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2011/08/20

Silêncio e ruído, a mesma luta!

Quando as autoridades cubanas impedem a averiguação das circunstâncias em que morreu o adolescente Emilio Valdez, apesar dos insistentes pedidos dos pais e das fortes suspeitas de abuso criminoso de práticas repressivas, vemos o mecanismo do silêncio a funcionar.

Quando as mesmas autoridades fazem do caso humano Elián um caso político para exploração propagandística durante mais de 10 anos, apesar de ter sido resolvido satisfatoriamente, estamos perante propaganda indecorosa para encobrir a natureza real da “revolução” abstracta e a moral de quem a apoiar!
As ditaduras, nomeadamente o nazi-fascismo, apoiam a sua sobrevivência num aparelho comunicacional composto por aqueles dois mecanismos complementares: o silêncio e o ruído, isto é, a censura e a propaganda. A primeira inclui a auto-censura induzida pelo medo; a segunda aproveita a disponibilidade de muitos para a corrupção – aqui a dependência pessoal dá uma forte ajuda.

Os regimes que se reclamam do socialismo e do comunismo mas que aplicam sistematicamente aquelas práticas, comprometem definitivamente o socialismo e configuram um criminoso abuso de poder com sacrifício das populações – antes de mais, da sua dignidade.

Qualquer destas razões bastaria para que o assunto fosse aqui trazido, por mais odioso que isso seja para alguns "revolucionários" profissionais.

Notícia posterior:
La Dama de Blanco Berta Soler denunció que cerca de 49 mujeres miembros de la asociación fueron brutalmente reprimidas hoy en La Habana por turbas de hombres y mujeres, que les dieron “empujones, patadas, les escupieron”, cuando ellas se disponían a realizar su caminata.


2011/02/11

Mubarak e o poder


A ver vamos quem ri no fim...
(Ainda que o fim seja apenas o princípio)

2010/03/21

Modelos organizativos


Edgar Morin (*) defende que nenhuma organização pode funcionar se os respectivos membros obedecerem escrupulosamente às suas normas. A tese aborda o caracter complexo da realidade, que nós temos tendência para ignorar.

Expressa essa salvaguarda, julgo que é habitual e normal que as organizações tenham um orgão central de onde emanam as directivas funcionais e disciplinares – uma estrutura centralizada. É assim com os estados e respectivos governos, com os partidos e respectivas direcções, com as empresas, os clubes e as religiões. O que difere, do ponto de vista conceptual, é a legitimidade e a representatividade, as quais dependem da natureza da organização e dos respectivos estatutos.

Pelos valores que invocam e pela representatividade popular que reclamam ter, os partidos comunistas deveriam acrescentar democracia ao centralismo e não centralismo à democracia quando inscrevem o princípio do "Centralismo Democrático" na sua organização. Mas o que a prática destes tem mostrado é que o centralismo se sobrepõe ao caracter democrático do funcionamento partidário e da organização do estado.

Esse anacronismo poderia justificar-se em circunstâncias especiais, como a de um período revolucionário que é suposto ser excepcional, transitório, efémero. Estariamos apenas a confirmar a tese sobre a complexidade dos fenómenos e das organizações. Mas a experiência histórica revela que a natureza popular das revoluções socialistas passa, e o centralismo fica, não como excepção necessária e sim como regra permanente.

Isto levanta a questão de saber se a perpetuação da ditadura “do proletariado”, é uma norma apoiada no conceito leninista de centralismo ou é uma infracção à norma. Questão que os mentores dos partidos comunistas em geral e do português em particular se dispensam de esclarecer, tornando-os suspeitos, pouco confiáveis para a governação. É o paradoxo do marxismo-leninismo.

Por outro lado, a leitura dos estatutos do PSD, tão invocados neste mês de Março de 2010, e dos próprios estatutos do PS, lembrados a propósito daqueles, alerta-nos para que esse instinto centralista é muito mais geral do que convém ao discurso anticomunista. A conclusão, a tirar-se, seria a de sempre: que a questão não é da natureza dos partidos mas sim da natureza dos poderes, sempre vocacionados para medrar por cima dos militantes e dos cidadãos.

