Muito se tem dito sobre o risco de o Brasil não estar preparado a tempo para a fase final do Campeonato do Mundo de Futebol que está previsto decorrer em doze cidades, no próximo Verão. A confirmar-se este vaticínio, seria um desastre para o prestígio do país e uma tragédia para o seu governo.
Face às manifestações contra o evento, em nome de investir na eliminação da pobreza os custos associados à realização do campeonato, há que distinguir as reacções violentas com objectivos políticos, de outras, pacíficas e genuinamente sociais.
Por outro lado, há duas questões que não podem deixar de colocar-se:
1ª) Esses custos são ou não compensados em promoção de emprego e retorno económico?
2ª) Como reagiriam os cidadãos brasileiros se o Governo tivesse recusado a realização do evento no Brasil, fosse em nome do que fosse?
Relevam destes acontecimentos dois fenómenos: o grau de consciência cívica e de capacidade criativa dos cidadãos envolvidos na contestação pacífica, por um lado, e o carácter democrático exemplar da presidente do Brasil, Dilma Rousseff.
“Sou a presidenta de todos os brasileiros, dos que se manifestam e dos que não se manifestam” – disse Dilma, há um ano, no contexto daquelas manifestações.
Há quanto tempo não temos nós um chefe de governo a dizer “É a cidadania, e não o poder económico, quem deve ser ouvido em primeiro lugar”? Há quanto tempo não temos nós um presidente assim – dos portugueses que consentem e dos portugueses que protestam?
ADENDA
Em relação à Copa, quero esclarecer que o dinheiro do governo federal, gasto com as arenas é fruto de financiamento que será devidamente pago pelas empresas e os governos que estão explorando estes estádios. Jamais permitiria que esses recursos saíssem do orçamento público federal, prejudicando setores prioritários como a Saúde e a Educação.
Na realidade, nós ampliamos bastante os gastos com Saúde e Educação, e vamos ampliar cada vez mais. Confio que o Congresso Nacional aprovará o projeto que apresentei para que todos os royalties (proveitos para o Estado) do petróleo, sejam gastos exclusivamente com a Educação.
(Dilma Rousseff, 2013-Jun-21)
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2014/05/29
2014/03/29
Um silêncio explosivo
Um muro de silêncio erguido pelos orgãos de comunicação social impediu-nos de ouvir há uma semana, 22 de Março, os gritos de
protesto que dois milhões de espanhois levaram a Madrid. Chamaram-lhe «Marcha por la dignidad».
Não há muro que encubra uma realidade desta dimensão física e humana. Não há distracção jornalística que impeça testemunhos como este de Julio Anguita de que recorto apenas o parágrafo inicial:
Desde la puerta del Ministerio de Agricultura he visto, emocionado y expectante, la entrada en Madrid de miríadas de personas, de ciudadanos y ciudadanas que en columnas de marcha han dado en la capital de España el ejemplo que la mayoría de damnificados por este régimen de corrupción, injustica y violación de Derechos Humanos necesita: la unidad en la lucha .
Quanto ao Manifesto do movimento de cidadãos – ou de uma parte desse movimento informal – transcrevo um breve excerto também:
«… Lo justificaron diciendo que habíamos vivido por encima de nuestras posibilidades y que había que ser austeros y, por tanto, era imperativo recortar el déficit. Sin embargo, no ha habido ningún recorte a la hora de inyectar decenas de miles de millones de euros para salvar a los bancos y especuladores.
Están aprovechando la crisis para recortar derechos.
Estas políticas de recortes están causando sufrimiento, pobreza, hambre e incluso muertes y todo para que la banca y los poderes económicos sigan teniendo grandes beneficios a costa de nuestras vidas».
[texto completo deste manifesto]
Tem-se falado muito da forma pacífica como os portugueses têm encarado a violência das políticas em curso, mas o melhor que pode acontecer para os agentes desta ordem pública, é que a raiva silenciosa expluda nas urnas com consequências políticas. Penso eu.
