2010/01/29

A guiar o PSD

Como não sei se estarei cá quando Aguiar Branco fôr eleito presidente do PSD, deixo já aqui os meus parabéns pelo seu sucesso pessoal, e o desejo de que ele contribua para o afastamento dos jovens populistas, dos velhos manhosos e dos médios oportunistas... para o pelotão da rectaguarda.

O Zé, o José Pedro, o Aguiar-Branco, tem a pose de um aristocrata, o sorriso discreto de um optimista inteligente, o discurso correcto de um político seguro, a imagem de um candidato confiável. Ninguém se parece mais do que ele com o fundador Francisco Sá Carneiro, e já nem falo de serem ambos portuenses. Distinguem-se pela ausência completa de sorrisos do fundador carismático, é certo – neste detalhe, o José Pedro mais se assemelha a outro Francisco - Pinto Balsemão.

Pessoas como eu, desconfiadas de poses tão nobres, não iriam por aí. Mas é preciso ter em conta que é deste imaginário que se alimenta o ego dos social-democratas. Além disso, o seu currículo partidário e o seu estatuto social oferecem confiança e admiração aos correligionários, entre burgueses esclarecidos e operários sem consciência de classe – para dar os nomes aos bois, como soi dizer-se.

Pessoalmente, o gozo que me dá esta escolha, é ver a cara de nabo de Pedro Miguel (Santana Lopes), a cara de pau do Pedro Passos (Coelho), o sorriso manhoso de Rui Fernando (Rio), o sorriso amarelo de Álvaro Machado (Pacheco Pereira) e a frustração subliminar de Marcelo Nuno (Rebelo de Sousa).


As diversas empresas e associações patronais onde Aguiar Branco tem lugares de direcção não ficarão indiferentes a esta nomeação. Mas, tirando essas, a quem é que importa o nome do timoneiro, se o rumo é o mesmo?

2010/01/28

Aviso

Com uma expectativa de recuperação económica em que ninguém acredita, e uma perspectiva de desemprego cada vez mais dramática, o que se tem por certo é a deterioração das condições e remunerações do trabalho e do apoio social no desemprego, na reforma e na doença. Políticas de sacrifício são apresentadas como inevitáveis e são aplicadas, desde logo, a quem depende do rendimento do trabalho.


Os grupos profissionais reagem com protestos e greves. Os governos apercebem-se de que não estiveram a lidar com expressões matemáticas quando decidiram nos seus gabinetes os sábios orçamentos; era com vidas humanas, famílias, crianças, que estavam a lidar.


Até certo ponto já sabiam disso, claro, e até certo ponto tiveram a preocupação de acautelar os efeitos humanos, sociais e políticos. Até certo ponto acreditaram que o Governo fez o que podia fazer no fio desta navalha político-económica – “A nossa primeira prioridade é o emprego”, proclamam ao mesmo tempo que decretam com entusiasmo a redução para metade dos funcionários públicos...

A partir do ponto a que chegaram, os governantes estariam a romper com o sistema, com o liberalismo social-democrata, o que se lhes afigura uma fantasia aberrante. Até certo ponto é de facto uma fantasia – na medida em que não é o tempo. Mas quem sabe quando é? Quantas falências mais? Quantos mais desempregados? Quantos pobres mais? Quantos ordenados congelados, quantas carências de serviços públicos, quantas manifestações, greves, revoltas, crimes de origem social, são necessários para que a sociedade entre em ruptura?

É que numa coisa não se enganou Karl Marx: «as mudanças quantitativas operam mudanças qualitativas». E raramente elas são calculáveis no tempo. Afinal quem sabe o momento em que a água passa dos 99 aos 100 graus, isto é, de água a vapor? Quem sabe o momento em que se evaporam as convicções de agora? O que se sabe é que num processo de aquecimento imparável, a água vai ferver. E quem diz a água diz a sociedade.

