2014/12/31

Viver também cansa

2014 foi o ano em que me desapareceram os colegas Semião Ramos, Helena Santos e Olga Almeida. Um ano trágico, considerando a grande estima que tinha por cada um deles. Um desaparecimento absurdo que mostra como a vida é absurda. A não ser que haja Além onde nos possamos reencontrar um dia. 

A minha razão diz que esse Além é tão absurdo como a morte, mas eu que não acredito em “Deus”, quero acreditar no meu poeta de estimação que dizia “os pássaros, quando morrem, caem no céu». É que os meus amigos que desapareceram, tinham asas – sentimentos generosos, fantasias fascinantes, sonhos de outro mundo.

Ao vê-los partir, compreendo como nunca, outra coisa que dizia o José Gomes Ferreira – que «Viver sempre, também cansa».

Costumo dizer que não acredito no “outro mundo”, mas não quero que o ano acabe sem confessar que também não acredito neste!

2014/12/28

TAP não anda nem desanda



Agora a sério...

Três sindicatos “que em conjunto representam mais de 50% dos trabalhadores da TAP, mantêm a greve, acatando, no entanto, a requisição civil decretada”.

O que eu não entendo é que interesse tiveram e que sentido faz a suspensão da greve por parte dos outros sindicatos, uma vez que o Governo decretou autoritariamente a requisição civil.

2014/12/24

O Papa e este outro mundo

O Mundo está mudado, o mundo social. Não falo das diferenças circunstanciais como haver mais ou menos pobres, mais ou menos analfabetos, mais ou menos acesso aos cuidados de saúde; falo do controlo dos poderes, da transparência dos capitais, da independência da Justiça, da participação dos cidadãos nas decisões dos estados.

A denúncia e o combate que o Papa Francisco faz em relação aos comportamentos reprováveis que observa nos doutores do Vaticano, além de real é simbólico destas mudanças porque ocorre na mais conservadora instituição do mundo ocidental.

O discurso e a atitude do Papa, dirigido aos bispos nas vésperas do Natal de 2014,fez lembrar Jesus a expulsar, do Templo de Jerusalém, os cambistas e comerciantes que usavam a “casa do Pai”  para fazer os seus negócios, chamando-lhes “salteadores”…

Quando o Papa exaltou os homens e mulheres “invisíveis”, os trabalhadores anónimos, e fez notar que o cemitério está cheio de figuras prestigiadas que se consideravam insubstituíveis, é toda a mensagem social dos evangelhos que emerge do bafiento discurso tradicional e contemporizador em que a Igreja se tem acobardado e beneficiado materialmente.

Se o “conclave” que elegeu o argentino Bergoglio, em Março de 2013, esperava dele o mesmo papel que desempenhou João Paulo II, levando desta vez a uma reversão do curso progressista da América Latina, enganaram-se. O que acabámos de ver há escassos dias, foi uma aproximação entre os EEUU e Cuba com intermediação do Papa Francisco. A favor do regime político cubano? Não. A favor da paz mundial e do bem-estar das populações “invisíveis” que são as vítimas das guerras quentes e frias.

2014/12/23

A ideologia dos materiais

ou: O embargo embargado


Comecemos pelo óbvio! Quando se mudou o nome à ponte sobre o Tejo, a ponte não mudou. Em tudo permaneceu igual, desde a localização à função, à estrutura e à constituição material.

Também o petróleo bruto russo não se tornou mais nem menos bruto quando implodiu a União Soviética. Quando a ideologia política de Cuba mudou a partir de 1959, o açúcar de cana não passou a ser mais doce nem os frangos passaram a nadar como lagostas…


O processo reformador em curso (PREC?) na República de Cuba, a “reforma do estado” ou, na linguagem local, os novos “lineamientos”, de resto iniciados no congresso do PCC de Abril de 2012, pretende introduzir reformas económicas, sociais e políticas destinadas ao desenvolvimento económico do país.

Estas mudanças, especificamente, incluem uma série de medidas que aproximam mais a sociedade do modelo económico vigente nos países capitalistas. Nomeadamente, trata-se da captação de maior investimento estrangeiro, especialmente na área do turismo mas também em tecnologia. E no domínio laboral, “aumentar a produtividade do trabalho, elevar a disciplina e o nível de motivação do salário e estímulos, eliminando o igualitarismo nos mecanismos de distribuição e redistribuição do rendimento.”

No Sábado, 20 de Dezembro, ocorreu em Havana um debate parlamentar sobre a concretização destas políticas, no qual se manifestaram, entre outras, as preocupações do sector privado e do sector sindical.

