29/09/2008

Áustria e os seus fantasmas

«Fui contemporâneo das duas maiores guerras da humanidade e vivi mesmo cada uma delas em duas frentes distintas, uma na frente alemã, a outra na anti-alemã. No período anterior à guerra conheci a forma e o grau mais elevados de liberdade individual e, depois, o seu mais baixo nível desde há centenas de anos».
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«Fui à força testemunha indefesa, impotente, do inimaginável retrocesso da humanidade a uma barbárie que há muito se pensava esquecida...»
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«Estava-nos destinado, tantos séculos passados, a ver de novo guerras sem declaração de guerra, campos de concentração, torturas, pilhagens em massa e bombardeamentos sobre cidades indefesas, tudo bestialidades que as últimas cinquenta gerações nunca chegaram a conhecer e que as vindouras, assim o espero, não voltarão a tolerar».

O texto que atrás se invoca é de Stefan Zweig, um dos maiores escritores de todos os tempos, da Áustria e do Mundo.

O seu testemunho foi publicado em português com o nome «O Mundo de Ontem», pela editora Assírio e Alvim, em 2005.

A forma fascinante como invoca, descreve, comenta e nos envolve no seu mundo sem fronteiras, forçado pela fuga ao nazismo até ao refúgio e suicídio no Brasil, é de uma riqueza literária e humana que nenhum recorte trazido para aqui seria justo seleccionar. Daí as três frases curtas, apenas, que transcrevo acima, que me ocorreu transcrever no dia em que é notícia o resultado histórico da extrema-direita nas eleições da Áustria.


Recorte de aeiou.visao.pt/ 2008-09-29:
Se os votos da extrema-direita forem somados aos do partido populista, a extrema-direita ultrapassa a marca histórica que obteve em 1999, quando o partido de Jörg Haider alcançou 26,9% dos votos, a par dos conservadores.
Se estas projecções (...) se confirmarem, o partido social-democrata SPÖ, um dos mais antigos partidos europeus, fundado em 1885, e os democratas-cristãos do Partido do Povo (ÖVP) registarão os seus piores resultados de sempre.
E isso não só desde o final da Segunda Guerra Mundial, mas desde o início da República, saída em 1918 do Império Austro-Húngaro após a derrota na Primeira Guerra Mundial.


A realização de eleições antecipadas, em que estavam registados 6,3 milhões de votantes, deveu-se à ruptura em Julho da coligação esquerda-direita, no poder nos últimos 20 meses, causada por divergências relativamente à reforma fiscal e nas medidas para aliviar o aumento crescente dos alimentos e da energia.

Pela primeira vez, 183.000 jovens de 16 e 17 anos puderam votar nestas eleições.

Áustria, terra de Música no Coração... !

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