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2016/10/23

Porque hoje é domingo (78)

O cristianismo atribui um nome àqueles que fingem prosseguir o bem quando na realidade só fazem bem a si próprios (e aos seus), e tentam denegrir os outros para se valorizarem: é “fariseísmo”. O tema faz as homilias deste domingo, invocando o evangelho de Lucas (18,9-14).

A expressão “fariseísmo” resulta de uma parábola alegadamente contada por Jesus aos seus camaradas, para ilustrar a diferença entre os arrogantes e os humildes. Podia o Mestre ter usado como exemplos a doutora Lagarde e o engenheiro Guterres, mas não era seu costume meter-se com os césares – “a César o que é de César”. De resto, quando Guterres proclama a sua própria humildade, há que saber se está no papel do publicano ou do próprio fariseu…

E se este argumento hermeneutico se coloca em relação a Guterres, não menos se coloca em relação à Igreja de que ele é um distinto militante. Mas talvez seja mais prudente ficar-me por aqui, à imagem de Jesus, além de que é arrogância minha duvidar dos méritos morais dos dois papas a que o mundo está entregue – o religioso e o civil.

2014/12/21

Porque hoje é domingo (64)

Tão difícil como plantar-se o fantasma de Maria no cimo duma azinheira, e tão difícil como ter Jesus nascido de uma virgem, é que um anjo tenha ido (de onde?) até Belém para ter uma conversa séria com a Senhora… de Fátima. Mas foi. Mas falou. Mas era mesmo um anjo. Dizem.

Não é difícil imaginar a cena. Estando Maria a pensar na tristeza de vida que levava, é surpreendida por um ser incorpóreo, espiritual, destituído de boca, portanto, que lhe fala e diz «Olá, eu chamo-me Gabriel e sou um anjo». E antes que a senhora caísse de susto, atalhou Gabriel com um largo sorriso na sua boca de anjo: «Alegra-te, muito favorecida! O Senhor é contigo». Desta fala nos dá conta Lucas, evangelista, no versículo 28 do primeiro capítulo.

«Ai Jesus!», diria ela se o nomeado já fosse nascido ou sequer anunciado. Mas, em vez disso, deu-lhe a perturbação para se pôr a pensar, diz o mesmo evangelista, no que significaria aquela saudação.

Antes que a senhora começasse a dar asas à imaginação, o anjo pôs as cartas na mesa dizendo (versículos 30 e 31): «Maria, não temas; porque achaste graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho a quem chamarás pelo nome de Jesus».

Não me perguntem o que teria ela a temer por Gabriel lhe dizer que o Senhor estava com ela. De temer, de entrar em pânico, isso sim, eram as palavras que o anjo pronunciou a seguir… para a acalmar: «conceberás e darás à luz um filho»! Não porque a senhora não quisesse ter um filho, não se sabe, mas porque nunca tinha feito nada nem deixado fazer que o justificasse.

Acredito que a senhora tenha ponderado se em algum momento, inadvertidamente, teve contacto com fluido fecundador de homem, o que a levou a defender-se: «Como será isto, pois não tenho relação com homem algum?»

O anjo vinha preparado para essa pergunta, e logo respondeu, apaziguador: «Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há-de nascer, será chamado Filho de Deus». E, mais adiante, acrescentou a voz: « … para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas». Ao que Maria terá respondido (vers. 38): «Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra». O anjo deu-se por satisfeito e «se ausentou dela» que é como quem diz “voltou pelo caminho que o trouxe”.

Como se fosse preciso dar algum sentido a esta história inverosímil, houve necessidade de contar como foi que José reagiu. Disso se encarregou o evangelista Mateus (I,18-19, Bíblia de Jerusalém) que inventou mais um anjo para acalmar o noivo de Maria e compensando-o com o título de santo e, mais tarde, de padroeiro da classe operária.

2014/09/22

Marxistas e cristãos

Continuação do assunto tratado em
“Porque Hoje é Domingo (55)”


Aquilo que o proprietário distribui pelos trabalhadores não é a sua riqueza – a sua terra. Esta permanecerá integralmente nas suas mãos. O que ele distribui é a riqueza que os trabalhadores produzem, fazendo uso dos meios do proprietário. São os trabalhadores, eles sim, colectivamente, que acrescentam riqueza! São eles os reais produtores

Portanto, o que o proprietário distribui em forma de “retribuição”, é aquilo que não lhe pertence e, ainda assim, só uma parte disso, visto que se apropria de outra parte para si.

Nesta distribuição da riqueza produzida pelo trabalho, entre os trabalhadores, o proprietário (dos meios de produção) e o Estado (através de impostos que supostamente voltam para a comunidade em forma de serviços e bens públicos), o que distingue o sistema socialista é que o propietário-capitalista não faz parte do sistema, logo a riqueza produzida reverte toda ela para os trabalhadores, de forma directa ou indirecta.