Não há muro que encubra uma realidade desta dimensão física e humana. Não há distracção jornalística que impeça testemunhos como este de Julio Anguita de que recorto apenas o parágrafo inicial:
Desde la puerta del Ministerio de Agricultura he visto, emocionado y expectante, la entrada en Madrid de miríadas de personas, de ciudadanos y ciudadanas que en columnas de marcha han dado en la capital de España el ejemplo que la mayoría de damnificados por este régimen de corrupción, injustica y violación de Derechos Humanos necesita: la unidad en la lucha .
Quanto ao Manifesto do movimento de cidadãos – ou de uma parte desse movimento informal – transcrevo um breve excerto também:
«… Lo justificaron diciendo que habíamos vivido por encima de nuestras posibilidades y que había que ser austeros y, por tanto, era imperativo recortar el déficit. Sin embargo, no ha habido ningún recorte a la hora de inyectar decenas de miles de millones de euros para salvar a los bancos y especuladores.
Están aprovechando la crisis para recortar derechos.
Estas políticas de recortes están causando sufrimiento, pobreza, hambre e incluso muertes y todo para que la banca y los poderes económicos sigan teniendo grandes beneficios a costa de nuestras vidas».
[texto completo deste manifesto]
Tem-se falado muito da forma pacífica como os portugueses têm encarado a violência das políticas em curso, mas o melhor que pode acontecer para os agentes desta ordem pública, é que a raiva silenciosa expluda nas urnas com consequências políticas. Penso eu.
2013/06/21
Brasil "de saco cheio"
Dois cêntimos de aumento no bilhete de autocarro foi a gota de água que fez transbordar o copo, no Brasil. Nas manifestações como nas greves e até nas guerras, é sempre uma gota de água…
Ignorar toda a outra água que antes se foi acumulando até chegar ao topo, ignorar o descontentamento e a revolta que se acumula pacificamente até “encher o saco” e transbordar,seria um suicídio político. Aquela acumulação explica que os protestos continuem depois de o Governo ter correspondido prontamente à exigência inicial.
«Os protestos já se deslocaram e estão mirando os gastos irresponsáveis, criminosos e eleitoreiros, feitos nesta orgia de gastos, propinas e superfaturamentos das obras e dos estádios da Copa. São bilhões de dólares roubados à saúde e à educação do povo brasileiro» - desabafava um cidadão.
A população que assistiu nos últimos dez anos à consolidação de um governo democrático e popular, e ao desenvolvimento extraordinário do país, sob a direcção do presidente Lula e da presidente Dilma, exige agora que esse progresso seja posto ao seu serviço de forma satisfatória, nomeadamente através das prestações de saúde, da educação e dos transportes.
Ainda que os governos de Lula e Dilma tenham tirado milhões de pessoas da pobreza, a classe média exige um nível de vida compatível com o estatuto mundial que o país alcançou, e as classes mais desfavorecidas reclamam contra as desigualdades.
Pode ser genuína a compreensão manifestada por Dilma Rousseff e a adesão aos protestos do próprio PT, mas Dilma é a presidente e o PT é o partido que está no poder, logo o que lhes compete é apresentar iniciativas políticas para fazer face aos problemas denunciados. E se estes não aparecem sistematizados porque o movimento de protesto é anárquico, não há-de ser difícil a quem governa, identificá-los – pior seria!
A dignidade com que o Governo tem lidado com esta explosão social, e o cuidado com que a generalidade dos manifestantes reprova e evita os grupos provocatórios violentos, alimenta a esperança de que esta seja uma “boa onda” para refrescar o Brasil e não para afogá-lo como desejariam alguns sectores extremistas infiltrados.
Creio que vai no bom sentido a declaração oficial do Partido dos Trabalhadores quando "conclama a militância a continuar presente e atuante nas manifestações lado a lado com outros partidos e movimentos do campo democrático e popular", e diz que a presença de filiados do PT, com "nossas cores e bandeiras neste e em todos os movimentos sociais, tem sido um fator positivo não só para o fortalecimento, mas, inclusive, para impedir que a mídia conservadora e a direita possam influenciar, com suas pautas, as manifestações legítimas".
