A “eleição” de Jerónimo de Sousa para Secretário Geral do PCP, expressão de preconceitos obreiristas e da concepção viciada duma suposta “vanguarda esclarecida”, fez-me dizer “até aqui cheguei!” - como disse Saramago noutro contexto. E não havendo “mais nada para fazer ou conversar, chegou a minha hora de acabar” a militância no PCP.
“Portanto..., tendo em conta..., em relação...” àquela escolha, “portanto”, o desempenho de Jerónimo, veio comprovar que este é não só um dirigente dirigido, sem ideias próprias nem discurso inteligente, como é um mau actor no seu esforço de representação. Não admira que tenha sido sempre tão acarinhado pelas pessoas de direita.
A entrevista de quarta-feira, 2021/Nov/3, ao Vítor Gonçalves, foi de uma mediocridade patética, mas previsível.
Não fosse a robustez gerada no PCP ao longo de quase cem anos, apoiada na inteligência e genuinidade de Álvaro Cunhal e na consequente adesão do meio intelectual, e não menos na generosidade dos seus heróis, o Partido estaria hoje na mesma situação do CDS. Agora que o Partido não vive de heróis e expulsou os seus intelectuais, resta a esperança de que quadros novos e competentes, à imagem do que acontece na Assembleia da República e no Parlamento Europeu, consigam contagiar a estrutura dirigente. Os congressos servirão para apurar dessa evolução ou dum envelhecimento irremediável. Até agora, é o tempo de "portanto, tendo em conta, a relação portanto".
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2021/11/04
2016/10/01
De Ban Ki-moon a Jerónimo de Sousa
Ban Ki-moon tem tanta importância para a ONU como Jerónimo de Sousa para o PCP, isto é, quase nenhuma. Afinal eles são formal e realmente secretários e não líderes; líderes são aqueles que os “elegeram” para desempenharem as tarefas de quem os dirige na sombra. Se está bem assim ou não, é outra questão.
Numa altura em que António Guterres é sacralizado pela cúria nacional, qual Madre Teresa de Calcutá, ou não viesse da mesma Igreja esta suspeita exaltação geral, é tempo de pensar que influência tem de facto o secretário para o rumo da instituição.
“À deriva na irrelevância”, é como alguns (ESSI) classificam o secretário-geral da ONU que outros comparam a uma enguia na forma “diplomática” como se esquiva às questões polémicas – e já não estou a fazer comparações com Jerónimo de Sousa, embora pareça!
Irrelevante não será que tenha vindo da Coreia do Sul ou mesmo que se tenha formado na da Universidade de Harvard. Mas menos ainda que tenha apoiado Bush e incitado o envio de tropas sul-coreanas para o Iraque…
Guterres vem de um país sem relevância geo-estratégica, licenciou-se no Instituto Superior Técnico de Lisboa e foi Alto Comissário para os Refugiados a seguir a um senhor de má reputação política e moral.
“O nosso candidato” é um velho amigo do padre Milícias que o casou, do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, que o casou com o PS, e de Marcelo Rebelo de Sousa que recentemente o designou Conselheiro de Estado.
Guterres não é génio nem santo como muitos querem fazer crer por razões estratégicas de diferentes matizes, nem é pessoa a quem eu apertasse mão, sei eu porquê, mas por mim pode ser secretário do que ele quiser. Já me preocupa mais o Jerónimo de Sousa… Mas quem sou eu, “folha seca” para este, desprezível trabalhador para aquele?!
Numa altura em que António Guterres é sacralizado pela cúria nacional, qual Madre Teresa de Calcutá, ou não viesse da mesma Igreja esta suspeita exaltação geral, é tempo de pensar que influência tem de facto o secretário para o rumo da instituição.
“À deriva na irrelevância”, é como alguns (ESSI) classificam o secretário-geral da ONU que outros comparam a uma enguia na forma “diplomática” como se esquiva às questões polémicas – e já não estou a fazer comparações com Jerónimo de Sousa, embora pareça!