O socialismo assim entendido como o entendem os marxistas, não pode ignorar que há proprietários e há trabalhadores que escapam a esta lógica. Isto é: há proprietários que têm um papel positivo também na economia socialista, e há trabalhadores que não trabalham ou não o fazem em proporção com os seus rendimentos.

A primeira questão tem sido respondida caso a caso, país a país e de forma diferente em épocas diferentes. Por exemplo: actualmente, em Cuba, promove-se o trabalho por conta própria, "los cuentrapropistas" em alguns sectores de actividade que antes estavam interditos.

Talvez se possa dizer que o socialismo moderno tende a consentir na propriedade privada dos meios de produção conforme a dimensão destes e a sua importância estratégica para a economia nacional. Água, electricidade, comunicações e banca, muito dificilmente se enquadram no grupo de actividades privadas no sistema socialista.


A segunda questão, a retribuição dos trabalhadores, é a que se prende com a parábola de Jesus que invoquei no artigo anterior “Porque Hoje é Domingo (55)”! É a questão de saber os critérios de distribuição da riqueza produzida.

O critério subjectivo do proprietário, apresentado na parábola e aprovado por Jesus, é completamente injusto e incoerente, porque beneficia os que trabalham menos, com o esforço dos que trabalham mais – é uma forma de exploração de uns trabalhadores por outros trabalhadores.

O critério subjectivo de classe, segundo o qual há sub-classes privilegidas que auferem rendimentos desproporcionados em relação a outras – administrativos em relação a operários, p. e. – é também considerado injusto e é contrariado no critério marxista. Voltando a Cuba como exemplo, um professor ou um médico ganha ao nível de um empregado sem qualificações académicas relevantes. Escusado será dizer que este “critério subjectivo de classe” que vigora nos países capitalistas, se encontra frequentemente na prática de países socialistas de forma perversa.

Curiosamente, o marxismo apresenta um critério de distribuição da riqueza produzida, que não é, também ele, objectivo. Isto é: não se trata de atribuir a cada um segundo o seu trabalho. A máxima é: "de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades" . E isto conciliaria Karl Marx com Jesus e o proprietário na parábola, se este, na sua distribuição desproporcionada do dinheiro, a fizesse em razão das necessidades de cada um. Mas nada indica que fosse o caso.

Este critério marxista, em todo o caso, não é praticado na fase de retribuição directa do trabalho (no salário) mas sim no âmbito das responsabilidades sociais do Estado (nos preços dos serviços). E a social-democracia burguesa, ela própria, tem sido obrigada a aplicá-lo em certa medida, por força das exigências populares. É o caso dos apoios do Estado aos cidadãos mais carenciados, em matéria de saúde, ensino, transportes, etc.

A Venezuela, um país capitalista com um governo socialista de inspiração marxista, desenvolve desde 2003 campanhas de apoio material e efectivo às camadas mais desfavorecidas da população, através das chamadas “misiones”: misión vivienda, misión barrio adentro, misión mercal, etc., etc.


E enquanto a acção política prossegue a sua missão de promover a exploração ou a justiça social, a religião apela… às orações. É a apologia do imobilismo, da rendição ao poder constituído, justificado com aquela sentença de Jesus “politicamente correcta”: a César o que é de César…

Como se a Igreja não soubesse que Jesus estava “entalado” quando teve que dar aquela resposta. Como se a riqueza de César não fosse resultado da exploração desenfreada e dos saques perpetrados nas sanguinárias guerras imperiais.

2014/04/20

Porque hoje é domingo (48)

... de Páscoa.


Quando Jesus nasceu, nasceu com ele uma nova esperança na luta do povo judeu contra a dominação romana. A visita dos três “reis magos” fazia parte desse plano independentista. Mas a divinização de Jesus, fosse de quem fosse a ideia – do próprio, por razões espirituais, ou dos reis por razões estratégicas – deu no que deu: uma seita religiosa sem ambições políticas. O Messias trocou a salvação das nações oprimidas pela salvação das almas e recusou a luta de libertação nacional: “a César o que é de César; a Deus o que é de Deus” – diria.

Quem assumiu o confronto com o império foi, entre outros, Barrabás. Se Marcos ou João, santos evangelistas que relataram os factos, fossem abertos ao contraditório argumentativo, é provável que tivessem registado deste militante judaico esta resposta: “ao Povo o que é do Povo!”. Mas não conveio à cristandade que a luta heroica dos rebeldes ofuscasse o protagonismo do Salvador na narrativa sempre parcial da História pelo que apenas podemos vislumbrar a preferência popular pela estratégia da luta armada, quando o juiz Pilatos perguntou ao Povo quem queriam que fosse libertado, e este escolheu o Barrabás e não Jesus.

Foi assim, ao que consta, que Jesus foi morto na passada sexta-feira. A notícia boa é que no mesmo dia Barrabás foi libertado. Mas se considerarmos que Cristo teria ressuscitado uns três dias depois, sendo Maria Madalena a primeira a sabê-lo, é caso para pensar que foi tudo planeado.

O que interessa, parafraseando os revolucionários venezuelanos, é que: Cristo vive; la luta sigue!