25.7.08

Guerra e mal-entendidos

Há sempre mais histórias do que História. Por isso ninguém tem que admirar-se por haver ainda quem venha acrescentar ao que se publicou sobre a guerra colonial.
É o meu caso.

Destacamento de Cabaca (Angola)

Há mais de trinta anos que deixei de comer as rações de combate e o pó das picadas, e de beber a água infecta dos rios, as bebidas brancas que me levaram a uma doença crónica, as bebidas negras, isto é, feitas pelas mulheres negras das aldeias. Há mais de trinta anos que visto calças e camisas de cores diferentes, que escolho o que visto e o que calço. E o que digo.

Digo-vos isto porque há mais de trinta anos, e só agora me deu para contar.

Por onde começar? Bem, ele há um episódio de que não vou falar. Não sei mesmo se posso. Mas logo se verá, à medida que outros vão puxando a vontade de falar.

Você era da PIDE, não era? – pergunta-me um ex-soldado, trinta anos depois, num daqueles almoços de confraternização e exorcismo que as companhias organizam ainda, a fim de reunir os ex-camaradas da guerra.

Se eu era da PIDE? – repito, estupefacto.

Era, não era? – insiste, encorajado pelo álcool e pela necessidade de se libertar de uma dúvida obsessiva. Mas não me parecia que tivesse dúvidas; apenas a necessidade de ouvir da minha boca a confissão que sempre quisera arrancar-me.

Porque dizes isso? – Limitei-me a perguntar, acentuando assim a opinião que ele havia formado enquanto convivemos durante dois anos, fosse no mato agreste e ameaçador, plantio de minas, esconderijo de atiradores, fosse nas casernas de madeira semi-apodrecida. No nosso caso, apesar do isolamento, tinhamos por adquirido que ali não éramos atacados, o que fazia daquele espaço desolado..., a nossa casa. Ás vezes até correio chegava, vindo dos pais, da namorada, da madrinha-de-guerra, para quem tinha. E não raro me calhou ser quem distribuia essa correspondência, emprestando as minhas mãos às mãos de Deus que era, em última análise, quem podia mandar coisas tão sagradas.

É que você ficava sempre com um jornal da JOC, que eu recebia, e só me entregava mais tarde.

Cabe aqui explicar que o jornal Juventude Operária que possivelmente ainda existirá, pertencia a uma organização católica de jovens leigos (JOC) e passava alguma crítica indirecta ao regime, a coberto do caracter religioso da publicação. E é verdade que eu lia o jornal e só mais tarde o entregava ao destinatário.

Como se esta minha atitude “censória” não fosse suficiente para revelar a minha ligação à polícia política de Salazar, acresce um episódio passado no mato que o ex-soldado me recordou.

Uma vez eu estava a ouvir música no rádiotransistor – contou ele – e deu o Zeca Afonso a cantar “Os Vampiros”. E então você, muito intrigado, disse: - Acho que essa música não vai voltar a passar. E o certo é que não passou mesmo.

Nesta altura, e antes de perder todos os amigos que tenho, e o respeito de toda a gente que me conhece como antifascista, activista e militante da esquerda mais combativa, devo esclarecer como na altura esclareci o meu interlocutor, que os factos estavam todos rigorosamente descritos, mas a explicação era rigorosamente a oposta. Isto é: eu retinha o jornal porque, tendo sido eu próprio membro da JOC e colaborador do jornal, era inevitável o meu interesse em lê-lo. Mas para bebê-lo e não para vomitá-lo. E quanto à minha sentença sobre Os Vampiros, já se vê que era uma previsão fácil de quem sabia o sentido do poema e a acção repressiva e censória do regime em que viviamos.

Coluna onde seguia o correio para o Cuango

Dispenso-me de extrair desta história a lição que ela encerra sobre mal-entendidos e juizos precipitados. Uma lição que os nossos medos e os nossos preconceitos nunca permitirão que seja suficientemente aprendida.

Mas voltarei ao tema de guerra e mal-entendidos mesmo que acabe por não contar aquele que não devo.

2008-07-24
As fotos aqui publicadas são de Ivo Morgado e de Henrique J C Oliveira cuja Companhia nos substituiu. Recortei-as em:

http://www.prof2000.pt/users/secjeste/Arkidigi/AZaza001.htm

1 comentário:

Anónimo disse...

Ena cum catano, um indvíduo ser tido en tal conta sem saber. Querem lá ver... eu também lia, em Moçambique um jornal da JOC, que o capelão me emprestava, para ler o Mário Castrim numa crónica que lá vinha, não me digam que...

Era o que faltava!