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2015/07/25

O medo de Cavaco

Assustado com a perspectiva de as esquerdas acolherem os votos de protesto nas próximas eleições, Cavaco Silva, logo secundado por Passos Coelho, apelam ao chamado "voto útil", isto é, à concentração dos votos nos maiores partidos que podem - que poderiam! - alcançar uma maioria absoluta.

É preciso suster a subida das esquerdas - pareceu-me ouvi-lo dizer no recente discurso.

O que aconteceu nas eleições da Grécia e o que está a acontecer na Espanha do Podemos, na Itália de Beppe Grillo e, apesar de tudo, o susto que foi o Ukip na Grã-Bretanha até ao dia das eleições de 2015, faz tremer a Europa dos liberais. E Cavaco puxa os cordelinhos para que isso não aconteça em Portugal. O problema dele é o vento, são os ventos...

2015/03/18

Os empates eleitorais

Os resultados das eleições desta terça-feira, 17 de Março, em Israel, que apontam para 29 deputados do Likud contra 24 da União Sionista, vêm confirmar um fenómeno bastante generalizado nos processos eleitorais, nos países de democracia formal: a tendência para o empate.

Aparentemente, esta tendência para o empate revela que os países tendem a formar duas correntes dominantes de opinião que se equivalem numericamente, o que parece não ter explicação lógica até porque é suposto haver uma maioria desfavorecida em relação de oposição a uma minoria privilegiada.

Mas será que esse problema directamente económico é o que domina as preocupações dos cidadãos? Mais parece que os eleitores colocam acima de tudo os valores da segurança e da estabilidade, o que os torna conservadores. E isso explica o “centrão”, isto é, o domínio do grande espaço político por parte de dois partidos mais ou menos conservadores.

Dois partidos e não um, porquê? Porque os eleitores sentem necessidade de alternância enquanto ilusão de alternativa, que dê justificação ao acto de votar e que dê esperança de melhoria da sua situação, sem riscos. É a lógica do investidor prudente.

Porém, quando a prudência nos deixa para trás na corrida geral, ela deixa de ser vista como um um valor e passa a ser percebida como um estorvo - a "zona de conforto" foi atacada e o homem-prudente evolui para o homem-justo. Estamos no limiar da revolta que sacode o medo e estimula o apoio a partidos mais exigentes, mais consequentes nas suas propostas de mudança. Percebemos finalmente que o nosso descontentamento só está representado nas margens do espectro político.

O sucesso eleitoral do SYRISA, na Grécia, é um caso paradigmático dos efeitos relevantes desta mudança de atitude dos eleitores. Neste caso, as águas que corriam nas margens, foram canalizadas para o centro de decisão. Uma pedrada no charco. Um processo em curso.

Este texto foi revisto em termos formais em 21/Mar.

2015/03/05

Filosofia política à portuguesa

Até António Costa dizer que o país estava diferente (no sentido de que estaria melhor), ninguém queria saber do que ele foi dizendo ao longo de meses, fosse nas entrevistas dispersas, fosse no programa de televisão Quadratura do Círculo, fosse, sobretudo, na Moção Política sobre as Grandes Opções de Governo apresentada por ele em Julho de 2014, na oportunidade das primárias do PS. Mas assim que cometeu um erro retórico, há dias, cumpriu-se a Lei de Vile para Educadores: “Ninguém está a ouvir o que dizemos até cometermos um erro”.

A mancha de que agora é acusado irá agarrar-se ao líder do PS até às eleições? Sim! E isso tem algum efeito nas opções de voto? Não! Porquê? Porque será um incidente diluído em muitos outros de que a dívida de Passos Coelho à Segurança Social é apenas um exemplo.

Aplica-se agora a lei de Imbesi, da Conservação da Sujidade: “Para que uma coisa fique limpa, outra coisa qualquer terá de ficar suja”. Para limpar a imagem do PSD – por exemplo – alguém vai ter que continuar a fazer serviço sujo, seja Marco António Costa ou Carlos Abreu Amorim ou!

