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2024/01/21

Porque hoje é domingo (138)

A religião é uma forma de exercer a política. Fá-lo sem escrutínio democrático – é dogmática. E quando o faz sem exército próprio, apoia-se num exército aliado.

No domínio da retórica, segue os mesmos padrões da política - ou esta segue os padrões da religião: um discurso cheio de formalismos e promessas vãs

“Jesus foi para a Galileia, pregando o Evangelho de Deus e dizendo: ‘O tempo já se completou e o Reino de Deus está próximo. Convertei-vos e crede no Evangelho!’ Convertei-vos ao meu partido e acreditai nos meus dirigentes – diz-se em política. Vale aquela outra citação bíblica: “Por seus frutos os conhecereis. Porventura colhem-se uvas dos espinheiros, ou figos dos abrolhos?” (Mateus 7,16). Quem diz uvas e figos, diz democracia e progresso; quem diz espinheiros e abrolhos, diz chegueiros e parceiros.

“Pelos frutos os conhecereis”. O problema é que, nessa altura, já muito esforço e recursos foram gastos e perdidos.

2017/03/23

Matriz populista

De Hitler a Estaline, de Péron a Fujimori, de Marine Le Pen a Donald Trump, e outros, o populismo não é mais que personalismo e autoritarismo - o que importa é o líder, não a lei.

O populismo vai buscar a sua legitimidade à "vontade popular" que mais não é do que a convicção incutida nas massas por meios retóricos, e assenta o seu funcionamento num sistema unipartidário de facto. É uma forma de ditadura consentida, um regime em que a fé dos cidadãos nas promessas do caudilho dispensa liberdades e direitos.

Lá onde as estruturas convencionais e democráticas se mostram incapazes de satisfazer os anseios das populações, o messianismo emerge para adiar o desespero. Lá onde a corrupção descredibiliza a "classe política", o messianismo emerge para tomar conta do Poder.

GÉMEOS POPULISTAS

«Considera-se que, não sendo estadista mas o líder de uma empresa cujo único objectivo é manter os equilíbrios precários dentro da sua coligação, Fulano não se apercebe de que à segunda-feira diz uma coisa, e à terça diz precisamente o contrário; que, não tendo experiência política nem diplomática, é dado a gafes; que fala quando não deve falar; que deixa escapar afirmações que é obrigado a negar no dia seguinte; que confunde os assuntos privados com os públicos a tal ponto que já se permitiu fazer gracejos de péssimo gosto sobre a sua própria esposa na presença de ministros estrangeiros – e assim por diante.

Neste sentido, a figura de Fulano predispõe-se à sátira; os seus adversários consolam-se muitas vezes pensando que ele perdeu o sentido das proporções, e esperam que Fulano vá correndo atrás da sua própria destruição sem se dar conta».

Não, o Fulano a que se refere Umberto Eco no texto acima, não é Trump, é Berlusconi. E o texto é datado de 2006!
(A Passo de Caranguejo, Ed. Gradiva).

A propósito: já repararam como ambos, Trump e Berlusconi, dominam a Televisão? E como ambos se escondem atrás de um sorriso permanente - um encenado optimismo?



Dir-se-ia que há qualquer coisa de politicamente genético no populismo. Mas não se trata de uma corrente ideológica, trata-se de uma técnica, trata-se de mimética. Trata-se de um método de comunicação inspirado na experiência de vendedor, como Eco refere em relação a Berlusconi e poderia agora referir em relação a Trump se o filósofo não tivesse falecido um ano antes de Donald Trump ser eleito para presidente dos Estados Unidos da América.

2016/12/11

Porque hoje é domingo (82)

Neste domingo, a Igreja Católica invoca um relato de Mateus (11,2-11) com alguns dados históricos credíveis: a prisão de João Batista e a sua cumplicidade com Jesus que, de resto, era seu familiar.
Estranho é que João mandasse perguntar a Jesus, como se não o conhecesse, se este era o enviado de Deus de que falava a Bíblia ou “se deviam esperar outro”. Esclarecedor é que Jesus aproveitasse a oportunidade para dizer do outro que, “de todos os homens que já nasceram, nenhum é maior do que João Batista”.

O que consta nos evangelhos oficiais (canónicos), é que não só eram filhos de duas primas como ambos eram frutos de partos milagrosos – Maria era virgem e Isabel era estéril.


Milagre ou fantasia, mistério ou propaganda religiosa, o que mais importa é que o próprio texto em que a Igreja se baseia é um embuste: nem Mateus terá sido o verdadeiro autor dos textos que assina, nem testemunha dos acontecimentos – ele que não foi apóstolo de Jesus mas uma espécie de ficcionista empenhado na criminalização dos judeus da época - eles que combatiam a ocupação romana.