"Todo o poder aos sovietes", desde que os sovietes obedeçam ao Soviete Supremo! - É como terá que entender-se o lema comunista, metáfora para todos os regimes, afinal.

Assim como "possuimos os genes que nos possuem" - para voltar a Edgar Morin - também possuimos os partidos e os governos que nos possuem.


(*) Edgar Morin em "Introdução ao Pensamento Complexo" (Public.: Institº. Piaget, 1990/91

2010/03/09

O equilíbrio do mêdo

depois do “equilíbrio do terror”

Para que se dencadeie uma revolução - aprende-se na cultura marxista – é necessário que se reunam as condições objectivas (degradação da situação nacional) com as condições subjectivas (descontentamento popular).

Ora, continuando o assunto do meu último artigo, conhecida a ausência de todas as liberdades políticas, culturais, de informação e de expressão em Cuba ou na Coreia do Norte, por exemplo, a par com a manifesta falta de desenvolvimento económico, mas também o descontentamento amordaçado da população, interrogamo-nos sobre o que faltará para que uma revolução nacional deflagre contra a “revolução” pessoal dos respectivos líderes.

Quem viveu sob ditadura, como nós no tempo de Salazar e Caetano, é fácil perceber a explicação: é o mêdo da repressão e, em parte, o mêdo da alternativa que sustentam o regime.

Por outro lado, a profunda injustiça objectiva que constituem as alegadas remunerações escandalosas entre outras mais ou menos ocultas de gestores e grandes accionistas, à custa da “contenção” das remunerações dos trabalhadores em geral; as receitas de “apoios às empresas” e sacrifícios “às famílias”, em regimes políticos com liberdade de informação e de expressão como o nosso, também acolhem a resignação política dos cidadãos, o que impõe a mesma pergunta sobre o que faltará para que uma revolução nacional deflagre contra a democracia corrupta e injusta. E uma vez mais a resposta é fácil: é o mêdo que sustenta o regime. Ainda que neste caso seja apenas o mêdo da alternativa que se revela nos regimes atrás mencionados.

Dupla resposabilidade, pois, desses regimes e das alternativas que noutros países com eles se irmanam.

Entretanto, enquanto as prováveis alternativas vão aprendendo a andar e a falar, o mundo finge-se estável, como alguém que habita uma casa em espaço sísmico mas não tem outro para viver. Até porque, mesmo quando há sismos, não morre toda a gente...

2009/12/29

Cuba e a Democracia

As autoridades “de facto” preparam a comemoração da revolução cubana que derrubou o ditador corrupto e sinistro Fulgêncio Batista, no fim de 1958, o qual viria a refugiar-se em Portugal (Ilha da Madeira e Estoril)acabando por morrer em Espanha.

«Una programación especial en saludo al aniversario 51 del Triunfo de la Revolución se desarrollará desde este fin de semana hasta el 3 de enero en todo el país»
Granma.cu


Tratava-se de uma revolução porque punha cobro a uma ditadura e inaugurava um regime ideologicamente contrário ao anterior, além de que reunia um amplo apoio popular.

DA HISTÓRIA
A princípio, a revolução conciliava no poder instituído as três tendências típicas do século XX: conservadores, reformistas e revolucionários, e as correspondentes contradições entre o poder económico da burguesia e um poder político em confronto com ele. O processo revolucionário depressa venceria essa contradição. Para corresponder aos anseios da população, baixaram os preços de bens essenciais como a habitação e a electricidade; foram feitos investimentos enormes na educação e em obras públicas que deram muitos empregos; foi implementada uma reforma agrária de grande alcance para o desenvolvimento produtivo, para o emprego e para a expulsão dos interesses norte-americanos muito ligados aos latifúndios existentes. Mas se todas estas medidas tinham um caracter revolucionário e anti-imperialista, não apontavam ainda claramente para um regime socialista. E se pode dizer-se que depois de Outubro de 1960 tudo configurava um regime socialista, esta questão da caracterização ideológica continuou quase sempre indefenida e polémica.