Para todos os efeitos, nada disto é relevante para o julgamento dos portugueses que conhecem as personagens por detrás destas representações, para os portugueses cujos problemas são outros e cujos candidatos também podem ser… 

Lá porque o futuro nunca deu provas, não temos que ficar agarrados ao passado.

2015/02/02

António Costa no divã


Catherine Millot foi a última amante oficial de Jackes Lacan, prestigiado estudioso da psicanálise e promotor do regresso ao verdadeiro pensamento de Freud.

Catherine estava com Lacan no momento em que este morreu. Depois disso surgiu todo um mito que ela alimentou, obviamente, de que Lacan, exactamente antes de morrer, lhe teria revelado uma fórmula secreta, o máximo da sabedoria. Todos ficaram na expectativa de que ela dissesse que fórmula era essa. Até hoje!

Isto faz-me lembrar – ou será o contrário? – a pressão que o líder do PS está a receber de dentro e de fora do partido, para revelar o seu programa político com vista a um próximo e eventual governo do Partido Socialista.

Esta pressão não é recente. Lembro as interrogações de Alfredo Barroso em Julho passado: "que novas 'teorias' António Costa irá inventar, para se furtar ao debate da questão do Tratado Orçamental, da questão da renegociação e/ou reestruturação da dívida, da questão das privatizações e da questão da promiscuidade entre o PS e os negócios?"

Estamos (ainda) ao nível das conferências ou seminários lacanianos, das abordagens parciais, não das grandes revelação ansiadas pelos cidadãos e, menos ainda, do compromisso? Talvez António Costa esteja a protelar estrategicamente a grande revelação, até para evitar histerias jornalísticas, mas há quem receie que a morte política o surpreenda entretanto.

O certo é que o candidato a primeiro-ministro nem mesmo no divã se entrega completamente.


2014/09/03

O que preocupa o PS

(Carregar sobre a imagem para ampliá-la)

Correndo o risco de baralhar um pouco mais os "espíritos simples", faço questão de esclarecer que prefiro o capitalismo de António Costa, ao socialismo de Jerónimo de Sousa - se é que isso interessa a alguém. 

Mas que não sei se teria a mesma opinião no caso de estar privado de rendimentos, de ganhar ao nível do ordenado mínimo, de não ter condições para sustentar e educar os filhos...

2013/09/29

Partidos e representação (II)

Sabemos que entre nós, na prática, são os partidos e não os eleitores que escolhem os deputados, uma vez que estabelecem os nomes e a ordem de distribuição nas listas com base no conhecimeto dos “lugares elegíveis”. O eleitor não só está impedido de propor candidatos da sua própria escolha, como está inibido de escolher ou rejeitar individualmente os nomes que lhe são apresentados numa lista.

Nestas condições, os deputados não são escolhidos pelos cidadãos mas sim pelos partidos, isto é, pelas direcções dos partidos, elas próprias constituidas por processos internos de designação que padecem de vícios idênticos – uma elite dirigente assegura candidaturas que a reproduzam.

Assim, o deputado não representa a vontade dos eleitores mas sim a vontade da direcção partidária a que obedece obrigatoriamente, mesmo que isso vá contra a sua consciência – a defesa do partido, isto é, da sua direcção, sobrepõe-se à defesa do cidadão que “o” elege.

Nos casos de partidos ligados ao poder económico-financeiro, em que os seus membros circulam entre a política e os grandes negócios, a defesa do partido que fazem os deputados, corresponde à defesa daqueles negócios em detrimento ou mesmo contra os interesses dos eleitores.

POLÍTICAS EM PACOTE

Tal como acontece com o mecanismo viciado das listas partidárias que impede os cidadãos de escolher individualmente os deputados, também acontece que os eleitores estão impedidos de escolher as leis que se votam ou rejeitam no parlamento – elas fazem parte do pacote partidário, não é possível apoiar um partido e defender uma iniciativa de um partido diferente.

