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2013/12/01

Honduras e as nossas ondas

A República de Honduras foi a votos há uma semana, dia 21 de Novembro, para a presidência e orgãos locais. Depois do golpe de estado da direita hondurenha que depôs e deportou o presidente legítimo Manuel Zelaya em 2009, foi criado um novo partido, há menos de dois anos, que apresentou agora como candidata à presidência, a mulher de Manuel Zelaya, Xiomara Castro.

Trata-se do Partido Liberdade e Refundação, geralmente designado por “Livre”. Qualquer coincidência com o partido que Rui Tavares quer criar, além do nome e do posicionamento à esquerda, talvez seja mera coincidência. Até porque, se “não vem mal nenhum ao mundo” no caso deste não eleger ninguém, como diz o próprio fundador, já no caso das Honduras, a questão é completamente diferente: os partidários do casal Zelaya reivindicam a vitória depois da comissão eleitoral a ter atribuído ao Partido Nacional.

O “Partido Nacional”, de direita e que tem governado o país depois de ter promovido o golpe contra Zelaya, concorreu à presidência com Juan Orlando Hernandez de quem vale a pena citar esta afirmação ainda em jeito de comparação com a política portuguesa: 'Eu garanto a você que o que é de um lado uma crise, pode ser visto pelo outro lado como uma grande janela de oportunidade'.

A questão é que o partido “Libre” denuncia fraudes e irregularidades graves no processo eleitoral, sem as quais considera que Xiomara teria maior resultado do que Juan Orlando.

No país mais violento do mundo, onde a criminalidade tem subido a níveis assustadores e, com ela, tanto cresce o mêdo como a pobreza – nas Américas, só o Haiti apresenta uma taxa de pobreza maior que Honduras – as perspectivas de paz, desenvolvimento e justiça social, são desanimadoras. Se a segurança e o desemprego eram as preocupações mais invocadas pelos seus cidadãos, na oportunidade destas eleições, nada parece melhorar com a situação criada. Outro tanto se diria em relação às dívidas externa e interna – sem pretender voltar às comparações.

Depois de cem anos de bipartidismo de direita, parece que a população tentou organizar-se para responder à ausência do Estado. A estas eleições já se apresentaram nove partidos, e a grande participação da juventude trazia um sinal de esperança para o futuro. Faltava saber, como alguém comentava, se aqueles que fizeram um golpe de estado iriam permitir agora eleições democráticas. E se os Estados Unidos da América que aproveitaram a situação para instalar duas bases militares neste país, depois de 2009, não jogarão na confusão política e na extrema dependência das Honduras em relação à América do Norte, de forma determinante.

Como em toda a América Latina, o que se joga nas Honduras é a correlação de forças entre uma esquerda independentista e uma direita capitulacionista, entre o modelo estorpecedor do passado e o projecto progressista de futuro. Com o Brasil e a Venezuela, o Equador, a Argentina e outros, as Honduras podem almejar mais do que nunca instalar as bases da independência e do progresso; de contrário, as perspectivas estão à vista nestes quatro anos de usurpação.

2012/06/25

América Latina renovada


Esta é a imagem de uma nova América Latina: independente, patriótica no melhor sentido, popular e progressista. (Só não digo democrática para não ter que apagar Fidel). É com esta nova realidade que os EUA e o mundo em geral vão ter que lidar.

Que o próprio Porfírio Lobo, presidente de facto das Honduras, saído de um golpe comparável àquele que agora atingiu o Paraguai, também ele conteste o processo de demissão de Lugo, é bem significativo de que não vale a pena lutar contra a corrente de esquerda que percorre a região. Por este caminho ainda vamos ver o presidente da Colombia a fazer o mesmo, para já não dizer o mesmo de Piñera, do Chile...

Entretanto, os governantes portugueses "acompanham a situação"... sem se molharem.

ACTUALIZAÇÃO

Documento divulgado neste domingo refere que o Brasil, Bolívia, Equador, Peru, Uruguai e Argentina, mas também Chile e Colômbia, reprovam energicamente a "ruptura da ordem democrática na República do Paraguai".

