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2022/07/31

Porque hoje é domingo (127)

Neste domingo invoca-se a ressurreição de Lázaro, e eu só me lembro do livro de Pedro Barahona de Lemos, TODOS SOMOS LÁZARO, onde os milagres mas também as novidades trazidas por Jesus são desmistificadas com base na História. No caso deste “milagre”, nem sequer o facto de ser relatado por um único evangelista (João) leva os crentes a duvidar – até porque duvidar já é pecar!

Outra invocação que me ocorre é a canção
E O MUNDO NÃO SE ACABOU (Adriana Calcanhoto)

Enquanto os meios de informação se ocupam, justamente, com os casos de pedofilia na Igreja Católica, esta prossegue a sua actividade legal de intimidação e repressão milenar das populações com a ameaça do inferno nas suas várias versões e com acusação de pecados, aos outros.

Gerações e gerações de povos são instruídas pelos Evangelhos que, para tornar as ameaças eficazes, nos vendem os milagres mais inverosímeis reportados no Novo Testamento por gente que não assistiu a eles.

2022/04/03

Porque hoje é domingo (117)

O “casamento” do direito civil com a doutrina religiosa seria, por si só, matéria para uma fecunda reflexão, mas não me quero afastar da questão concreta a que se refere a citação do Evangelho nas homilias de hoje: o episódio da “mulher adúltera” (Jo. 8:1-11).

Jesus perdoou “o pecado” pelo qual a mulher vinha acusada, mas não o fez em nome da liberdade individual, e sim por piedade. É isto que eu não perdoo ao Filho de Deus! – passe o atrevimento!

O adultério aparece como sendo a violação, transgressão da regra de fidelidade conjugal imposta aos cônjuges pelo contrato matrimonial, cujo princípio consiste em não se manterem relações carnais com outrem fora do casamento. Tal contrato matrimonial traduz-se de facto num contrato patrimonial em que uma pessoa prescinde do seu livre arbítrio em favor de outrem, em que alguém se faz propriedade de outra pessoa.

Esta minha reprovação da fidelidade contratual não interfere com a vontade livre dos cônjuges manterem uma relação exclusiva ditada por sentimentos genuínos mais ou menos duradouros, mas sim na fixação legal e social de tais comportamentos. Esta exclusividade voluntária é tão legítima quanto a abstinência amorosa. Que ela configure um compromisso e não uma circunstância, já me parece “adulterar” a verdade da relação, isso sim. E é uma pena...

2017/02/19

Porque hoje é domingo (86)

A liturgia católica deste Domingo, 19 de Fevereiro, reúne duas passagens da bíblia. Uma é retirada do Novo Testamento e outra é recolhida no Velho Testamento. A primeira menciona a ressurreição de Jesus (Mc 9,2-10). A segunda (Gn 22,1-2.9-13.15-18) revela uma das muitas crueldades do Deus “todo misericordioso”.

Transcrevo esta última.

«Naqueles dias, Deus pôs Abraão à prova. Chamando-o, disse: “Abraão!” E ele respondeu: “Aqui estou”. E Deus disse: “Toma teu filho único, Isaac, a quem tanto amas, dirige-te à terra de Moriá e oferece-o aí em holocausto sobre um monte que eu te indicar”.

Chegados ao lugar indicado por Deus, Abraão ergueu um altar, colocou a lenha em cima, amarrou o filho e o pôs sobre a lenha, em cima do altar. Depois, estendeu a mão, empunhando a faca para sacrificar o filho. E eis que o anjo do Senhor gritou do céu, dizendo: “Abraão! Abraão!” Ele respondeu: “Aqui estou”. E o anjo lhe disse: “Não estendas a mão contra teu filho e não lhe faças nenhum mal! Agora sei que temes a Deus, pois não me recusaste teu filho único”.

Abraão, erguendo os olhos, viu um carneiro preso num espinheiro pelos chifres; foi buscá-lo e ofereceu-o em holocausto no lugar do seu filho. O anjo do Senhor chamou Abraão, pela segunda vez, do céu, e lhe disse: “Juro por mim mesmo — oráculo do Senhor —, uma vez que agiste deste modo e não me recusaste teu filho único, eu te abençoarei…».

E agora digam-me, diante de tal exigência de Deus ainda que revogada depois mas não na memória da criança, certamente, o que é terrorismo! Quem leu o meu artigo do domingo anterior, não tem que estranhar – a religião alimenta-se do medo, não da fé.

2016/12/03

Maldita lucidez

O PCP fecha os olhos à natureza autoritária de regimes pró-comunistas com a mesma tolerância e esperteza com que a Igreja fecha os olhos ao fariseismo dos seus sacerdotes. Não há outra forma de sobreviverem como instituições, de tal modo alguns elementos da sua história e a sua doutrina, cumplicidades e contradições, estorvam a sua imagem sagrada.

Mas o que é desarmante para quem quer ou precisa de seriedade nos processos e nos argumentos, é que isto funciona e, em boa medida, funciona bem. Vejam-se as multidões devotas de Nossa Senhora e de Fidel Castro. Acerca deste, lê-se no editorial do último Avante, que teve “uma vida inteiramente consagrada aos ideais da liberdade”…

Enfim, para quem precisa de um mundo racional para viver, este não é o mais adequado. Por isso recomendo: Pensadores de todo o mundo, matem-se!