2010/02/25

Grécia no novo império

Uma questão que se há-de colocar talvez antes que passem mil anos, em relação a “gregos e troianos”, é de saber o que ganharia ou perderia cada país... do PIGS* se não fosse dominado pelo império DEF(ICE) – Deutchland, England, France (Imperial Committee of Europe).


Acompanhar a progressão anual do Sol e da Lua através das constelações do zodíaco, prever os eclipses, traçar a movimentação dos planetas e a órbita irregular da Lua no céu: esta, segundo uma análise minuciosa descrita na revista "Nature", era a função do Mecanismo de Antikythera, um antiqüíssimo mecanismo grego com engrenagens que remonta a 65 antes de Cristo (na foto).

(...) O estudo revela que o mecanismo é muito mais sofisticado do que se podia acreditar, tanto que, para a época, pode definir-se como um computador propriamente dito.

Além disso, demonstra "o potencial tecnológico extraordinário dos gregos", que se perdeu com o império romano.

(...) A conclusão a que se poderia chegar é que, caso o Império Romano não tivesse interrompido o desenvolvimento dos gregos nesta área, talvez a tecnologia hoje estaria 1000 anos mais adiantada.

Fim do recorte de portalsaofrancisco.


Aqui fica, a título gratuito e generoso, esta dica para a dra Manuela F. Leite, de quem se ouviu hoje, para irritação do PS, que Portugal está "rigorosamente no mesmo caminho" da situação da Grécia em termos económicos (...).

*PIGS é uma abreviatura com que na UE se designa um conjunto de países (Portugal, Irland, Greece, Spain) acusados de terem problemas especialmente graves de défice, dívida excessiva ou desemprego.
24Fev2010

2010/02/23

Televisão com som

Ao contrário do cinema que nasceu mudo, a televisão já nasceu a falar. E não dizia só papá, mamã, não quero sopa…
Início do cinema sonoro (1927)

Logo de início, a TV dizia tudo o que a deixassem dizer. De resto, era da rádio, da tecnologia da rádio, que lhe vinha a principal qualidade – a capacidade de se difundir pelo ar através de ondas electromagnéticas.

Mas o fascínio era, naturalmente, a transmissão de imagens, a "visão à distância" que a palavra tele-visão exprime. Daí que o som ficasse sempre com o estatuto de parente pobre da família áudio-visual. Já era assim com o cinema, em que o microfone reclamava a sua aproximação aos actores e a câmara protestava porque o dito aparelho de som se intrometia no plano quando não era simplesmente a sua sombra – e aqui a guerra com a câmara estendia-se aos projectores de luz. Operador de câmara, operador de áudio e iluminador viviam e vivem esta luta pela conquista de território, desde os primórdios deste mundo tecnológico.

Recordo um episódio… bizarro que se passou ainda no tempo em que a Televisão funcionava sem gravação (*) de imagem – ou transmitia em directo ou registava em filme. No caso, tratava-se de filmar uma conferência dada por um eminente estrangeiro que para o efeito estaria em Portugal. Coisa imperdível, portanto, em que a RTP não podia deixar de “estar presente”. E levou dois operadores de imagem, não um só, além do operador de som.

Chegados ao local, a realizadora combinou discretamente com os operadores de imagem a posição de cada um. Os restantes membros da equipa situaram-se de acordo com as funções que tinham a desempenhar e com a preocupação de não perturbar a sessão. Tudo normal, portanto.

Quando a realizadora achou por bem parar as filmagens, mandou recolher discretamente a equipa para um canto a fim de preparar a saída. Foi então que o operador de som lhe perguntou: « Já vamos embora?». Ela respondeu que sim, que já tinha a parte da conferência que interessava para o programa. Então o operador perguntou com a voz cândida de um inocente: «E não precisas de som?».