2012/06/23

Das Honduras ao Paraguay

Antecipando as eleições presidenciais, agendadas para abril de 2013, um golpe de direita destitui de forma abrupta o Presidente do Paraguay, Fernando Lugo.

Trata-se duma iniciativa do parlamento em que 39 dos 43 senadores presentes declararam que o Presidente é culpado das acusações formuladas contra ele, o que levou à sua destituição imediata, de acordo com a Constituição do Paraguai.

As acusações que serviram de pretexto para esta iniciativa alegam que o presidente eleito terá feito um mau desempenho nas suas funções num incidente ocorrido em Curuguatyna na passada sexta-feira. A ocupação de uma herdade terá sido reprimida pelas autoridades, decorrendo daqui a morte de 17 pessoas num confronto entre polícias e os camponeses ocupantes.

Dirigentes populares, apoiantes do presidente Lugo, sugerem que esta ocorrência terá sido preparada para servir de pretexto às acusações contra ele. O que a imprensa está chamando de impeachment é um golpe de Estado financiado pelos latifundiários paraguaios, dentre eles os grileiros brasiguaios da fronteira - observa um comentador.

Com efeito, de um dia para o outro, não só o presidente da República é demitido, como o vice-presidente, seu opositor, toma posse num ambiente de precipitação e excitação na sala dos congressos que mais se assemelhava a uma insurreição.

Este golpe constitucional da Direita é contestado por manifestações populares que decorrem em frente ao parlamento, nomeadamente enquanto se realiza a atabalhoada tomada de posse do vice-presidente Federico Franco.

Este, no seu discurso apressado, proclamou a intenção de realizar uma política de energia e uma reestruturação industrial que dê maior autonomia à economia nacional. A sua repulsa contra a importação de petróleo da Venezuela, é clara. Também afirmou o propósito de que se realizem as eleições presidenciais regulares, agendadas para Abril de 2013. Trata-se, portanto, em nome da Democracia, de substituir temporariamente um presidente eleito... por outro não-eleito.

Enfim, as semelhanças com o que fizeram a Manoel Zelaia, nas Honduras, é indisfarçável. E o caracter reaccionário e revanchista deste golpe, também.

O presidente agora deposto foi eleito para a presidência em 2008 com um mandato que terminaria dentro de apenas nove meses. Oriundo de uma família humilde que foi vítima de perseguição política durante a ditadura de Alfredo Stroessner (1954-1989, Fernando Lugo, ex-bispo católico partidário da Teologia da Libertação deixou a vida religiosa para concorrer à presidência como candidato de uma coligação destinada a acabar com 61 anos de hegemonia do Partido Colorado, que foi o sustentáculo da ditadura de Stroessner. É esse partido que lidera agora este golpe.

Para além do incidente de Curuguaty que “serviu de detonador” a esta crise, outras notícias ajudaram a uma grande perda de apoio político ao presidente e subsequente afastamento, nomeadamente a ocultação da paternidade de seus filhos.

Tudo serviu para os objectivos da Direita. Até que ponto os levará para diante na conjuntura da nova América Latina, é o que ditará a correlação de forças em confronto em que a resistência popular tem um papel a desempenhar.

2009/11/30

Que eu me engane, América Latina !

Nas eleições que decorreram este domingo, 29/9, nas Honduras, para vários cargos, o resultado mais esperado em relação ao cargo presidencial, não é sobre o candidato mais votado mas sim o grau de afluência às urnas, face ao contexto e às circunstâncias em que decorreram. Um contexto de golpe de estado em que o presidente deposto à força apela à abstenção, e numas circunstâncias de repressão policial e participação da Igreja Católica.

A UE, o Brasil e a Venezuerla já declararam a sua recusa em reconhecer a legitimidade das eleições; os EUA , Canadá, Panamá, Costa Rica y Perú, terão manifestado a intenção de aceitar os resultados.