REFERENDO

A figura jurídica do referendo, podendo resultar de “iniciativa popular” de 75 mil cidadãos, é uma tentativa aparente de resolver este conflito entre a vontade do eleitor e a vontade dos partidos do Governo em matérias específicas – é, ao mesmo tempo, o reconhecimento de que este conflito existe. Mas o referendo depende da decisão do Presidente da República e abrange um âmbito restrito de matérias (Lei 15-A/98). Mais:“a iniciativa é obrigatoriamente apreciada e votada em Plenário” que pode aprová-la ou rejeitá-la.

A complexidade formal e legal, bem como as necessidades de organização e de publicidade, porém, são de tal modo exigentes e dispendiosas que dificilmente ocorre um referendo deste tipo sem que acabe entregue à confiança de um partido e, porventura, ao apoio financeiro de alguma empresa ou entidade…
CONCLUSÃO INCONCLUSIVA

Enfim, bem vistas as coisas, a solução democrática seria um sistema assente em partidos… apartidários! Mas enquanto isso não for possível, talvez valha a pena aprofundar a ideia do voto nominal em listas abertas, tal como se pratica em outros países. Fica a ideia aberta.

2013/04/21

Porque hoje é domingo (37)

No evangelho de hoje (João 10, 27-30), Passos Coelho apresenta-se como o Pastor, aquele que cuida de nós, que cura nossas feridas financeiras, que nos ampara quando a austeridade parece impossível de suportar: “Não sejais piegas; vede como os passarinhos vivem felizes sem casa, sem carro, sem televisão, sem escola – voam, cantam e mijam sem nada exigirem do Governo”.

“Eu e o pai somos um” - é uma afirmativa de Jesus no evangelho deste domingo, que é como Vitor Gaspar a falar de Passos Coelho ou este a falar da Merkel ou a Merkel a falar dos especuladores financeiros.

E nós que somos o seu povo e o seu rebanho, deviamos louvar a sua coragem e a sua sabedoria, mas ao invés temos vergonha de dizer que o amamos, que votámos nele, que por ele sacrificaremos os nossos filhos e netos.

Em vez disso pensamos em David quando ainda pastor, que quando via o seu rebanho atacado pelo lobo, se atirava sobre ele e o estraçalhava com a força do seu braço e dos seus dentes. Não percebemos que os deuses escrevem direita por linhas tortas, isto é, combatem o desemprego, desempregando, e recuperam a economia, empobrecendo…

Como somos ingratos. Mereciamos que os nossos nomes fossem escarrapachados na internet em vez das matrículas dos automóveis dos clientes das prostitutas, como fazem as “esposas de Viseu”, para assumirmos de vez a nossa perfídia ou mudarmos finalmente de comportamento.

2012/09/02

Porque hoje é domingo (23)

"Nada há fora do homem que, entrando nele, o possa manchar, mas o que sai do homem, isso é que mancha o homem."

Não fosse alguém pensar o que não deve, Jesus teve necessidade de esclarecer que isto, uma vez mais, é uma metáfora querendo significar que aquilo que nos "mancha" não é o que dizem de nós mas sim o que nós dizemos.
Por exemplo: a gente pode dizer que um ministro é um corrupto, que um conselheiro é um sacana, que um chefe de governo é um aldrabão, que um presidente da república é um hipócrita, que nada disso mancha a reputação de sua excelências; o que eles dizem e fazem é que sim.

Em verdade, em verdade vos digo que isto não sou eu que afirmo, é Jesus Cristo, tal como nos conta o repórter Marcos desde a Nazaré, (Mc 7,1-8.14-15.21-23). Mas é justo também noticiar o que disse Jesus directamente ao Povo: «Bem profetizou Isaías a vosso respeito, hipócritas: - Este povo me honra com os lábios, mas seu coração está longe de mim»


Mais uma vez há que explicar o sentido metafórico destas palavras. Isaías usa a palavra “lábios”, não em qualquer dos seus sentidos próprios mas sim no sentido daquilo que se utiliza para expressar o pensamento ou a vontade, como é o caso do voto, em política. Traduzindo: “Este povo me honra com os votos mas o que ele quer está longe de mim".