(Fotograma de Tempos Modernos, de Charlie Chaplin)

2010/01/23

Haiti como metáfora

Em situações extremas como aquela que vemos no Haiti por estes dias, a condição humana parece revelar-se de forma inequívoca. A solidariedade de todo o mundo, seja no domínio dos estados, das organizações internacionais ou da iniciativa individual, parece deitar por terra, qual terramoto ideológico, a ideia de que “o homem é o lobo do homem” (1). Temos vontade de ajudar – esse é que é o sentimento geral.
Em Cuba,
que volta a viver um período dramático de penúria acentuada, a população ainda assim se mobiliza para enviar alguns dos seus parcos bens – peças de roupa e pouco mais terão para dar – com destino ao povo vizinho. Não se trata aqui da solidariedade socialista que o marxismo proclama; é a solidariedade humana – a “natureza humana”, ao que parece.

Parece. Mas é?

Karl Marx defendia que o comunismo criaria um “homem novo”, solidário, fraterno, abolindo o homem egoista e agressivo que a concorrência alimenta nas sociedades capitalistas. Estas vivem e alimentam-se da “exploração do homem pelo homem”.

A possibilidade de chegar ao “homem novo” não seria uma questão de boa-vontade, de criar convicções morais, mas sim de criar condições materiais de desenvolvimento e satisfação das necessidades de todos – a democracia económica. Extinto o antagonismo de classes e desenvolvida que fosse a economia de modo a satisfazer todas as necessidades humanas, seriam abolidas as desigualdades sociais e os sentimentos de conflitualidade que é gerada pela escassez de satisfação dos cidadãos.

O conceito parecia tão lógico e tão justo quanto necessário. E daí que muitos milhões acreditássemos e defendêssemos a sua realização. Tão necessário, tão desejado, que nem discutiamos se o homem é mesmo tão naturalmente fraterno quanto a tese supunha. Esse conceito serve ainda hoje de suporte moral, de legitimação interna para os regimes que se reclamam de orientação socialista.

Mas será que o Homem é o anjo do Homem?
Claro que as pilhagens e as agressões violentas estão a par das acções de solidariedade no Haiti, mas isso pode ser levado à conta do tal malefício das diferenças entre os possidentes e os famintos, e da escassez de bens para satisfazer as necessidades humanas – o que se enquadra ainda na tese marxista. O que pode ser duvidoso é que os haitianos, quando fôr reposta a normalidade relativa das suas vidas, sejam mais solidários e generosos do que eram antes, isto é, que os ladrões e os oportunistas não continuem a sê-lo.

Saindo do Haiti aqui citado apenas como metáfora da condição humana, o que aprendemos com a História é que as necessidades dos homens são infinitas, logo insaciáveis – não há sociedade de abundância que satisfaça o nosso apetite. E as sociedades socialistas que conhecemos não foram nem são sociedades de abundância...

Restam-nos duas perguntas:
será que ainda é possível mudar drasticamente a sociedade de modo a chegar à democracia económica?;
e será que ela pode ser atingida sem sacrifício das liberdades legítimas das populações?


A necessidade dita que devemos tentar. O egoismo dos privilegiados dita o contrário. Manifestamente o conflito existe. E os agentes da mudança, aqui como na América, por alguma razão ou por várias não se fazem acreditar quanto baste – vivemos na corda-bamba dos cinquenta por cento...

Helen Keller(2), 60 anos depois de Marx, terá sentenciado que “A segurança é uma grande superstição. Não existe na natureza”. Que isso não desanime os haitianos e a Humanidade em geral, que não era essa a intenção da grande filantropa.

(1) Tomás Hobbes nasceu em Westport, em 1588. Ele pretende justificar o poder absoluto do soberano com o argumento de uma origem natural decorrente da maldade da natureza humana.
(2) Helen Keller nasceu em Junho de 1880 no Alabama.

2010/01/17

Mistérios da fé

Representação de O Inferno

DAS NOTÍCIAS:
«Na ruas de Porto Principe, ao lado de ruínas e cadáveres, os haitianos rezaram e louvaram a Deus».

E eu pergunto, com o maior respeito pelo desespero dos que rezam mas sem a pressão insuportável do seu sofrimento: louvaram a Deus, porquê?