Nada que preocupe a Igreja Católica, como se ouvirá hoje por esse mundo fora onde a “palavra do senhor” (aliás de Mateus, aliás...) ira ecoar no discurso hipócrita dos sacerdotes – dos templos crstãos até aos “décors” de televisão.

2016/07/13

O homem dos lixos

De passagem, entrei num café onde nunca tinha estado. Um espaço pequeno com um pequeno balcão quase escondido a um canto. Em torno do balcão, os poucos clientes com ar de enfado. Aproximo-me. Peço um café. Sinto o cuidado com que dois deles me facilitam a aproximação. Reparo que ninguém fala e que a minha presença lhes causa estranheza.

O café é-me servido com manifesta deferência. Agradeço, pago, agradece, retiro-me para uma mesa. Na parede, um televisor passa as notícias já muito repetidas em diferentes horários e diferentes canais: fulano disse, cicrano comentou o que fulano disse, beltrano comentou o que cicrano acabava de comentar sobre o que fulano terá dito ou alguém disse que disse.

Um dos presentes, envergando uma farda de trabalhador municipal da recolha de lixos, afasta-se para a porta a fumar um cigarro enquanto quebra o silêncio geral com esta lamúria sem destinatário: “Acabou o futebol, agora temos isto!...”.

E eu percebi que o homem não sabia apenas do lixo que fazem os cidadãos comuns mas também daquele outro com que os chamados orgãos de comunicação social entopem o espaço informativo. Mais: ele resumia em meia dúzia de palavras uma tese de Umberto Eco sobre a ilusão de diversidade que adviria com a multiplicação de canais.

2015/09/04

Aprender com o PSD


A chamada Universidade de Verão do PSD bem podia ter servido para ensinar o que Maquiavel se esforçou por explicar, mutatis mutandis: como ganhar umas eleições e conservar o mandato até ao fim, governando contra o Povo.

Quando um príncipe – um príncipe republicano, digamos – precisa do apoio do seu Povo, deve prometer-lhe tudo o que ele deseja. Mas para que o Povo acredite mesmo nas promessas, deve apresentar uma estratégia convincente e popular.

Por exemplo: dizer que vai reduzir as despesas exageradas do Estado, as gorduras, para poder financiar os benefícios prometidos, e eliminar a corrupção política – nomeadamente a promiscuidade entre políticos e empresários.

cartazes preparados para futuras eleições

Chegados ao Poder, cortam-se as pensões e as reformas, despedem-se funcionários públicos, eliminam-se serviços de apoio à população, aumentam-se os impostos sobre a população e criam-se “incentivos ao investimento”… (Maquivel não sabia dizer “transferência dos rendimentos do trabalho para o capital”). Arrecadam-se milhares de milhões de euros para encher os cofres, mesmo que os credores apenas exijam metade… Se as coisas forem feitas como Maquiavel ensina, o Povo aguenta.

Tudo isto podia ter sido ensinado na Universidade de Verão do PSD. Mas não houve tempo: Passos Coelho tinha Ângela Merkel à espera, Marcelo tinha as eleições presidenciais à espera, Paulo Rangel tinha à sua espera uma sessão do Parlamento Europeu, uma aula na Universidade Católica, uma reunião na Gonçalves Pereira & Associados, um artigo para o jornal Público, uma participação no Prova dos Nove da TVI24... Ufa! Ainda dizem que há desemprego.

Já agora, 
advogado Paulo Rangel, diga-me: não é por serem definitivos que os cortes nas pensões deixam de ser “extraordinários”, pois não? E não é "inversão do ónus da prova” penhorar primeiro e provar depois ou nem provar, se forem as Finanças a fazê-lo?! E roubar as remunerações não é crime se for feito pelo Primeiro-Ministro?!

2015/06/04

Passos não é parvo

Não devemos permitir que a verdade prejudique uma boa história. Isto aprende-se em qualquer curso de iniciação à escrita. À escrita criativa, entenda-se. Mas Passos Coelho que fala aos portugueses com pose de mestre, não tem escrúpulos em confundir os critérios lúdicos da ficção com os critérios do discurso político.


Passos Coelho fala contra as políticas de austeridade do seu governo, como se não fosse ele o Primeiro-Ministro, como não fosse ele “o líder” do PSD, como se uma hipnose colectiva tivesse dominado a mente dos portugueses nos últimos quatro anos. Para nos libertar desse "delírio", vem nos dizer, com a autoridade de um pai e a piedade de um santo: esqueçam tudo o que viram e ouviram... e pagaram.

