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2015/10/30

O Testa-de-Ferro

Excitado, irritado, histérico, semeia a algazarra e a provocação nos debates televisivos. Mistura, deturpa, atropela, mente. Braceja, grita, espuma de raiva. Sentir que a direita vai deixar de impor-se aos outros e ao Povo, desespera-o.

Incapaz de sustentar a defesa das suas posições sectárias, segregacionistas e impopulares, refugia-se em regras europeias não sufragadas, refugia-se em alusões históricas incomparáveis, refugia-se, não tardará, no incentivo à violência.




Estalou o verniz que exibia com sorrisos e salamaleques enquanto a vidinha lhe corria de feição, os poderosos lhe davam palmadinhas nas costas – pelo menos – e “os outros” aguentavam, aguentavam, aguentavam.

Não é um homem-só numa pulsão descontrolada, ou não é só isso. É um agente estratégico, pelo seu posicionamento nos meios de informação. E tem por missão experimentar e enfraquecer a resistência do(s) adversário(s) e transmitir aos seus seguidores um sentimento de confiança que se está perdendo. É um testa-de-ferro.

Desafiar os meus leitores a descobrir de quem se trata, é tão pueril como perguntar que interesses serve. Mas aceitam-se apostas!

2012/05/29

Sobre o comunismo infantil

Acerca do meu artigo anterior “Radicais, oportunistas e outros comunistas”, já era de esperar que os pseudo-radicais ou os oportunistas, ambos oportunistas afinal, espumassem pela boca aquele fel que vem de mentes mal alimentadas. Não os reprovo, tenho pena. Sobretudo quando vêm das fileiras mais generosas da política, da barricada mais consolidada da resistência ao capitalismo. Mas que posso eu fazer senão continuar a provocar a reflexão, na esperança de que, “na intimidade do seu pensamento livre e calmo”, se disponham a seguir a recomendação de Lenine: “Aprender, aprender, aprender sempre!” ?

Falei em “pseudo-radicais” porque perfilho a observação de Karl Marx: “Ser radical é resolver os problemas na sua própria raiz”. Isto é, radical opõe-se a superficial e não como alguns querem fazer crer, a tolerante ou democrata. Ser radical é ir ao fundo das questões. Não é vociferar ou insultar, é argumentar, é desmentir o erro por via racional. Não é do “socialismo científico” que o comunismo se reclama? Registo a indisponibilidade de alguns para o debate das ideias e lamento que o seu marxismo não chegue até aí. Mas compreendo que nem sempre são estas que os movem.

Quanto aos pseudo-radicais são aqueles que mereceram um trabalho de fundo, realizado por Lenine sob o título “A doença infantil do comunismo”. Nesse ensaio, o fundador do comunismo desenvolve uma larga denúncia desta forma de oportunismo de esquerda que ficou consagrada como “esquerdismo” e que recusa qualquer forma de compromisso com outros partidos, independentemente da sua conveniência estratégica, entre outros aspectos. Nisto se opõem, sem se darem conta, àquela afirmação de Álvaro Cunhal em que ele afirmava que, para defender os interesses da classe trabalhadora, seria capaz de fazer pactos até com o diabo (cito de cor). Que falta faz esta lucidez no partido que ficou depois dele!

Quanto ao oportunismo entre os comunistas, também não tive eu o mérito de os denunciar. Quase se pode abrir à sorte uma qualquer obra dos fundadores do comunismo para encontrar aquela expressão ou uma sua equivalente, o “revisionismo”. Leia-se, por exemplo, em Lenine: «... se não se derrota previamente o oportunismo dentro do movimento operário, não haverá ditadura do proletariado». O problema que decorre daqui é o de sempre: quem julga... o que é oportunismo? Será oportunismo exercer a crítica interna? E não a exercer, não será?

Se falei contra “o dogmatismo”, também foi líder da revolução soviética que me inspirou, quando escreveu ( Cartas sobre táctica): « “A nossa doutrina não é um dogma mas um guia para a acção”, disseram sempre Marx e Engels, zombando com razão daqueles que aprendiam de memória e repetiam “fórmulas” ...».

Digamos, finalmente, que faço algum esforço para não ser pseudo-radical nem oportunista mas um dos muitos “outros”. E se Lenine já não está cá para me julgar, não vai ser qualquer “doente infantil do comunismo” que o vai fazer.

2010/09/15

Sectários-gerais [2]

Embora nos viéssemos a conhecer pessoalmente, era sobretudo pelas suas críticas de televisão que eu e a maioria das pessoas conhecia Mário Castrim.

Desassombrado e combativo, assumia um estilo militante na denúncia e inteligente na forma, que suscitava respeito e admiração geral, acho eu, mas também o epíteto carinhoso de “sectário geral” até entre camaradas do PCP.

Falecido em 2002, não conheci ninguém que melhor pudesse herdar-lhe o título, do que Miguel Urbano Rodrigues, também ele jornalista, escritor e militante comunista. Com uma diferença que reputo de grande importância – não cola bem com este último o adjectivo de carinhoso.