Irrelevante não será que tenha vindo da Coreia do Sul ou mesmo que se tenha formado na da Universidade de Harvard. Mas menos ainda que tenha apoiado Bush e incitado o envio de tropas sul-coreanas para o Iraque…
Guterres vem de um país sem relevância geo-estratégica, licenciou-se no Instituto Superior Técnico de Lisboa e foi Alto Comissário para os Refugiados a seguir a um senhor de má reputação política e moral.
“O nosso candidato” é um velho amigo do padre Milícias que o casou, do Grão-Mestre do Grande Oriente Lusitano, António Reis, que o casou com o PS, e de Marcelo Rebelo de Sousa que recentemente o designou Conselheiro de Estado.
Guterres não é génio nem santo como muitos querem fazer crer por razões estratégicas de diferentes matizes, nem é pessoa a quem eu apertasse mão, sei eu porquê, mas por mim pode ser secretário do que ele quiser. Já me preocupa mais o Jerónimo de Sousa… Mas quem sou eu, “folha seca” para este, desprezível trabalhador para aquele?!
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2014/12/11
A Esquerda que temos
Fotos: Catarina Martins, Ana Drago e Joana Amaral Dias.
Não basta dizer “Podemos”, para poder. Não basta dizer-se “Livre”, para sê-lo. Não basta chamar-se Bloco, para ser uno e consistente. Não basta pescar umas frases na corrente de opinião, copiar umas ideias avulsas na doutrina marxista, e refrescar o imaginário da Esquerda com derivas de estilo. Se a esquerda ainda está a fazer caminho na História, não é por falta de estilo e menos ainda por falta de imaginação literária ou de criatividade figurativa.
É claro que os processos e estilos de comunicação dos actores políticos no espaço público, são fundamentais para persuadir e mover as populações. Já Aristóteles o ensinava. Mas política não é poesia! O conhecimento, a experiência e a capacidade de organização é que são determinantes na acção política. Juntar tudo isto com a retórica numa mesma pessoa, faz de um político um ser excepcional. Álvaro Cunhal foi um exemplo raro deste modelo. Que tivesse contra si o tempo histórico, não diminui o seu mérito.
No panorama actual da política portuguesa, o PCP é, a meu ver, o mais consistente e consequente partido de esquerda, mas Jerónimo de Sousa não tem imagem nem estilo nem retórica nem dimensão intelectual para interpretar a realidade social além da divisão das classes; para exprimir os anseios populares, além do vocabulário sindical; para desconstruir a narrativa dominante, além da cacofonia; para imprimir um impulso dinamizador no processo revolucionário que paira fragmentado na sombra do sistema vigente.
Jerónimo tem a generosidade, a dedicação e a experiência de trabalho revolucionário que o distinguem positivamente de outros activistas de esquerda, e tem sobretudo o apoio e enquadramento organizado de um partido que não transige com o oportunismo político. Mas além das carências a que me refiro atrás, e duma visão estreita sobre amigos e inimigos – burgueses, traidores, folhas secas… - não tem coragem intelectual para clarificar os fins e os meios do seu modelo de sociedade. Assim sendo, o PCP é uma fonte de desconfiança.
Nestas condições, o PCP deixa que o espaço de Esquerda fique entregue a uma constelação de meteoros academicamente brilhantes, que vão dos mais frágeis conglomerados aos marmóreos mais flexíveis, ficando os respectivos eleitores a escolher entre loiras e morenas à falta de outras diferenças.
Não basta dizer “Podemos”, para poder. Não basta dizer-se “Livre”, para sê-lo. Não basta chamar-se Bloco, para ser uno e consistente. Não basta pescar umas frases na corrente de opinião, copiar umas ideias avulsas na doutrina marxista, e refrescar o imaginário da Esquerda com derivas de estilo. Se a esquerda ainda está a fazer caminho na História, não é por falta de estilo e menos ainda por falta de imaginação literária ou de criatividade figurativa.
É claro que os processos e estilos de comunicação dos actores políticos no espaço público, são fundamentais para persuadir e mover as populações. Já Aristóteles o ensinava. Mas política não é poesia! O conhecimento, a experiência e a capacidade de organização é que são determinantes na acção política. Juntar tudo isto com a retórica numa mesma pessoa, faz de um político um ser excepcional. Álvaro Cunhal foi um exemplo raro deste modelo. Que tivesse contra si o tempo histórico, não diminui o seu mérito.