2010/01/16

A imagem mente sempre

se não fôr manipulada

Quando o primeiro-ministro britânico, Gordon Brown, há poucos dias, acusou o líder da oposição conservadora, de usar uma fotografia retocada, num cartaz eleitoral, levantou um falso problema a que o seu rival respondeu da pior maneira ao dizer que “o que está à vista é aquilo com que podem contar”.

Mulher ao Espelho, de Pablo Picasso

Antes de mais, é preciso ter em conta que toda a imagem registada em fotografia ou desenho, em pintura ou qualquer outra forma, não apresenta o objecto; representa-o, como já abordei atrás. E na representação visual dum objecto interferem sempre factores alheios ao próprio. Não é possível obter em suporte electrónico (p.e., neste computador) a mesma imagem que se obtém em suporte papel.

O suporte electrónico – vídeo ou televisão incluídos – emite pixels que são pontos luminosos dispostos em sequência e que se substituem continuamente a grande velocidade;

enquanto que o suporte papel reflecte pigmentos de tinta sobrepostos e misturados que estão fixados no papel por absorção.

As características do papel e da tinta, para já não falar da qualidade da luz que se reflecte no suporte (fotografia, p.e.) e chega aos nossos olhos, definem muito do que é a imagem que vemos. E que não se compara às características do ecrã de televisão ou de computador onde não há tinta nem imagem contínua – na verdade nós não vemos o que lá está mas sim o que o nosso cérebro interpreta, claro. Assim como no cinema não percepcionamos a descontinuidade das fotografias (fotogramas) e o movimento da película, no vídeo não percepcionamos a descontinuidade de pontos e a sua contínua substituição.

Ao contrário do que diz David Cameron, portanto, o que está à vista não é “aquilo com que podem contar” – é uma representação visual condicionada pelos meios de suporte. E também não tem razão Gordon Brown por supôr que as suas fotografias exprimem fielmente a imagem com que pode contar o público que o encontrar na rua, isto é, a imagem com que se apresenta.

Outra questão é que a cara de Brown sempre se parecerá mais com a senhora Ashton do que Toni Blair, em qualquer suporte, mas isso tem a ver com outra questão.

Gordon Brown e Catherine Ashton

Para que uma imagem electrónica de Brown se pareça com o próprio, por exemplo, é preciso que a tecnologia interprete numa grelha de pontos as suas características visuais, as converta em características electrónicas, e instrua o equipamento para fazer corresponder determinados sinais electricos a determinados sinais visuais. Isto é, a imagem que recebemos é o produto de um processo técnico que tenta aproximar a imagem que vemos, da imagem original. Que tenta!

Como os meios técnicos nunca são rigorosamente fiéis ao objecto inicial, o que há a fazer é exactamente retocar a imagem final. Ou pensará o senhor Brown que o efeito “olhos vermelhos” que muitas vezes vemos nas fotografias, não deve ser corrigido, por amor à autenticidade? É que, ao contrário do que pensavam alguns “vermelhos” bem intencionados, quando iam à Televisão em 1974/75, o trabalho de maquilhagem não se destina a alindar a pessoa, destina-se a corrigir os efeitos de distorção que as câmaras produzem e de que os brilhos são os mais notórios.

Mas é claro que no caso da maquilhagem em televisão ou do photoshop nos cartazes, sempre se pode dar um jeitinho...

2010/01/15

Baixo relêvo

Para quem não tenha entendido o meu post de ontem, aqui fica a explicação extraída do site oficial da Presidência da República, ... de hoje, 15JAN2010.

«O Presidente da República irá condecorar na próxima terça-feira, dia 19 de Janeiro, pelas 15:30 horas, em cerimónia a realizar no Palácio de Belém, as seguintes personalidades, que exerceram funções públicas de alto relevo:
Dr. Pedro Miguel de Santana Lopes, antigo Primeiro-Ministro, com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo; (...)

Parabéns, José Sócrates!
Com adversários destes até eu faria boa figura.