Inteligente, informado e sedutor mas sobretudo manipulador de informação como testemunha o seu jornal electrónico – “site” se quiserem – a que chamou “resistir”, significativamente porque é essa a sua luta: resistir contra tudo e contra todos ás novas lições da História, ao tempo e ás suas revelações, servindo-se para isso da própria actualidade para subverter-lhe o sentido sempre que dá jeito à diabolização dos inimigos de estimação.

A reprodução no seu jornal, de artigos como “A biografia oculta dos Obama” de Wayne Madsen, é a “cara chapada” do seu próprio estilo de fazer política. Um artigo, digo talvez melhor um ensaio, que mais parece um relatório secreto de uma qualquer polícia política, profusamente apoiado em relatórios da CIA que era suposto não serem credíveis..., e em que a figura de Obama é colada grotesca e artificialmente a questões a que é inteiramente alheio.

Só para dar uma ínfima ideia do que trata, reproduzo apenas um curto recorte deste texto insano e vomitativo que já vai em parte-três:

«Há muitos volumes de material escrito sobre o passado de George H.W. Bush na CIA e atividades relacionadas com a CIA, de seu pai e seus filhos, inclusive do antigo presidente George W. Bush. Barack Obama, por outro lado, sabiamente mascarou suas próprias conexões com a CIA, assim como as de sua mãe, de seu pai, de seu padrasto e de sua avó (conhece-se muito pouco sobre o avô de Obama, Stanley Armou Dunham, que supostamente trabalhava no ramo de mobiliário no Havaí depois de servir na Europa durante a Segunda Guerra Mundial).

Não sei nada sobre os avós e bisavós de Miguel Urbano nem isso me interessa para avaliar do caracter deste, mas tenho excelente opinião sobre o prestigiado Urbano Tavares Rodrigues, seu irmão, de quem sou amigo pessoal com muito orgulho. Será que não devia???


Como se pode ver por comparação com um outro artigo meu de 2008, a minha consideração por Miguel baixou muito. Mas em vez de ocultar esta diferença de opinião, cabe-me exprimir esta alteração. Não sou dado a cristalizações mentais, talvez.

Segunda imagem: Do filme "El Labirinto del Fauno" de Guillermo Del Toro.

2009/03/11

Obama soma e segue (3)

EL PAIS 10Mar2009:

«En un nuevo y relevante paso para poner fin a la era Bush, Barack Obama ha anulado de hecho todas las órdenes dadas por su predecesor al margen de la ley y ha eximido de su cumplimiento a las agencias del Gobierno.

El presidente norteamericano firmó el lunes una orden que invalida todas las instrucciones impartidas por George W. Bush en relación con el uso de la tortura, las escuchas ilegales y otras medidas de dudosa legalidad puestas en marcha durante la guerra contra el terrorismo».


Os intransigentes sargentos-getúlios (inconformados com o fim da guerra em que fizeram carreira) continuarão a catar debilidades em Obama nem que seja debaixo da cama. Não se espera muito de tais radicalismos que não dão frutos lá onde eles "presidem", mas persistem na esperança de que aconteça alguma coisa que faça jus à sua originalidade intelectual. Pacheco Pereira não está só. A seu modo e sem darem por isso, talvez!, marcham alguns adversários políticos... E quem se fica a rir são os bushistas, claro, enquanto esperam a sua oportunidade de se juntar à marcha dos perfeccionistas e retomarem o poder.

2008/09/29

Sectários Gerais

De Mário Castrim, dizia-se por graça que era o “sectário geral” do PCP. Castrim talvez tenha deixado aquele título para Miguel Urbano Rodrigues.
Em ambos os casos, realmente, o discurso jornalístico se confunde com o que se espera ou esperava do porta-voz do partido a que pertencem. Nenhuma diferença, por mais saudável que ela fosse, nenhuma crítica, por mais necessária - antes pelo contrário.

Não partilho mas entendo esse sectarismo político que consiste em valorizar sempre o que vem de nós e combater sempre o que vem do adversário, indo ao ponto de omitir algumas verdades, é certo, sobre as responsabilidades do nosso “clube”.

Tal atitude, em Miguel Urbano, sacrifica algum prestígio intelectual – ainda lhe sobra muito! - à eficácia política; subordina o interesse pessoal, ao interesse social. Mas sente-se nos seus textos a sinceridade e a clareza que caracterizam os discursos autênticos e que alimentam o seu entusismo contagiante.

Não sinto o mesmo respeito pelo sectarismo de outros que, devido aos lugares que ocupam na Direcção do PCP, longe de se envolverem apenas a eles próprios – pelo contrário, escondendo-se na capa de orgãos colectivos – arrastam com as suas omissões e deturpações o futuro de um partido que os ultrapassa e ao qual se dedicaram muitas vidas.

E já nem falo do sectarismo que no PS é escola, é cultura de grupo. No PS o sectarismo é prática e doutrina, é o pão das suas ceias, o ar que se respira. Só quem nunca trabalhou numa empresa dependente do Estado pode ignorar isto – se é que pode, mesmo sem ter trabalhado. E com o PS, por força da sua influência na sociedade, os estragos são maiores, imediatos e mais incontroláveis.

Só que isso não devia servir de consolação a outro. Porque, quando assim é, faz mal a ambos.

Miguel U Rodrigues deu há pouco tempo ESTA entrevista à SIC, que recomendo pelo agrado com que se ouvem e vêem entrevistado e entrevistadora.