No panorama actual da política portuguesa, o PCP é, a meu ver, o mais consistente e consequente partido de esquerda, mas Jerónimo de Sousa não tem imagem nem estilo nem retórica nem dimensão intelectual para interpretar a realidade social além da divisão das classes; para exprimir os anseios populares, além do vocabulário sindical; para desconstruir a narrativa dominante, além da cacofonia; para imprimir um impulso dinamizador no processo revolucionário que paira fragmentado na sombra do sistema vigente.
Jerónimo tem a generosidade, a dedicação e a experiência de trabalho revolucionário que o distinguem positivamente de outros activistas de esquerda, e tem sobretudo o apoio e enquadramento organizado de um partido que não transige com o oportunismo político. Mas além das carências a que me refiro atrás, e duma visão estreita sobre amigos e inimigos – burgueses, traidores, folhas secas… - não tem coragem intelectual para clarificar os fins e os meios do seu modelo de sociedade. Assim sendo, o PCP é uma fonte de desconfiança.
Nestas condições, o PCP deixa que o espaço de Esquerda fique entregue a uma constelação de meteoros academicamente brilhantes, que vão dos mais frágeis conglomerados aos marmóreos mais flexíveis, ficando os respectivos eleitores a escolher entre loiras e morenas à falta de outras diferenças.
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2013/09/17
É ditadura mas é minha
Robertico Carcasses é um cantor e pianista cubano que se faz acompanhar por uma banda musical. Recentemente participou num espectáculo anti-imperialista destinado a reclamar a libertação dos cinco cubanos presos nos Estados Unidos por acusação de espionagem.
Notícias recentes mostram bem com que autoridade moral os EUA condenam a espionagem internacional, mas isso é outro dossier…
Neste caso, a notícia é que Robertico Carcasses aproveitou para cantar uma denúncia… da ditadura cubana!
Ora eu não pude deixar de me lembrar de um episódio semelhante que ocorreu em Portugal durante a ditadura de Salazar.
Durante um programa da RTP, no arranque das emissões de televisão em Portugal, o "cantautor" - como hoje se diz - Tristão da Silva terá proferido declarações de denúncia do regime – uma corajosa farpa no “nacional-cançonetismo”. Estavamos nos finais dos anos 50 e eu era ainda uma criança mas lembro-me do regozijo discreto que partilhei com quem me contou.
Tristão da Silva (1927/1978) esteve preso e na prisão escreveu uma das suas famosíssimas canções: “Daquela janela virada para o mar”. A partir de uma descrição de Urbano Tavares Rodrigues, de quando esteve preso em Caxias, eu imagino que a letra invoque uma janela daquela mesma prisão da época, a partir da qual poderia ver o mar.
Outra coisa que eu imagino é que alguns revolucionários da corte de Jerónimo de Sousa, sentiram o mesmo prazer que eu senti quanto ao episódio de Tristão da Silva, mas já em relação ao episódio cubano, em tudo idêntico, só lhes ocorre indignarem-se contra o cantor. É o calcanhar de Aquiles de certos combatentes da “democracia avançada” - uma fragilidade que os impede de sair da ilha eleitoral a que se confinam.
Notícias recentes mostram bem com que autoridade moral os EUA condenam a espionagem internacional, mas isso é outro dossier…
Neste caso, a notícia é que Robertico Carcasses aproveitou para cantar uma denúncia… da ditadura cubana!
Ora eu não pude deixar de me lembrar de um episódio semelhante que ocorreu em Portugal durante a ditadura de Salazar.
Durante um programa da RTP, no arranque das emissões de televisão em Portugal, o "cantautor" - como hoje se diz - Tristão da Silva terá proferido declarações de denúncia do regime – uma corajosa farpa no “nacional-cançonetismo”. Estavamos nos finais dos anos 50 e eu era ainda uma criança mas lembro-me do regozijo discreto que partilhei com quem me contou.