Só então nos demos conta, todos, de que ela não teve com o operador de som o mesmo cuidado que teve com “os câmaras” e que isso resultara num desastre para aquela reportagem irrepetível. Mais que isso, aprendemos todos – se o não sabíamos antes – que a obsessão pela imagem pode levar à destruição do que realmente importa.

* O registo de imagem em vídeo é gravação e não filmagem, ao contrário do que se vem dizendo em linguagem de amador.
Foto inicial: The Jazz Singer (1927) com Al Jolson

2010/02/19

Rostos da TV


A jovem apresentadora defendia em reunião de Produção, o que mais ninguém defendia. E quando sentiu que os seus argumentos não tinham o efeito que o seu estrelato devia merecer, arremessou contra tudo e contra todos:
- Mas eu é que dou a cara!


Fez-se um breve silêncio na sala que a responsável pela programação interrompeu num tom moderado:
- Hoje, é. Amanhã, vamos a ver.

Desta vez o silêncio foi total. E definitivo!

Já é diferente a reunião de Produção que trago a seguir.

Desta vez o programa é outro e o apresentador também, Um rosto muito conhecido da televisão portuguesa. Além de apresentador era também autor do programa. Às reuniões semanais com a equipa, levava habitualmente recortes da Imprensa onde se comentava o programa da semana anterior.

Lia passagens elogiosas com um despudor que só às vedetas é consentido. Mas confrontou-se a dado momento, por distracção ou não, com uma crítica desfavorável. Então, com um sorriso sarcástico, comentou:
- Há certos críticos que não deviam escrever a seguir ao jantar!

Não vou dizer quem foi. Mas para evitar equívocos deixo já esta ressalva: não é ninguém com cargo político.


1ª imagem: "Narciso" - recortado de "Echo and Narcissus" de John William Waterhouse.; 2ª imagem: "Mulher ao Espelho"

2010/02/17

Assim se vê... TV

Não posso garantir que Adão e Eva, eles só, tenham dado origem à Humanidade, tão vasta e tão diversa como ainda a conhecemos apesar das grandes guerras e outras guerras grandes e pequenas.

Mas posso garantir que todas as cores que vemos na televisão, incluindo aquelas que nos chegam do Paraíso, são filhas de três, três cores apenas.

Bem pode haver árvores castanhas que dão maçãs verdes e vermelhas, serpentes pintalgadas, ervas, tangas , chinelos e flores, laranjas, papagaios, e borboletas de todas as cores, que três latas de "tinta luminosa" são suficientes para reproduzir esse caleidoscópio que há na Natureza e na cabeça dos pintores.

Apresento-vos, pela segunda vez, mister Red, lady Green e sir Blue ! A família RGB. Daqui há só que misturar, para obter a cor da descendência. R com G dá Y (yellow, amarelo); se Green fôr com Blue vamos ter Ciano e se Blue fôr Red a coisa dá Magenta – que nada acontece por acaso!


Se juntarmos agora estes filhos com os primos, e os netos e bisnetos e por aí além, chegaremos depressa ao infinito – passe o exagero!

Esta explicação mereceu uma tremenda discussão na sala de formação de realizadores quando um colega meu, vindo da arte dos pigmentos, reclamou com justa exaltação que a mistura de cores não funciona assim. De facto, em pintura a “lógica” é outra. Mas quando se mistura luz com luz, na arte dos pixels, o efeito é o que mostra a figura anterior.

Por outras palavras: quando o António Polainas concebe o espaço cénico em que se vai sentar o José Rodrigues dos Santos, pensa em pigmentos; quando o Nicolau Tudela concebe as imagens virtuais do genérico, dos separadores ou das ilustrações específicas das notícias, pensa em pixels – e ambos pensam ao nível do que há melhor no mundo, posso acrescentar! (Saravá, amigos!).

Posto isto, torna-se mais claro por que os projectores de vídeo que encontramos nas salas de espectáculos ou no Metro, têm este aspecto.

(Se quiser saber mais e tiver muita paciência, pode consultar aí na Net,
ESTE SITE).