OS VÍCIOS DO PODER

O dirigente da revolução chamar-lhe-ia mais tarde cubanismo, para distinguir de comunismo. Mas copiou o que o “socialismo real” praticava de melhor e de pior – a democratização económica, da saúde e do ensino, a par com a censura total e a polícia política, a repressão das liberdades cívicas, a imposição do partido-único, a concentração pessoal do poder e o culto da personalidade do líder.

Julgando-se mais iluminados que o Papa e mais mandatados que Jesus Cristo, salvadores a quem o povo libertado tudo deve, a quem o povo estúpido nada tem para dizer, instalaram-se no Poder com armas e polícias e ali se impuseram para a (sua) eternidade. Ou, nas palavras de Fidel, « para assegurar a continuidade da Revolução quando aqui já não estejam os seus dirigentes históricos».


O deputado cubano Jorge Lezcano Pérez exprime o que eu chamaria o argumentário subterrâneo da ditadura cubana, num artigo sobre « las grandes diferencias entre las elecciones capitalistas y las de nuestra Revolución». É suposto que o artigo dê conta de um inquérito do «Instituto Latinobarómetro» (ONG chilena), realizado em 2003 em 17 países mas é notório que J.Pérez selecciona dos estudos daquele Instituto o que lhe convém e mesmo assim tem que recuar a 2003 !

«Registró que sólo el 11% de los encuestados tienen confianza en los partidos políticos, el 42% estaría dispuesto a votar por un partido, el 27% confía en el Congreso y el 28% en el gobierno; los que aprueban al gobierno llegan nada más que al 24%. Los que respondieron sentir satisfacción con la democracia fueron solamente el 28%. El 69% respondió que más que partidos políticos y congresos lo que hace falta es un líder decidido que se ponga a resolver los problemas. Y al 52% no le importaría que un gobierno no democrático llegara al poder si pudiera resolver los problemas económicos».

O cinismo do regime nesta matéria vai ao ponto de “justificar” a proibição de propaganda eleitoral para todos, com a afixação das candidaturas nos locais adequados, pelas autoridades competentes. E mais: "Todos têm o direito de participar, até os chamados dissidentes. O que acontece é que estes não conseguem reunir apoio" (Jorge Castro Benítez, embaixador cubano em Portugal, noutra oportunidade) .

Num país onde todos os orgãos de comunicação - Granma, Juventud Rebelde, Cubavision, Trabajadores, Radio Rebelde, Radio Relojsocial - são propriedade e direcção do partido único, recheados de títulos, subtítulos e artigos com a propaganda política da mais primária e personalista, pouco variando entre “¡Gracias Fidel!” y “saludos al triunfo de la Revolución”, a proibição de campanhas eleitorais é um duplo insulto – à liberdade e à inteligência.

Quando me falam da elevada percentagem com que Fidel ou Raúl ganham as eleições, eu tenho que perguntar que resultados tiveram "os outros candidatos" !

Ainda há um mês me referi AQUI à perseguição e violência exercida contra uma jovem cubana, pelas opiniões que exprimia no seu blogue. Há poucos dias soubemos da prisão de um estrangeiro por estar a distribuir telemóveis – essas armas letais... contra o obscurantismo - nas ruas de Havana. Será necessário percorrer as dezenas de anos de repressão do regime para envergonhar aqueles que o defendem? Se o bloqueio económico dos EUA ou os atentados falhados contra Fidel justificassem este regime de excepção permanente, para que serviriam os herois vivos e mortos desta revolução?

Mas nada disso impedirá Raúl de Castro de voltar a citar José Marti, como fez há um ano: «A liberdade é muito cara. É necessário, ou resignar-se a viver sem ela, ou decidir-se comprá-la pelo seu preço».
Será que alguém o ouve desta vez?