É evidente que tudo isto será enormemente facilitado com a “normalização de relações” entre Cuba e os Estados Unidos da América. Mas o que parece uma vantagem para o regime, por esta via, comporta um cruzamento de negócios, de culturas e de conceitos sociais que desmistificam o que tem há de excessivo na interpretação marxista-leninista dos dirigentes cubanos - ou o que houve!

O desenvolvimento económico joga a favor de um país, independentemente do regime em vigor. Mas também os EUA aproveitariam muito, ou aproveitarão, dos investimentos e trocas comerciais com Cuba.

A ponte que agora começa a ser construída entre estas duas margens da História americana, chamem-lhe o que chamarem, interessa a todos!

2014/12/21

Porque hoje é domingo (64)

Tão difícil como plantar-se o fantasma de Maria no cimo duma azinheira, e tão difícil como ter Jesus nascido de uma virgem, é que um anjo tenha ido (de onde?) até Belém para ter uma conversa séria com a Senhora… de Fátima. Mas foi. Mas falou. Mas era mesmo um anjo. Dizem.

Não é difícil imaginar a cena. Estando Maria a pensar na tristeza de vida que levava, é surpreendida por um ser incorpóreo, espiritual, destituído de boca, portanto, que lhe fala e diz «Olá, eu chamo-me Gabriel e sou um anjo». E antes que a senhora caísse de susto, atalhou Gabriel com um largo sorriso na sua boca de anjo: «Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo». Desta fala nos dá conta Lucas, evangelista, no versículo 28 do primeiro capítulo.

«Ai Jesus!», diria ela se o nomeado já fosse nascido ou sequer anunciado. Mas, em vez disso, deu-lhe a perturbação para se pôr a pensar, diz o mesmo evangelista, no que significaria aquela saudação.

Antes que a senhora começasse a dar asas à imaginação, o anjo pôs as cartas na mesa dizendo (versículos 30 e 31): «Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho a quem chamarás pelo nome de Jesus».

Não me perguntem o que teria ela a temer por Gabriel lhe dizer que o Senhor estava com ela. De temer, de entrar em pânico, isso sim, eram as palavras que o anjo pronunciou a seguir… para a acalmar: «conceberás e darás à luz um filho»! Não porque a senhora não quisesse ter um filho, não se sabe, mas porque nunca tinha feito nada nem deixado fazer que o justificasse.

Acredito que a senhora tenha ponderado se em algum momento, inadvertidamente, teve contacto com fluido fecundador de homem, o que a levou a defender-se: «Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?»

O anjo vinha preparado para essa pergunta, e logo respondeu, apaziguador: «Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há-de nascer, será chamado Filho de Deus». E, mais adiante, acrescentou a voz: « … para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas». Ao que Maria terá respondido (vers. 38): «Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra». O anjo deu-se por satisfeito e «se ausentou dela» que é como quem diz “voltou pelo caminho que o trouxe”.

Como se fosse preciso dar algum sentido a esta história inverosímil, houve necessidade de contar como foi que José reagiu. Disso se encarregou o evangelista Mateus (I,18-19, Bíblia de Jerusalém) que inventou mais um anjo para acalmar o noivo de Maria e compensando-o com o título de santo e, mais tarde, de padroeiro da classe operária.

2014/12/19

"Cherchez la femme" Clinton

O fogo de artifício que justamente brilha no continente americano, com a eliminação do bloqueio imposto pelos Estados Unidos a Cuba,  deixa na sombra uma figura que pode ter sido mais influente na decisão de Obama do que o próprio Papa Francisco. Essa figura é Hillary Clinton.

O facto é que a ex-Secretária de Estado norte-americana publicou, em Junho deste ano, um livro auto-biográfico onde  conta, a dada altura, ter aconselhado o presidente Barack Obama a pôr fim ao bloqueio a Cuba!

Além de aspectos mais pessoais, o livro aborda vários temas de política internacional em relação aos quais nem sempre ela esteve de acordo com o Presidente. Recorde-se que Obama a nomeou para o cargo depois de a ter derrotado no seio do Partido Democrata, no contexto das eleições presidenciais.

Esta última circunstância ainda coloca aos observadores a questão da eventual candidatura de Hillary à Presidência em 2016, o que, dada a posição conhecida sobre as relações com Cuba, seria um desfecho tranquilizador para os irmãos Castro se ainda forem vivos. 

Muitos "ses", é certo, mas também uma confirmação: a frase de Alexandre Dumas (pai) «Há sempre uma mulher envolvida em todos os casos. Assim que me trazem um relatório, digo logo: 'Procurem a mulher'».