Ignorar toda a outra água que antes se foi acumulando até chegar ao topo, ignorar o descontentamento e a revolta que se acumula pacificamente até “encher o saco” e transbordar,seria um suicídio político. Aquela acumulação explica que os protestos continuem depois de o Governo ter correspondido prontamente à exigência inicial.
«Os protestos já se deslocaram e estão mirando os gastos irresponsáveis, criminosos e eleitoreiros, feitos nesta orgia de gastos, propinas e superfaturamentos das obras e dos estádios da Copa. São bilhões de dólares roubados à saúde e à educação do povo brasileiro» - desabafava um cidadão.
A população que assistiu nos últimos dez anos à consolidação de um governo democrático e popular, e ao desenvolvimento extraordinário do país, sob a direcção do presidente Lula e da presidente Dilma, exige agora que esse progresso seja posto ao seu serviço de forma satisfatória, nomeadamente através das prestações de saúde, da educação e dos transportes.
Ainda que os governos de Lula e Dilma tenham tirado milhões de pessoas da pobreza, a classe média exige um nível de vida compatível com o estatuto mundial que o país alcançou, e as classes mais desfavorecidas reclamam contra as desigualdades.
Pode ser genuína a compreensão manifestada por Dilma Rousseff e a adesão aos protestos do próprio PT, mas Dilma é a presidente e o PT é o partido que está no poder, logo o que lhes compete é apresentar iniciativas políticas para fazer face aos problemas denunciados. E se estes não aparecem sistematizados porque o movimento de protesto é anárquico, não há-de ser difícil a quem governa, identificá-los – pior seria!
A dignidade com que o Governo tem lidado com esta explosão social, e o cuidado com que a generalidade dos manifestantes reprova e evita os grupos provocatórios violentos, alimenta a esperança de que esta seja uma “boa onda” para refrescar o Brasil e não para afogá-lo como desejariam alguns sectores extremistas infiltrados.
Creio que vai no bom sentido a declaração oficial do Partido dos Trabalhadores quando "conclama a militância a continuar presente e atuante nas manifestações lado a lado com outros partidos e movimentos do campo democrático e popular", e diz que a presença de filiados do PT, com "nossas cores e bandeiras neste e em todos os movimentos sociais, tem sido um fator positivo não só para o fortalecimento, mas, inclusive, para impedir que a mídia conservadora e a direita possam influenciar, com suas pautas, as manifestações legítimas".
2012/11/23
Imagens de arquivo
A PSP pediu à Direcção da RTP cópias de imagens gravadas nas manifestações de S. Bento.
Independentemente de Vítor Gonçalves ter diligenciado a satisfação desse pedido, em termos burocráticos, o que está por esclarecer é quem decidiu a entrega desse material à Polícia. Uma vez que Vitor Gonçalves é director-adjunto, pode ter recebido ordens superiores – pode e deve. Isto é o que se refere à legitimidade da decisão, que se confina à RTP e à PSP.
Outra coisa é saber se a PSP pediu ou exigiu e se esta foi a autora inicial do pedido ou se o fez a pedido do ministério que a tutela. Será que ainda vamos ter que acreditar que é o Ministro da Administração Interna que quer as imagens para apurar se houve violência desproporcionada da parte dos agentes da autoridade? Pelo caminho que o Governo leva em matéria de comunicação com os cidadãos, não seria de admirar.
Para o caso de ser essa a “explicação”, aqui fica um comentário "ab anteriori”. Quem de nós não ficaria enraivecido depois das provocações e agressões físicas, dos insultos e pedradas que os "soldados" da Polícia foram obrigados a suportar durante horas? É que, enquanto choviam pedras sobre os polícias que prestavam serviço na Assembleia da República, "nem uma agulha bolia na quieta melancolia" dos agentes do Governo.
É por esta conclusão que insiro no início deste post uma imagem das lutas de gladiadores, com seu público e seus governantes rejubilando nos balcões do circo romano. Uma imagem pedida ao arquivo da RTP...