Falta saber que influência terá na situação, a Cimeira Ibero-Americana que decorre em Lisboa por estes dias. Tendo em conta a ausência de Cuba e Venezuela, a divisão de posições atrás referida e o silêncio esperado de Portugal e Espanha, refugiados na sua condição de membros da União Europeia, o mais provável é que a Cimeira terá tanta influência nesta questão como na estratégia “da Inovação e do Conhecimento”, isto é, nenhuma. Que eu me engane!

Quem aposta forte nesta Cimeira é Uribe, o presidente da Colômbia,que aproveitou a vinda a Portugal para recolher propaganda destinada a uso interno: «En el Santuario de la Virgen de Fátima el Jefe de Estado oró por la paz de Colombia»
Fonte da citação e da foto: http://web.presidencia.gov.co/

Se Chavez fosse a Fátima poderia replicar por sua vez a Nossa Senhora que «... todo o arsenal bélico ianque, contemplado no acordo, responde ao conceito de operações extraterritoriais... torna o território colombiano num gigantesco enclave militar ianque..., a maior ameaça contra a paz e a segurança da região da América do Sul e de toda Nossa América». E que seria uma traição contra a própria Venezuela que o seu presidente não defendesse o país - como explica noutro local.

E se Uribe falasse com Chavez e deixasse a senhora... em paz?

2009/09/30

Silêncio intolerável


Por primera vez en tres meses, Micheletti (presidente golpista nas Honduras) fue corregido en público por el Congreso y por algunos de los líderes políticos que lo han venido apoyando hasta ahora. Así que no tuvo más remedio que frenar.
EL PAIS

Isto foi o que NÃO se leu nem ouviu hoje noticiar nem debater nas televisões que temos, isto é, que tem o Governo, a IMPRESA e a PRISA/Media Capital...
Micheletti foi quem «ha decidido este lunes que los militares cierren los medios de comunicación que le resultan hostiles, es decir, Radio Globo y el Canal 36 de televisión, afines al depuesto Manuel Zelaya. Los cinco derechos constitucionales que quedan anulados son tan importantes como el de libertad personal, libre emisión de pensamiento (libertad de expresión), libertad de asociación y de unión, libre circulación y los derechos de los detenidos» EL PAIS.

2009/07/05

Pacto de silêncio "democrático"

Um pacto de silêncio e cumplicidade entre as forças da direita política mais retrógrada, em todo o mundo, a Igreja e os grandes meios de “Comunicação Social” (leia-se difusão), sai inequivocamente denunciado do actual conflito na Honduras. As forças que mataram Salvador Allende já cheiram o sangue de novas vítimas – em nome de Deus, do Lucro e dos privilégios de classe. Vestem fatos caros e batina, mas debaixo das botas de verniz escondem aguçadas e letais pontas de ferro. Sempre que as democracias investem contra os seus privilégios ou ameaçam simplesmente, espumam como bestas – são bestas!

Felismente há
EL PAIS e, apesar de tudo!, telesur e cubavision… Da autoridade moral do governo cubano para reclamar o funcionamento da democracia formal e as liberdades de informação noutros países, é outro dossier...

Do lado dos golpistas nas Honduras, alinha-se um argumentário que também não deve ser silenciado mas que sob o manto diáfano da legalidade constitucional, esconde mal o sofisma com que pretende justificar-se. É que a proibição constitucional se reporta ao plebiscito mas nenhuma norma constitucional, em parte alguma do mundo, pode proibir a revisão da própria Constituição - e era no sentido de auscultar o sentimento popular em relação a uma eventual revisão da Constituição que o presidente promovia esta consulta - consulta que, como ele próprio declarou, não teria quaisquer efeitos vinculativos.

E, em última análise, haveria sempre que perguntar qual é a gravidade de o presidente de um país fazer uma pergunta ao seu povo, comparada com a gravidade de sequestrar, exilar e depôr insurrecionalmente o próprio presidente eleito.