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2021/09/09
2019/09/10
Interpretando o museu
Chame-se Museu Salazar ou Centro Interpretativo blá blá, não
é por chamar gato ao cão que este começa a miar. O projecto não podia ser menos
oportuno.
Tratando-se de "apenas e só fazer um levantamento
científico e histórico de um regime político, enquanto acontecimento factual",
onde cabe a designação de centro interpretativo?
Um dos argumentos que se lançam a favor da iniciativa é o
valor da “imparcialidade”. Cumpre prevenir os incautos de que a justiça não é imparcial
quando condena um criminoso mas sim quando o julga. Reconhecido o crime, a
sociedade deixa de tolerar o infractor. E o crime hediondo que constituiu o
regime do Estado Novo foi julgado e condenado em 25 de Abril de 1974. E não é
reabilitável! Isto sem acrescentar que é prudente, sempre, pensar duas vezes
antes de aceitar declarações de imparcialidade!
Das mesmas bandas intelectuais dos defensores do museu de
Salazar – ou é só razões turísticas que pretendem criá-lo na terra do ditador? – emana o
argumento de que a sua obstrução seria contrária à liberdade de expressão. Aqui fingem ignorar que o maior inimigo das liberdades é o abuso. E que esses abusos
perigosos para a sociedade não podem evitar-se apenas com as leis democráticas
mas carecem também de práticas democráticas, nomeadamente a oposição aos
avanços ideológicos fascizantes.
Há quem alegue que “a Democracia não pode ter medo dos
autoritarismos e totalitarismos que procura atacar, nem dos seus eventuais
defensores”. Mas é precisamente dos autoritarismos e totalitarismos
que a Democracia deve ter medo – esse medo-útil que avisa dos perigos!
Pior que tudo, há quem finja que as correntes fascizantes não
têm eco na opinião pública. Como se as Marine Le Pen da Europa ou os Bolsonaros
da América do Sul fossem fenómenos insignificantes – refiro-me aos votos que os
elegeram, mais do que a eles próprios.
2012/08/03
Elogios fúnebres
No elogio fúnebre, aos políticos burgueses se atribui «longo percurso dedicado à causa pública»; aos políticos progressistas se atribui «grande coerência»; aos autores destas declarações se há-de atribuir grande falsidade, cinismo, hipocrisia.
Dedicados à causa pública foram, por excelência, aqueles que sacrificaram as suas comodidades mais elementares, a sua segurança pessoal, a sua vida, não poucas vezes, na luta contra um regime que oprimia o seu povo, e sobretudo aqueles que o fizeram sistematicamente e toda a vida.
Só para falar dos que tive a honra de conhecer pessoalmente, desde operários a intelectuais, de activistas anónimos até dirigentes políticos e sindicais, falta-me o tempo. Mas aqui fica, em sua representação, uma referência simbólica.
Dela me ficou para sempre na memória o discurso mais eloquente que eu ouvi. Foi proferido no primeiro ou num dos primeiros dias da Revolução Portuguesa de 1974.
Uma turba juntava-se a um pequeno estrado improvisado à frente do Quartel General do Porto e eu perdia-me entre todos no intuito de perceber o que se passava. Alguém disse umas palavras que, julgo agora, seriam para anunciar a presença de Virgínia Moura.
Pequena, magra, muito morena, dificilmente emerge da multidão apesar do palanque, e eu que mal a vi e que posso estar a trocar o dia e o local, não tenho dúvidas de lhe ouvir gritar, numa voz que arranhava as membranas da garganta com a violência da revolta:
«Morte à PIDE! Morte à PIDE! Morte à PIDE!».
Mais nada.
Essa voz, esse discurso, nunca mais me saiu da memória. Ele carregava uma vida de luta e de sofrimento às mãos dos carrascos salazaristas que são tão acarinhados nos nossos dias em alguns orgãos de informação. Essa voz sofrida e justa, ainda hoje reclama contra os abusos do Poder, nomeadamente o abuso da palavra e o abuso da repressão económica.
Foto original de busto de Virgínia Moura tendo o antigo edifício da PIDE/Porto, em fundo. As restantes fotos são também de Virgínia Moura.
Dedicados à causa pública foram, por excelência, aqueles que sacrificaram as suas comodidades mais elementares, a sua segurança pessoal, a sua vida, não poucas vezes, na luta contra um regime que oprimia o seu povo, e sobretudo aqueles que o fizeram sistematicamente e toda a vida.
Só para falar dos que tive a honra de conhecer pessoalmente, desde operários a intelectuais, de activistas anónimos até dirigentes políticos e sindicais, falta-me o tempo. Mas aqui fica, em sua representação, uma referência simbólica.
Dela me ficou para sempre na memória o discurso mais eloquente que eu ouvi. Foi proferido no primeiro ou num dos primeiros dias da Revolução Portuguesa de 1974.
Uma turba juntava-se a um pequeno estrado improvisado à frente do Quartel General do Porto e eu perdia-me entre todos no intuito de perceber o que se passava. Alguém disse umas palavras que, julgo agora, seriam para anunciar a presença de Virgínia Moura.
Pequena, magra, muito morena, dificilmente emerge da multidão apesar do palanque, e eu que mal a vi e que posso estar a trocar o dia e o local, não tenho dúvidas de lhe ouvir gritar, numa voz que arranhava as membranas da garganta com a violência da revolta:
«Morte à PIDE! Morte à PIDE! Morte à PIDE!».
Mais nada.
Essa voz, esse discurso, nunca mais me saiu da memória. Ele carregava uma vida de luta e de sofrimento às mãos dos carrascos salazaristas que são tão acarinhados nos nossos dias em alguns orgãos de informação. Essa voz sofrida e justa, ainda hoje reclama contra os abusos do Poder, nomeadamente o abuso da palavra e o abuso da repressão económica.
Foto original de busto de Virgínia Moura tendo o antigo edifício da PIDE/Porto, em fundo. As restantes fotos são também de Virgínia Moura.
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