volta do “enviado de Deus” é um conluio familiar em que participam os dois protagonistas anteriores e as suas mães, Maria e Isabel, sem esquecermos um tal Gabriel a que chamaram anjo mas que tudo indica estar demasiado relacionado com o emprenhamento destas duas irmãs.

E por aqui me fico antes que uma Salomé qualquer peça a minha cabeça.

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Maldita lucidez

O PCP fecha os olhos à natureza autoritária de regimes pró-comunistas com a mesma tolerância e esperteza com que a Igreja fecha os olhos ao fariseismo dos seus sacerdotes. Não há outra forma de sobreviverem como instituições, de tal modo alguns elementos da sua história e a sua doutrina, cumplicidades e contradições, estorvam a sua imagem sagrada.

Mas o que é desarmante para quem quer ou precisa de seriedade nos processos e nos argumentos, é que isto funciona e, em boa medida, funciona bem. Vejam-se as multidões devotas de Nossa Senhora e de Fidel Castro. Acerca deste, lê-se no editorial do último Avante, que teve “uma vida inteiramente consagrada aos ideais da liberdade”…

Enfim, para quem precisa de um mundo racional para viver, este não é o mais adequado. Por isso recomendo: Pensadores de todo o mundo, matem-se!

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ambiguidades

Elegemos com o coração

À hora a que escrevo este texto, o primeiro-ministro português, republicano, oferece um jantar de boas-vindas aos monárquicos reis de Espanha. A diferença ideológica entre um e outros é tão irrelevante para o convívio político, quanto a ementa.

Como já se viu, a população está mais interessada (exclusivamente interessada?) na beleza do casal Filipe e Letícia e nos seus sorrisos do que nas suas ideias. E não é uma simples questão de “alienação de massas”, é porque eles são a representação viva de um mito alimentado ao longo de milénios: de que os reis e raínhas são deuses humanos.

Mas esta relativização da importância das ideias em relação ao fascínio das pessoas em si mesmas, está presente em circunstâncias mais comuns. Ela pesa também nos critérios com que os cidadãos elegem os seus “ídolos” políticos.

Será que elegemos com o coração?

Foi impróprio mas não foi destituído de verdade o que disse Jerónimo de Sousa acerca da primeira volta das eleições presidenciais: que o Partido Comunista teria melhores resultados se tivesse “arranjado uma candidata mais engraçadinha”. Referia-se à candidata Marisa Matias do Bloco de Esquerda. Mas o fenómeno Mariana Mortágua, do mesmo partido e por maioria de razão, é outro exemplo indisfarçável, embora involuntário, deste efeito de sedução na política.

Bom proveito, magestades! Bom proveito, Portugal!

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Fidel visto por Daniel

Não aprecio a postura pessoal de Daniel Oliveira - a falta de respeito democrático com que participa nos debates, para já não invocar snobismos menos públicos. Mas assim como "Deus escreve direito por linhas tortas", o Daniel Oliveira escreveu um "ensaio" no Expresso que diz tudo o que eu diria sobre Fidel Castro, se eu tivesse as suas capacidades - do Daniel, entenda-se.

Seja como for, para aquilo que me pagam, já não é mau que me dê ao trabalho de sugerir a leitura do seu feliz artigo que se lê AQUI.

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Porque hoje é domingo (80)

Jesus, Passos Coelho e o diabo

Quando Passos Coelho anunciou que vinha aí o diabo, isto é, o cataclismo económico, não fez mais do que aplicar à política o método que Jesus aplicou à religião quando este ameaçou com a vinda de um novo dilúvio "numa hora em que vocês menos esperam", que traria o “Filho do homem” para o trágico juízo final.

Nas palavras aterradoras de Jesus, “Dois homens estarão no campo: um será levado e o outro deixado. Duas mulheres estarão trabalhando num moinho: uma será levada e a outra deixada” (Mateus 24:43-44).

Esta ameaça de que se aproxima o dia em que 50% dos trabalhadores irão morrer ou, metaforicamente, cairão no desemprego, seria sintoma de sadismo apenas, se não fosse acompanhado da receita para evitar o terrível acontecimento. E a receita é servir o senhor que ameaça, obedecer à sua vontade por via da fé - já que a razão é uma maçã envenenada.

No fim desta missa ouve-se o cântico seguinte:


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