Tristão da Silva (1927/1978) esteve preso e na prisão escreveu uma das suas famosíssimas canções: “Daquela janela virada para o mar”. A partir de uma descrição de Urbano Tavares Rodrigues, de quando esteve preso em Caxias, eu imagino que a letra invoque uma janela daquela mesma prisão da época, a partir da qual poderia ver o mar.
Outra coisa que eu imagino é que alguns revolucionários da corte de Jerónimo de Sousa, sentiram o mesmo prazer que eu senti quanto ao episódio de Tristão da Silva, mas já em relação ao episódio cubano, em tudo idêntico, só lhes ocorre indignarem-se contra o cantor. É o calcanhar de Aquiles de certos combatentes da “democracia avançada” - uma fragilidade que os impede de sair da ilha eleitoral a que se confinam.
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2009/09/16
Jerónimo de Sousa e a sua ilusão
Domingos Lopes (com tristeza):
«Acreditei, até há tempos, que poderia haver outra saída. Verifiquei que se iam fechando todas as portas».
Jerónimo de Sousa (sorridente):
«Sai um, saem dez, entram mil; estamos bem».

E eu pergunto :
Somos números?
E ainda:
Porque é que só sabemos os nomes dos que saem? Porque é que os congressos só dão conta (do número) dos que “entram”? Suspeito!
Em relação a Domingos Lopes, Jerónimo coloca “a questão folosófica” de saber se «se pode sair de um sítio onde já não se está». E eu pergunto, filosoficamente, se Jerónimo ainda não percebeu que está num partido que já não existe – do PCP histórico, fundado na convicção e na generosidade dos seus dirigentes, resta-lhe a cultura sindical e a ilusão-de-optica eleitoral que as circunstâncias favorecem como nunca antes.
Assim como quem contempla uma estrela que morreu há milhares de anos, mas cuja reflexão luminosa ainda permanece no espaço. Como ensina o esquecido Materialismo Dialectico de Engels e Marx, é assim na natureza e na sociedade.
«Acreditei, até há tempos, que poderia haver outra saída. Verifiquei que se iam fechando todas as portas».
Jerónimo de Sousa (sorridente):
«Sai um, saem dez, entram mil; estamos bem».

E eu pergunto :
Somos números?
E ainda:
Porque é que só sabemos os nomes dos que saem? Porque é que os congressos só dão conta (do número) dos que “entram”? Suspeito!
Em relação a Domingos Lopes, Jerónimo coloca “a questão folosófica” de saber se «se pode sair de um sítio onde já não se está». E eu pergunto, filosoficamente, se Jerónimo ainda não percebeu que está num partido que já não existe – do PCP histórico, fundado na convicção e na generosidade dos seus dirigentes, resta-lhe a cultura sindical e a ilusão-de-optica eleitoral que as circunstâncias favorecem como nunca antes.
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2009/09/08
Agora é que percebi

Paulo Portas no debate com Jerónimo de Sousa:
“O meu adversário é este Governo”;
“O meu adversário não é Jerónimo de Sousa, é o ministro Jaime Silva”.
Mas seria preciso confessá-lo? A gente não lhe via na cara uma serenidade que era mais do que desprezo, uma simpatia que era mais do que agradecimento pela sorte que cabe à Direita ter um antagonista tão inofensivo como Jerónimo de Sousa?
Agora é que eu percebi porque é que Jerónimo é tão amado por todos, da extrema esquerda à extrema direita – porque ele não cria dificuldades a ninguém. E quanto mais grita nos comícios, mais dócil nos parece nos debates. Um contraste patético que até Luis Delgado confessa apreciar.
“O meu adversário é este Governo”;
“O meu adversário não é Jerónimo de Sousa, é o ministro Jaime Silva”.
Mas seria preciso confessá-lo? A gente não lhe via na cara uma serenidade que era mais do que desprezo, uma simpatia que era mais do que agradecimento pela sorte que cabe à Direita ter um antagonista tão inofensivo como Jerónimo de Sousa?
Agora é que eu percebi porque é que Jerónimo é tão amado por todos, da extrema esquerda à extrema direita – porque ele não cria dificuldades a ninguém. E quanto mais grita nos comícios, mais dócil nos parece nos debates. Um contraste patético que até Luis Delgado confessa apreciar.
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