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2014/08/13
Joaquim Namorado
Estava eu com os meus pais a passar férias na aldeia de Murtede, de onde o meu pai era natural, quando me apercebi que havia qualquer coisa a acontecer na Casa do Povo. Mais para conhecer a casa onde nunca tinha entrado, do que para ver o que se passava dentro e em relação ao qual não tinha quaisquer expectativas, entrei.
O que eu presenciei era de todo inusitado. Naquela terra onde eu pensava que as pessoas apenas se interessavam pela agricultura, por leitão e chanfana, e por bicicletas, uma sala cheia de gente atenta, interessada, ouvia o poeta Joaquim Namorado que ainda hoje não sei porque foi ali parar.
Eu sei que quase ninguém conhece o Joaquim Namorado, mas para mim era um mito. De tal modo que tinha decorado o seu poema "Port Wine" que conheci pela voz de Mário Viegas, e que termina assim:
O rio Douro é um rio de sangue
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te.
Liberta-te, meu povo. Ou morre!
Mais tarde tive o prazer de inserir este seu poema num documentário que fiz para a RTP sobre a poesia de resistência à ditadura salazarista: eu chamei ao documentário "Versos e Reversos".
NOTA PARA EVITAR CONFUSÕES:
Alguém alheio ao programa mas com poder burocrático para o efeito, resolveu abusivamente registá-lo e anunciá-lo com o nome "Palavras de Abril" mas este título é tão obvio que reaparece noutras iniciativas tal como aconteceu nas comemorações recentes dos 40 anos.
Mas agora o que me importa é divulgar a exposição a que se refere o folheto acima.
2013/08/20
Porto tão perto (2)
Já foi fotografada um milhão de vezes. Mais, muito mais. Mas a gente tem sempre a sensação de que há um ângulo que não foi explorado, ou uma luz, ou uma neblina… Há sempre, com certeza, alguém que por lá passa e que não passou das outras vezes. E até os barcos, cópias dos rabelos com pipas vazias ou turistas deslumbrados – justamente deslumbrados, entendamos.
A ponte D. Luis não é como a Torre Eiffel que não serve para nada – a ponte liga o Norte ao Sul de Portugal. Não estou a exagerar, que o bairrismo exacerbado de muitos portuenses chama a Gaia, Marrocos, e, aos lisboetas, mouros, logo Espinho, Aveiro, Coimbra, Entroncamento, é tudo sul!...
Mas dizia eu que a Ponte D. Luis, em rigor, Ponte Luis I, com tabuleiro em cima e tabuleiro em baixo donde salta para o Douro a “canalha” local, além de grande, magestosa e linda, abraça Porto a Gaia com férrea solidez e belo rendilhado como é a gente que ali nasce, franca e afectuosa “p’ra carago”.
De um lado, pitoresca, a ribeira portuense de longas tradições, conhecida no meu tempo de criança, pelas cheias e as inundações entretanto controladas; do outro lado, o chamado Cais de Gaia que copiou a evolução do Porto e criou bares e restaurantes que foram ganhando qualidade, e profissionalismo na arte de agradar aos visitantes. Mas cuidado: há que escolher.
Actualmente percorrem o leito do rio para montante e para jusante, os cruzeiros de pequeno e grande porte. Percorrendo as margens de ambos os lados, os automóveis parecem flutuar na estrada, gozando sem pressas a paisagem. E há os que fazem uma paragem com a cana de pesca ou a câmara fotográfica, que há sempre uma imagem imprevista que faltou capturar. É uma pena que se não possa levar o Douro para casa! (Isto sou eu a falar porque nunca levei com ele no tempo das cheias...). (Fotos originais mas sem reserva de propriedade)
2010/11/18
Metáfora para os tempos que correm
Quem escrevera Port-Wine, que eu já conhecia numa gravação de Mário Viegas, não podia ser menos que uma entidade transcendente. Mas foi na aldeia do meu pai que o encontrei, por acaso, ao entrar na Casa do Povo de Murtede. Não o achei simpárico, Joaquim Namorado, o mítico autor do poema! O mito fez-se homem onde menos esperava.
Compreendi que a obra transcende o autor.
Não me venham por isso com as histórias privadas e mesquinhas do genial pintor que deixava a roupa espalhada pela casa ou do revolucionário que...
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