2012/05/09

O direito à dignidade

Se não nos deixais viver com dignidade, não vos deixamos governar com estabilidade!

Esta é a voz da Grécia que parece ouvir-se por entre as ruínas do seu edifício social, no rescaldo das eleições de Maio de 2012. Da Grécia, só porque foi o primeiro a chegar ao precipício.

Pesem, embora, todas as vicissitudes de que o país venha a ser acusado por outros, se sair do Euro, objectivamente os "vícios" da população não foram mais do que o processo de sobrevivência nas condições do regime instaurado pelas grandes famílias que ali se revezam no poder. Nada de muito original, de resto.

O resultado eleitoral da Grécia combinado com a eleição, na França, de um presidente crítico da austeridade, perturbou o ambiente dominante na União Europeia. Mas tudo indica que na Grécia, mais ainda do que em França, estão criadas condições para a revisão inevitável das políticas europeias. Apesar da própria União Europeia.

2010/06/03

Estes é que gozam

A comissão coordenadora do movimento Pró-Partido do Norte anunciou no Porto, que quer concorrer já nas próximas legislativas, visando a criação de um grupo parlamentar e a eleição de deputados.

E eu pergunto se a ideia de um Partido do Norte é concorrer com o Partido do Sul ou é só gozar c'a gente. E se os interesses do Norte são os interesses de Luís Reis, administrador da Sonae, e de António Mexia, Presidente do Conselho de Administração da EDP... ou os interesses daqueles a quem eles impõem as condições e os salários e ainda os preços da electricidade e dos outros produtos.

Para já, são conhecidos alguns aspectos do seu programa, pela voz de um outro mentor, presidente da Cotec Portgaul. Na sua opinião, "o IRC (imposto sobre os lucros) devia acabar".

Sendo eu do Norte, ainda não decidi aderir ao tal partido mas desde já declaro a minha disponibilidade para fazer parte da administração de uma das suas empresas. Como diz Sérgio Godinho...


2009/09/13

Voto em consciência


A escolha é entre mim e Ferreira Leite - diz e repete José Sócrates para desvalorizar a votação nos outros partidos. Será que tem razão? Aparentemente, sim; realmente , não.

Havendo certamente diferenças entre o PSD e o PS, quer pela sua base de apoio, quer pela sua história, é difícil distinguir entre os seus projectos de governação para os próximos anos. Exactamente porque eles são filhos destas figuras, mais do que o são dos partidos que os suportam. Nestes partidos a política real é decidida pelos “líderes” que se assumem como tal.

Sendo irrelevantes e de difícil valoração as diferenças entre a liderança de Sócrates e a de Ferreira Leite, é manifesto que aquele tem necessidade do sofisma que repete. Sofisma porque, sendo verdade que um daqueles será eleito, não é verdade que o voto neles seja útil como a afirmação sugere. O que será útil é manifestar contra ambos um voto da consciência e uma indicação do sentido que o eleitor quer que seja dado à política. Votar em Sócrates, é dar-lhe apoio para prosseguir o favorecimento do lucro contra o salário e do privado contra o público, os ataques contra os professores e outros sectores sociais, os negócios opacos e os investimentos ruinosos… Votar em Ferreira Leite é apoiar a mesma estratégia política com outros protagonistas. Votar no PCP ou no BE é exigir uma ruptura corajosa com a oligarquia partidária. Uma oligarquia dependente e servil perante os países mais ricos como se daí viesse a defesa dos nossos interesses e não dos deles.


Não lhes ficava mal aprender, nesta matéria, com os nossos parceiros da América Latina - prosseguir uma estratégia de independência face à invasão política de que somos vítimas pelos países ricos. Independência que não quer dizer isolamento mas soberania nacional. Com “atitude”!

(Quanto ao facto de eu votar em branco, isso contempla outra questão. É que há no dia 27 mais do que a escolha de deputados e, por consequência, de governantes. Há também um juízo sobre o partido em que se vota. O que conta para quem não é demasiado pragmático nem quer ser).