Independentemente de Vítor Gonçalves ter diligenciado a satisfação desse pedido, em termos burocráticos, o que está por esclarecer é quem decidiu a entrega desse material à Polícia. Uma vez que Vitor Gonçalves é director-adjunto, pode ter recebido ordens superiores – pode e deve. Isto é o que se refere à legitimidade da decisão, que se confina à RTP e à PSP.
Outra coisa é saber se a PSP pediu ou exigiu e se esta foi a autora inicial do pedido ou se o fez a pedido do ministério que a tutela. Será que ainda vamos ter que acreditar que é o Ministro da Administração Interna que quer as imagens para apurar se houve violência desproporcionada da parte dos agentes da autoridade? Pelo caminho que o Governo leva em matéria de comunicação com os cidadãos, não seria de admirar.
Para o caso de ser essa a “explicação”, aqui fica um comentário "ab anteriori”. Quem de nós não ficaria enraivecido depois das provocações e agressões físicas, dos insultos e pedradas que os "soldados" da Polícia foram obrigados a suportar durante horas? É que, enquanto choviam pedras sobre os polícias que prestavam serviço na Assembleia da República, "nem uma agulha bolia na quieta melancolia" dos agentes do Governo.
É por esta conclusão que insiro no início deste post uma imagem das lutas de gladiadores, com seu público e seus governantes rejubilando nos balcões do circo romano. Uma imagem pedida ao arquivo da RTP...
2012/09/28
Elementar, caro Watson Coelho
Após um bom jantar e uma garrafa de vinho, entram nos sacos de dormir e caem no sono. Algumas horas depois, Holmes acorda e sacode o amigo.
- Watson, olhe para o céu estrelado. O que você deduz disso?".
Depois de ponderar um pouco, Watson diz:
- Bem, astronomicamente, estimo que existam milhões de galáxias e potencialmente biliões de planetas. Astrologicamente, posso dizer que Saturno está em Câncer. Teologicamente, eu creio que Deus e o universo são infinitos. Também dá para supor, pela posição das estrelas, que são cerca de 3h15 da madrugada…
O que me diz você, Holmes?" Sherlock responde:
- "Elementar, meu caro Watson. Roubaram a nossa barraca!"
É o que se passa com os discursos e declarações dos governantes, e com muitas das análises e comentários emitidos nos órgãos de comunicação. Após a bebedeira eleitoral, os aldrabões caem na mais tranquila alienação que as suas ambições alimentam e os serviços de Informação sustentam.
Alguns meses depois, o Povo acorda, sacode o Governo e pergunta:
- Senhores governantes, olhem como o país está destruído. O que dizem vocês disso?
Depois de ponderar os conselhos dos consultores, o Governo responde:
- Bem, financeiramente os portugueses vivem acima das suas possibilidades; economicamente, são uns preguiçosos; socialmente só pensam em direitos; psicologicamente, são uns piegas… E o que dizem vocês?
O Povo responde:
- Elementar, senhores governantes: vocês têm andado a roubar-nos !
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Governo PSD-CDS,
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Passos Coelho
2011/10/15
O protesto e o resto
São cada vez mais esmagadoras as percentagens de abstencionistas nos actos eleitorais, exprimindo a falta de confiança num sistema político que gere a riqueza, o poder e a informação com desprezo total pelos interesses, a vontade e a opinião dos cidadãos. E que rasga as promessas eleitorais assim que toma assento no Poder.
As manifestações de indignação que ganham corpo, cada vez mais, nas ruas das grandes cidades do mundo "liberal" convocam cada um de nós a assumir a sua responsabilidade no protesto activo e global, convocam-nos para o grande parlamento da representação directa.
“As palavras que hão-de salvar a humanidade há muito
que foram escritas, só falta agora uma coisa, salvar
a humanidade” - disse Almada Negreiros. Mas no contexto actual eu penso que faltam as palavras, as mensagens e os mensageiros portadores de uma nova arquitectura e uma nova engenharia social. Ser radical - lembrava Karl Marx - é resolver os problemas na sua raiz. É este aprofundamento que os movimentos de indignados reclamam.
Entretanto, não é demais denunciar a ruína do sistema. De uma forma ou de outra . Ou de outra...
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