2010/02/15

Analógico ou digital

Fosse escultor em vez de carpinteiro, São José, e talvez dispuséssemos hoje de uma reprodução das feições do seu filho adoptivo, que poderíamos comparar com as estátuas gigantes de Almada ou do Rio de Janeiro, entre muitas outras de variadas dimensões. Se José fosse fotógrafo, também poderíamos comparar as suas chapas com as telas dos pintores. Com imagens da época teríamos decerto uma percepção do filho de Deus bastante diferente da que é representada pelos artistas que nunca o viram, como Leonardo da Vinci na sua "Última Ceia" - tão simbólica, tão inverosímil, tão agitada que nem um jantar com Sócrates no Hotel Tivoli.

Mas poderíamos, ainda assim, na posse das tais fotografias da época, acreditar nas cores e até em pormenores formais do seu corpo ou das suas vestes, tão degradados estariam esses registos pelo tempo, esse monstro que nos pinta os cabelos, rasga traços no rosto e descalcifica os ossos?

É nisto que os registos digitais fazem toda a diferença.

Bem podem os olhos de Jesus chegar amarelos na sua foto de há dois mil anos. Se uma declaração escrita e assinada por quem de direito, disser que os olhos de Deus eram azuis, não haverá fotografia que o desminta. Porquê? Porque é mais fácil que o tempo tenha tingido de amarelo os olhos azuis do Senhor do que tenha substituído a palavra “amarelo” pela palavra “azul” na declaração – logo, se diz azul é porque é azul.

A fidelidade da fotografia ao objecto fotografado depende das condições de resistência do suporte da informação, a película ou o papel fotográfico. A fidelidade da reprodução digital depende apenas de um código que tenha o mesmo significado ao longo do tempo, como é o caso da palavra que o designa.

A fotocópia a cores é uma reprodução analógica de uma fotografia a cores, por exemplo. Mas a verdadeira cor da fotografia será melhor transmitida se dissermos qual é a luz, a intensidade e o brilho de cada ponto da imagem. É assim que, para o caso da cor, o código #900 no sistema RGB (red, green, blue) significa “vermelho”, visto que as outras cores têm valor zero. E este código não se confunde com #996 daqui a dois mil anos…

Outra vantagem do registo digital é a sua possibilidade de transmissão. Não é possível enviar uma folha azul pelo ar, de Lisboa para Pequim, sem arriscar a vida de um pombo-correio, mas é possível enviar um sinal eléctrico que seja lido como #009 e daqui descodificado no destino para uma impressão azul.

Se não percebeu, não se preocupe porque não é por isso que o céu deixa de ser #009.

2010/02/14

(Ex)citações televisivas

1.
«A característica principal da Neo-TV é que ela fala cada vez menos do mundo exterior. Ela fala de si própria e do contacto que está estabelecendo com o seu público». (Umberto Eco, “Viagem na Irrealidade Quotidiana”, Difel 1986)

Por falta de tempo não insiro aqui fotos de Mário Crespo, Manuela Moura Guedes, Marcelo Rebelo de Sousa, António Vitorino, Pacheco Pereira, o Polvo, a Enguia e o Cavalo-Marinho.

2.
Na publicação de 1994 cuja capa se apresenta acima, é possível ler frases como estas sobre “a guerra de canais” de televisão:
- uma guerra com os seus espiões, os seus transfugas e a sua dose de intoxicação e de subterfúgios;
- uma guerra com as suas frentes, as suas vítimas, os seus decapitados e os seus heróis;
- uma guerra em que os altos protagonismos têm tendência a fazer mais estrondo do que os conflitos do planeta.

“Dinheiro, poder e audiências” são os três elementos inseparáveis desta guerra, segundo o autor, Erik Emptaz.

Por respeito às autoridades também não insiro aqui as fotos de José Sócrates e Berlusconi – além de serem já sobejamente conhecidas, a sua junção poderia sugerir inapropriadas associações de ideias.