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2017/05/29

Miguel Urbano Rodrigues

Entrevista de Miguel Urbano Rodrigues em 2008

Se «há homens que lutam toda a vida» com carácter revolucionário em todos os sentidos, homens a quem Bertold Brecht chamou  de  «imprescindíveis»,  Miguel Urbano Rodrigues é um desses.

Eu costumava dizer entre amigos que ele era o herdeiro mais legítimo do título que por graça atribuíamos ao Mário Castrim enquanto este era vivo: "Sectário Geral do PCP". Polémico, pelo menos, era ele - eram eles. No caso do Miguel dei nota disso há vinte dias num post que publiquei AQUI.

Só há poucos anos descobri que um dos homens mais viajados que eu conhecia, um verdadeiro revolucionário internacionalista, estava a viver aqui mesmo em Vila Nova de Gaia, o que me proporcionou assistir a uma conferência sua e questioná-lo pessoalmente sobre a situação da Venezuela, sabido que ele conhecia a América Latina como rara gente conhecia - esteve no seio das FARC, por exemplo. Ao tempo da conferência, ressalve-se, a Venezuela era ainda presidida por Chavez.

Agora recebo a notícia de que o meu mítico vizinho acaba de falecer. Foi ontem. O funeral parte da Lapa, no Porto, hoje às 16 horas. 

2010/09/15

Sectários-gerais [2]

Embora nos viéssemos a conhecer pessoalmente, era sobretudo pelas suas críticas de televisão que eu e a maioria das pessoas conhecia Mário Castrim.

Desassombrado e combativo, assumia um estilo militante na denúncia e inteligente na forma, que suscitava respeito e admiração geral, acho eu, mas também o epíteto carinhoso de “sectário geral” até entre camaradas do PCP.

Falecido em 2002, não conheci ninguém que melhor pudesse herdar-lhe o título, do que Miguel Urbano Rodrigues, também ele jornalista, escritor e militante comunista. Com uma diferença que reputo de grande importância – não cola bem com este último o adjectivo de carinhoso.

Inteligente, informado e sedutor mas sobretudo manipulador de informação como testemunha o seu jornal electrónico – “site” se quiserem – a que chamou “resistir”, significativamente porque é essa a sua luta: resistir contra tudo e contra todos ás novas lições da História, ao tempo e ás suas revelações, servindo-se para isso da própria actualidade para subverter-lhe o sentido sempre que dá jeito à diabolização dos inimigos de estimação.

A reprodução no seu jornal, de artigos como “A biografia oculta dos Obama” de Wayne Madsen, é a “cara chapada” do seu próprio estilo de fazer política. Um artigo, digo talvez melhor um ensaio, que mais parece um relatório secreto de uma qualquer polícia política, profusamente apoiado em relatórios da CIA que era suposto não serem credíveis..., e em que a figura de Obama é colada grotesca e artificialmente a questões a que é inteiramente alheio.

Só para dar uma ínfima ideia do que trata, reproduzo apenas um curto recorte deste texto insano e vomitativo que já vai em parte-três:

«Há muitos volumes de material escrito sobre o passado de George H.W. Bush na CIA e atividades relacionadas com a CIA, de seu pai e seus filhos, inclusive do antigo presidente George W. Bush. Barack Obama, por outro lado, sabiamente mascarou suas próprias conexões com a CIA, assim como as de sua mãe, de seu pai, de seu padrasto e de sua avó (conhece-se muito pouco sobre o avô de Obama, Stanley Armou Dunham, que supostamente trabalhava no ramo de mobiliário no Havaí depois de servir na Europa durante a Segunda Guerra Mundial).

Não sei nada sobre os avós e bisavós de Miguel Urbano nem isso me interessa para avaliar do caracter deste, mas tenho excelente opinião sobre o prestigiado Urbano Tavares Rodrigues, seu irmão, de quem sou amigo pessoal com muito orgulho. Será que não devia???


Como se pode ver por comparação com um outro artigo meu de 2008, a minha consideração por Miguel baixou muito. Mas em vez de ocultar esta diferença de opinião, cabe-me exprimir esta alteração. Não sou dado a cristalizações mentais, talvez.

Segunda imagem: Do filme "El Labirinto del Fauno" de Guillermo Del Toro.

2008/09/29

Sectários Gerais

De Mário Castrim, dizia-se por graça que era o “sectário geral” do PCP. Castrim talvez tenha deixado aquele título para Miguel Urbano Rodrigues.
Em ambos os casos, realmente, o discurso jornalístico se confunde com o que se espera ou esperava do porta-voz do partido a que pertencem. Nenhuma diferença, por mais saudável que ela fosse, nenhuma crítica, por mais necessária - antes pelo contrário.

Não partilho mas entendo esse sectarismo político que consiste em valorizar sempre o que vem de nós e combater sempre o que vem do adversário, indo ao ponto de omitir algumas verdades, é certo, sobre as responsabilidades do nosso “clube”.

Tal atitude, em Miguel Urbano, sacrifica algum prestígio intelectual – ainda lhe sobra muito! - à eficácia política; subordina o interesse pessoal, ao interesse social. Mas sente-se nos seus textos a sinceridade e a clareza que caracterizam os discursos autênticos e que alimentam o seu entusismo contagiante.

Não sinto o mesmo respeito pelo sectarismo de outros que, devido aos lugares que ocupam na Direcção do PCP, longe de se envolverem apenas a eles próprios – pelo contrário, escondendo-se na capa de orgãos colectivos – arrastam com as suas omissões e deturpações o futuro de um partido que os ultrapassa e ao qual se dedicaram muitas vidas.

E já nem falo do sectarismo que no PS é escola, é cultura de grupo. No PS o sectarismo é prática e doutrina, é o pão das suas ceias, o ar que se respira. Só quem nunca trabalhou numa empresa dependente do Estado pode ignorar isto – se é que pode, mesmo sem ter trabalhado. E com o PS, por força da sua influência na sociedade, os estragos são maiores, imediatos e mais incontroláveis.

Só que isso não devia servir de consolação a outro. Porque, quando assim é, faz mal a ambos.

Miguel U Rodrigues deu há pouco tempo ESTA entrevista à SIC, que recomendo pelo agrado com que se ouvem e vêem entrevistado e entrevistadora.