Cuba e a Democracia

As autoridades “de facto” preparam a comemoração da revolução cubana que derrubou o ditador corrupto e sinistro Fulgêncio Batista, no fim de 1958, o qual viria a refugiar-se em Portugal (Ilha da Madeira e Estoril)acabando por morrer em Espanha.

«Una programación especial en saludo al aniversario 51 del Triunfo de la Revolución se desarrollará desde este fin de semana hasta el 3 de enero en todo el país»
Granma.cu


Tratava-se de uma revolução porque punha cobro a uma ditadura e inaugurava um regime ideologicamente contrário ao anterior, além de que reunia um amplo apoio popular.

DA HISTÓRIA
A princípio, a revolução conciliava no poder instituído as três tendências típicas do século XX: conservadores, reformistas e revolucionários, e as correspondentes contradições entre o poder económico da burguesia e um poder político em confronto com ele. O processo revolucionário depressa venceria essa contradição. Para corresponder aos anseios da população, baixaram os preços de bens essenciais como a habitação e a electricidade; foram feitos investimentos enormes na educação e em obras públicas que deram muitos empregos; foi implementada uma reforma agrária de grande alcance para o desenvolvimento produtivo, para o emprego e para a expulsão dos interesses norte-americanos muito ligados aos latifúndios existentes. Mas se todas estas medidas tinham um caracter revolucionário e anti-imperialista, não apontavam ainda claramente para um regime socialista. E se pode dizer-se que depois de Outubro de 1960 tudo configurava um regime socialista, esta questão da caracterização ideológica continuou quase sempre indefenida e polémica.

OS VÍCIOS DO PODER

O dirigente da revolução chamar-lhe-ia mais tarde cubanismo, para distinguir de comunismo. Mas copiou o que o “socialismo real” praticava de melhor e de pior – a democratização económica, da saúde e do ensino, a par com a censura total e a polícia política, a repressão das liberdades cívicas, a imposição do partido-único, a concentração pessoal do poder e o culto da personalidade do líder.

Julgando-se mais iluminados que o Papa e mais mandatados que Jesus Cristo, salvadores a quem o povo libertado tudo deve, a quem o povo estúpido nada tem para dizer, instalaram-se no Poder com armas e polícias e ali se impuseram para a (sua) eternidade. Ou, nas palavras de Fidel, « para assegurar a continuidade da Revolução quando aqui já não estejam os seus dirigentes históricos».


O deputado cubano Jorge Lezcano Pérez exprime o que eu chamaria o argumentário subterrâneo da ditadura cubana, num artigo sobre « las grandes diferencias entre las elecciones capitalistas y las de nuestra Revolución». É suposto que o artigo dê conta de um inquérito do «Instituto Latinobarómetro» (ONG chilena), realizado em 2003 em 17 países mas é notório que J.Pérez selecciona dos estudos daquele Instituto o que lhe convém e mesmo assim tem que recuar a 2003 !

«Registró que sólo el 11% de los encuestados tienen confianza en los partidos políticos, el 42% estaría dispuesto a votar por un partido, el 27% confía en el Congreso y el 28% en el gobierno; los que aprueban al gobierno llegan nada más que al 24%. Los que respondieron sentir satisfacción con la democracia fueron solamente el 28%. El 69% respondió que más que partidos políticos y congresos lo que hace falta es un líder decidido que se ponga a resolver los problemas. Y al 52% no le importaría que un gobierno no democrático llegara al poder si pudiera resolver los problemas económicos».

O cinismo do regime nesta matéria vai ao ponto de “justificar” a proibição de propaganda eleitoral para todos, com a afixação das candidaturas nos locais adequados, pelas autoridades competentes. E mais: "Todos têm o direito de participar, até os chamados dissidentes. O que acontece é que estes não conseguem reunir apoio" (Jorge Castro Benítez, embaixador cubano em Portugal, noutra oportunidade) .

Num país onde todos os orgãos de comunicação - Granma, Juventud Rebelde, Cubavision, Trabajadores, Radio Rebelde, Radio Relojsocial - são propriedade e direcção do partido único, recheados de títulos, subtítulos e artigos com a propaganda política da mais primária e personalista, pouco variando entre “¡Gracias Fidel!” y “saludos al triunfo de la Revolución”, a proibição de campanhas eleitorais é um duplo insulto – à liberdade e à inteligência.

Quando me falam da elevada percentagem com que Fidel ou Raúl ganham as eleições, eu tenho que perguntar que resultados tiveram "os outros candidatos" !

Ainda há um mês me referi AQUI à perseguição e violência exercida contra uma jovem cubana, pelas opiniões que exprimia no seu blogue. Há poucos dias soubemos da prisão de um estrangeiro por estar a distribuir telemóveis – essas armas letais... contra o obscurantismo - nas ruas de Havana. Será necessário percorrer as dezenas de anos de repressão do regime para envergonhar aqueles que o defendem? Se o bloqueio económico dos EUA ou os atentados falhados contra Fidel justificassem este regime de excepção permanente, para que serviriam os herois vivos e mortos desta revolução?

Mas nada disso impedirá Raúl de Castro de voltar a citar José Marti, como fez há um ano: «A liberdade é muito cara. É necessário, ou resignar-se a viver sem ela, ou decidir-se comprá-la pelo seu preço».
Será que alguém o ouve desta vez?

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