A Esquerda que temos

Fotos: Catarina Martins, Ana Drago e Joana Amaral Dias.

Não basta dizer “Podemos”, para poder. Não basta dizer-se “Livre”, para sê-lo. Não basta chamar-se Bloco, para ser uno e consistente. Não basta pescar umas frases na corrente de opinião, copiar umas ideias avulsas na doutrina marxista, e refrescar o imaginário da Esquerda com derivas de estilo. Se a esquerda ainda está a fazer caminho na História, não é por falta de estilo e menos ainda por falta de imaginação literária ou de criatividade figurativa.

É claro que os processos e estilos de comunicação dos actores políticos no espaço público, são fundamentais para persuadir e mover as populações. Já Aristóteles o ensinava. Mas política não é poesia! O conhecimento, a experiência e a capacidade de organização é que são determinantes na acção política. Juntar tudo isto com a retórica numa mesma pessoa, faz de um político um ser excepcional. Álvaro Cunhal foi um exemplo raro deste modelo. Que tivesse contra si o tempo histórico, não diminui o seu mérito.

No panorama actual da política portuguesa, o PCP é, a meu ver, o mais consistente e consequente partido de esquerda, mas Jerónimo de Sousa não tem imagem nem estilo nem retórica nem dimensão intelectual para interpretar a realidade social além da divisão das classes; para exprimir os anseios populares, além do vocabulário sindical; para desconstruir a narrativa dominante, além da cacofonia; para imprimir um impulso dinamizador no processo revolucionário que paira fragmentado na sombra do sistema vigente.

Jerónimo tem a generosidade, a dedicação e a experiência de trabalho revolucionário que o distinguem positivamente de outros activistas de esquerda, e tem sobretudo o apoio e enquadramento organizado de um partido que não transige com o oportunismo político. Mas além das carências a que me refiro atrás, e duma visão estreita sobre amigos e inimigos – burgueses, traidores, folhas secas… - não tem coragem intelectual para clarificar os fins e os meios do seu modelo de sociedade. Assim sendo, o PCP é uma fonte de desconfiança.

Nestas condições, o PCP deixa que o espaço de Esquerda fique entregue a uma constelação de meteoros academicamente brilhantes, que vão dos mais frágeis conglomerados aos marmóreos mais flexíveis, ficando os respectivos eleitores a escolher entre loiras e morenas à falta de outras diferenças.

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