Passos Coelho não é parvo! Parvo seria quem acreditasse em Passos Coelho. E quem acreditasse nas declarações de compromisso de Paulo Portas. 

Mas nem Passos nem a sua plateia fazem questão de acreditar – uns e outros fazem questão, isso sim, que o líder diga aquilo que os seus seguidores querem ouvir: a nossa fé nos salvará.

Sim, uma virgem deu à luz, um morto ressuscitou e a coligação PSD/CDS está aqui para defender os interesses do Povo, contra a arrogância dos países ricos e contra a especulação dos cidadãos privilegiados.

Para quem quer ser salvo nos seus privilégios, nos seus compromissos ou nas suas fidelidades, a verdade só estorva. 

2015/02/10

Augusto Santos Silva desilude

O dirigente do PS acima mencionado, é um homem do Porto e é inteligente. Duas razões para que eu gostasse de ouvi-lo – razões subjectivas, eu sei. Mas quanto mais o ouço em “Política Mesmo” da TVI24, mais me desgosta.

Interpelado sobre a falta de esclarecimentos de António Costa quanto aos objectivos deste como candidato, Augusto Santos Silva contou que, a caminho da TVI , tinha visto um cartaz do PCP onde se lia “Por uma política patriótica e de esquerda”, o que, a seu ver, não significava nada!

Que uma política de esquerda não signifique nada para o dirigente do PS, já não me espanta, mas que nem sequer faça sentido para ele “política patriótica”, particularmente num tempo em que o país aliena tudo quanto é património e estrutura produtiva nacional, e em que o Governo actual é um submisso cordeiro da Alemanha, isso é um escândalo.

Que Augusto Santos Silva não tenha resposta para a questão colocada pelo jornalista, é uma coisa; que queira fazer de nós parvos é, no mínimo, uma desilusão.

Para a troca, aqui deixo um recorte de um folheto do PCP que encontrei "a caminho de casa", onde se resumem posições do Partido Comunista Português que a miopia de ASS o impede de ver:

NOTA para quem já foi Ministro da Educação e Ministro da Cultura e gosta de citar figuras clássicas:
Aristóteles caracterizava a demagogia como a corrupção da democracia. Toma e embrulha! - isto digo eu.

2014/11/04

O ministro é um fingidor

É o talento próprio e a oportunidade que faz de um tímido escriturário, um escritor, de um marinheiro, poeta, de um livreiro, dramaturgo, e assim por diante. É o talento.

Quem ensinou o Fernando Pessoa a ler e a escrever – e, quem diz Pessoa, diz Bocage, diz Eça, diz Ramalho, Torga, Agustina, Saramago – quem ensinou a estes, digo eu, também ensinou muitos outros que, no entanto, pairaram sem brilho ou sem talento, anónimos, discretos funcionários, operários, jogadores de futebol, polícias, bombeiros, médicos, engenheiros, a quem a Literatura nada deve.


O mesmo acontece na política. Há gente que ensina, que aconselha, que diz como se diz, como se faz, mas é preciso ter alma ou sangue ou tripas, sei lá eu, para conquistar o “trono” que é, em democracia, o coração dos eleitores.

É preciso sentir, para fazer sentir; é preciso acreditar, para fazer acreditar. E não é porque o treinador de Passos, o mandou ultimamente jogar ao ataque, que a sua equipa vai ganhar o jogo. Posto a jogar num lugar em que não acredita, fará pior figura ainda do que se mostrasse a apatia no meio das tormentas, como costumava fazer.


O Seguro morreu de velho, de cansado, tanto foi o esforço teatral da sua representação. Passos Coelho corre o risco de nos cansar a todos com tanto fingimento. É que, para voltar a Fernado Pessoa, o Coelho “é um fingidor, finge tão completamente que chega a fingir que é dor (o desprezo) que deveras sente”... pela gente.

2014/07/20

Porque hoje é domingo (50)

Nunca vi tanta liberdade ou tanta fantasia na interpretação de um texto bíblico, como a que hoje ouvi durante a homilia duma missa radiodifundida.

Na “parábola do semeador” que a Igreja invoca neste dia, Jesus Cristo usa o trigo e o joio como metáforas para o Bem e o Mal, afirmando que o joio deve ser exterminado: “Colhei primeiro o joio, e atai-o em molhos para o queimar; mas, o trigo, juntai-o no meu celeiro”. (Mateus 13:30)

O celebrante, porém, mais papista que o Papa e mais divino que o Deus, interpreta que devemos aceitar as diferenças, no nosso convívio com os outros, que devemos tratar bem o joio por razões de tolerância.

