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2012/07/28

Quando as mulheres não contam

Espero tratar, no próximo domingo, o milagre da multiplicação dos pães – assunto que será objecto das homilias desse dia, por todos os cantos do mundo. Mas uma notícia de hoje faz-me antecipar um breve comentário.

A cena passa-se na Palestina. Havia 5.000 homens à volta de Jesus, “sem contar mulheres e crianças”, diz o Evangelho!

Como foram contados os homens, não sei, que hoje em dia há sempre dois números: os da polícia e os dos sindicatos. Mas que as mulheres e as crianças não contem, isso é que me parece estranho.

Parecia! Até que vejo a notícia do Expresso de 2012-07-28, à hora de jantar, isto é, à hora de distribuir o pão:


«Novo prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé considera que a exclusão das mulheres da ordenação sacerdotal na Igreja Católica segue a "vontade e chamamento de Cristo».

2011/05/30

Sub-missão

Das notícias:
«Manal al-Charif esteve nove dias detida, no leste do país, por ter conduzido o seu automóvel na cidade de Khobar. A Arábia Saudita é o único país que proíbe as mulheres de conduzir». Diário Digital / Lusa

Do livro auto-biográfico “Sultana”, publicado em 1991:


«A minha mãe não estava preparada para fazer outra coisa na vida que não fosse servir o meu pai»

«A autoridade de um homem saudita (sobre as mulheres) não conhece limites...»

«Nem o meu nascimento nem o meu falecimento fica lavrado em qualquer registo oficial»

«Em 1962, quando o nosso governo libertou os escravos, a família sudanesa que trabalhava para nós implorou ao meu pai que a deixasse continuar a servi-lo. Ainda hoje (1991) vive em sua casa».


Estas estórias fazem-me pensar como a direita política portuguesa, associada, confunde missão com submissão, ajuda, com impos(i)tura. Será esta associação (de ideias!) aceitável?

2011/03/09

A força da cultura

«A autoridade de um homem saudita (sobre a mulher) não conhece limites».

«A minha mãe não estava preparada para fazer outra coisa na vida, que não fosse servir o meu pai».

«As minhas irmãs mais velhas não receberam outra aprendizagem que não fosse o estudo do Corão, com uma professora particular, egípcia, que ia a nossa casa».


Estas passagens de “Sultana”*, expressam em resumo os mecanismos geradores do totalitarismo: concentração de poder e controlo da informação. Isto é, do ponto de vista da vítima, dependência física (incluindo alimentação) e cultural. “Pago-te para que me obedeças – quer queiras quer não!» - esta é a legitimidade em que assentam os regimes autoritários, desde os mais fechados até aos mais disfarçados.

Compreendemos hoje que no essencial nunca ultrapassámos o Feudalismo; apenas mudámos os nomes às coisas: o senhor, a terra e o servo, chamam-se agora capitalista, empresa e trabalhador. E não é só porque os senhores da Terra se rodeiam de uma suposta autoridade “natural”; é também porque os seus subordinados, os seus dependentes, nós, estamos toldados por uma cultura, por uma informação que nos desarma perante eles.

Estimados colegas da “Comunicação Social”, jornalistas, comentadores encomendados, activistas moderados, artistas engraçados, poetas deprimidos, génios ilustrados: se ainda não fostes totalmente fascinados pelo ouro que brilha à vossa volta e que nunca será vosso senão pela ignomínia, preparai-nos para fazermos outra coisa que não seja servir nossos senhores.

Ou então, preparai-vos para morrer connosco – que outra coisa não é viver assim sem graça nem esperança.


* SULTANA - A vida de uma princesa àrabe. Por: Jean Sasson – ASA Editores