Bem pode o filho de Deus explicar mais adiante e já em reunião mais íntima com os apóstolos:
“Mandará o Filho do homem os seus anjos, e eles colherão do seu reino tudo o que causa escândalo, e os que cometem iniquidade. E lançá-los-ão na fornalha de fogo; ali haverá pranto e ranger de dentes. Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. (Mateus 13:41-43)

Tá bem, tá. Sabendo que o povo não compreenderia tamanha crueldade do bom Deus que a todos perdoa, desde as putas aos banqueiros, o sacerdote mete-se à frente de Cristo e proclama mensagem politicamente correcta. É a Igreja que já não consegue esconder os paradoxos do Deus que inventou e, por isso, serve-se da “Virgem Maria” e do Papa para eclipsar a sua retórica absurda.

Ela sabe que a fé, filha do desespero, supera tudo. E que Jesus também disse na mesma oportunidade:

"Por isso lhes falo por parábolas; porque eles, vendo, não vêem; e, ouvindo, não ouvem nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías, que diz: Ouvindo, ouvireis, mas não compreendereis,e, vendo, vereis, mas não percebereis". (Mateus 13:13-14).

E assim, de disparate em disparate, se vai fazendo o ruído necessário para fingir que se diz alguma coisa. O que resulta sempre porque, em última análise, ninguém leva estas coisas a sério.


Desenho copiado AQUI

2014/04/06

Assim falava o governo

Por favor carregue sobre a imagem para ampliar

2014/02/11

Portas, melhor que nunca

Agora que o líder do CDS/PP e NÚMERO DOIS DO GOVERNO anda numa campanha desenfreada para vender a sua imagem, vale a pena recordar...


2013/10/06

Porque hoje é domingo (44)

As leituras de hoje, nas igrejas católicas, chamam-nos a atenção para a fé.

“Aumenta-nos a fé!”, disseram os apóstolos a Jesus (Evangelho: Lc. 17,5-10). “Aumenta-nos a fé!”, adivinha-se nos rostos dos apóstolos de Passos Coelho. “Aumenta-nos a fé!”, parece ouvir-se o Povo confrontado com a inutilidade do empobrecimento para o “ajustamento económico e financeiro”.



Na carta aos Hebreus está bem explicado o que é a fé: “firme fundamento das coisas que se esperam, uma posse antecipada, um meio de demonstrar as realidades que não se vêem”.

Aí está: a fé não consiste em acreditar no que se vê, no que se sabe, é acreditar no que se não vê nem antevê. Se estivessemos a assistir a um país em crescimento, com aumento de produção e investimento, com aumento de emprego e de salários, com equilíbrio do défice e redução da dívida pública, enfim, não seria preciso ter fé para acreditar no Governo, mas não é isso que se vê, pelo contrário.

É neste sentido que devem entender-se as palavras de Passos Coelho e os silêncios de Paulo – não do santo mas do Portas.

2011/03/06

Porque hoje é domingo (3)

“Nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas sim o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”.

Até aqui, digo eu, é a metáfora destinada àqueles que cantam loas a José Sócrates, seja porque inaugura ou porque encerra, porque nacionaliza ou porque privatiza (prejuízos e lucros respectivamente) . Não quero citar nomes para não ofender Emídio Rangel que tanto me faz rir, ou Vital Moreira que tanto me faz chorar, entre outros.

Mas onde a mensagem do Evangelho deste domingo é inequívoca, é quando cita: “quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha...”

Não se pense que há aqui alguma indirecta para João Jardim. Esta precisão é um recado acerca do estado das escolas, dos tribunais, das esquadras de polícia e outros edifícios públicos. E com razão. Nem é preciso ser cristão para reconhecer a verdade que habita estas palavras. Para que serve encher a boca com tecnologias, emprego e “Estado social”, se tudo isso é pó para os olhos dos cidadãos – lembra-te, homem, que é pó.

E que a gente sabe!

2009/07/24

Soares tem dias

«Na última legislatura europeia os socialistas europeus foram mais ou menos "colonizados" pela ideologia neoliberal, em moda nos mandatos de Bush e mesmo antes, abandonaram alguns dos seus valores tradicionais, envergonharam-se da própria palavra socialismo»

Assim falava... Mário Soares na revista VISÃO. Sim, esse! Sério! Isto é, a sério!

E ainda...

«As consequências deste procedimento estão à vista de todos: a crise global que nos afecta (...) só pode ser vencida, sem estragos maiores, se formos capazes de mudar de paradigma»

Mude, setôr. Mude.