Quando a Grécia confronta o directório da designada União Europeia, a Grécia tem um problema. Mas quando é o Reino Unido, o problema já é da UE, como se vê.
O que não varia é a arrogância do grupo dominante que se opõe ás decisões democráticas dos povos, quando estes são consultados.
A sessão desta manhã (28 de Junho) do Parlamento Europeu revelou isso duma forma escandalosa na apoteose com que celebrou as intervenções dos representantes da Escócia e da Irlanda do Norte, e na forma como insultou a escolha maioritária dos cidadãos em referendo. Nada de novo!...
Em vez de analisar os efeitos devastadores das medidas impostas aos países membros, o grupo dominante na UE e desde logo os seus dirigentes, choram “lágrimas de crocodilo” e preparam-se para fazer a vida negra aos dissidentes da congregação. São sintomas de desespero.
A desunião do Reino Unido é uma metáfora – e não só! – do que se passa na União Europeia. E um aviso.
O que divide um reino, qualquer reino, a União Europeia incluída, não é a localização ou a composição etária. É a discriminação política e económica, é a imposição centralista de poder, é a apropriação da riqueza por um grupo privilegiado e o esmagamento dos direitos sociais.
Uma União Europeia inclusiva e solidária, verdadeiramente representativa dos povos, teria condições para resistir às crises com que se confronta, mas isso revela-se contrário à sua verdadeira natureza.
Em todo o caso, o que estamos a assistir é à primeira reacção clássica à crise: a emotividade. Esperemos pelas outras duas: a racionalidade e a negociação.
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2016/06/28
2015/09/21
A Grécia está com Tsipras
O povo grego compreendeu o que muitos analistas políticos não entenderam e o que detractores fingiram que não entendiam: que a rendição é um gesto de dignidade e de humanidade, quando a alternativa é o suicídio.
Na U.E., bastaria que um ou dois países se juntassem à Grécia, como era seu dever histórico, e o flagelo económico e social podia ter sido evitado, a razão e o interesse dos povos poderia ter vencido.
A renegociação da dívida, a partir de Outubro, vai evidenciar melhor a estratégia de Alexis Tsipras e as suas vantagens – será tempo de negociações num contexto de autoridade reforçada do Syrisa. Enquanto isso, o “programa de ajustamento” da troika colocará outros países na eminência de mudar de posição de forma mais ou menos discreta.
Já tarda em reconhecer que a crise da Grécia é a crise de Portugal e que as duas, entre outras, são a crise da Europa - uma “toika” de crises: da dívida, da economia e da política.
Escarnecendo dos fantasmas apontados pelos governos neo-liberais da Europa, o povo grego elegeu corajosamente o Syrisa, em Janeiro, para defender os seus interesses. Compreendendo as circunstâncias em que o governo negociou com os credores, cerca de um mês depois, o povo grego mostrou o seu desprezo pela demagogia “esquerdista” – no sentido leninista do termo – e confirmou a sua confiança em Alexis de Tsipras, nas eleições do passado domingo, 20 de Setembro. É caso para falar da "superioridade moral... dos gregos".
Os nossos políticos e analistas de direita continuarão a dizer mal do Syrisa, ora porque é tolerante ora porque é arrogante - é a luta ideológica. Alguns políticos de esquerda coincidirão nessas críticas - é a luta de concorrência. Outros fazem a História - que não acaba aqui!
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2015/08/24
Europa encalhada
Enquanto a Europa encalhada começa a naufragar no mar das suas
contradições, a Direita canta, dança e lança foguetes, para fingir que este Titanic não se afunda. Entretanto, os mais afortunados vão carregando os botes salva-fortunas com destino a outro continente.
O que aconteceu no Titanic propriamente dito, foi que 62% dos passageiros da 1ª classe conseguiram salvar-se, contra apenas 25% da 3ª classe porque não havia botes salva-vidas disponíveis no seu deck!
Afigura-se que a questão da Grécia é apenas o começo, uma pequena parte de um problema real que a Europa produziu com as suas políticas de arrefecimento económico e congelamento político. Debaixo do iceberg grego, adivinha-se um monstro económico-financeiro que ameaça reduzir a destroços a União Europeia, rombo a rombo, país a país.
Se a União Europeia não mudar de rumo por sua iniciativa, a explosão de forças sociais desesperadas e o eventual aproveitamento da situação por movimentos realmente extremistas, não poucos deles já hoje identificados, farão a mudança de rota à sua maneira.
Não será por falta de alertas que os nossos capitães Smith(*) nos levarão ao fundo com o seu navio, mas pode ser por excesso de festa.
(*) O capitão Edward John Smith era o comandante do Titanic e com ele se afundou em 15 de Abril de 1912.
A imagem inicial foi copiada de orpheedelamer.blogspot.com
O que aconteceu no Titanic propriamente dito, foi que 62% dos passageiros da 1ª classe conseguiram salvar-se, contra apenas 25% da 3ª classe porque não havia botes salva-vidas disponíveis no seu deck!
Afigura-se que a questão da Grécia é apenas o começo, uma pequena parte de um problema real que a Europa produziu com as suas políticas de arrefecimento económico e congelamento político. Debaixo do iceberg grego, adivinha-se um monstro económico-financeiro que ameaça reduzir a destroços a União Europeia, rombo a rombo, país a país.
Se a União Europeia não mudar de rumo por sua iniciativa, a explosão de forças sociais desesperadas e o eventual aproveitamento da situação por movimentos realmente extremistas, não poucos deles já hoje identificados, farão a mudança de rota à sua maneira.
Não será por falta de alertas que os nossos capitães Smith(*) nos levarão ao fundo com o seu navio, mas pode ser por excesso de festa.
(*) O capitão Edward John Smith era o comandante do Titanic e com ele se afundou em 15 de Abril de 1912.
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2015/08/02
2015/07/31
Do "socialismo real" ao socialismo realista
"O primeiro governo de esquerda (na Grécia) desde a II Guerra Mundial, terá o apoio de deputados de esquerda, ou cairá por causa de deputados de esquerda", afirmou Alexis Tsipras na reunião do comité central do Syrisa, em 30 de Julho.
E ainda:"Nós, com um governo de esquerda num país pequeno, criámos as primeiras divisões na hegemonia neoliberal da Europa".
Aqui fica o recado para uns tantos "educadores da classe operária" que por aí vão fazendo eco dos discursos da direita. O eco (da pseudo-esquerda pura) corre ao contrário da mensagem, em sentido físico, mas é igual à mensagem, em sentido semântico - exprime a mesma ideia.
As citações foram recolhidas do jornal publico.pt de 31/7.
A foto é do greecereekreporter
E ainda:"Nós, com um governo de esquerda num país pequeno, criámos as primeiras divisões na hegemonia neoliberal da Europa".
Aqui fica o recado para uns tantos "educadores da classe operária" que por aí vão fazendo eco dos discursos da direita. O eco (da pseudo-esquerda pura) corre ao contrário da mensagem, em sentido físico, mas é igual à mensagem, em sentido semântico - exprime a mesma ideia.
As citações foram recolhidas do jornal publico.pt de 31/7.
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2015/06/19
A Direita tem um problema
A Direita não sabe o que quer? Claro que sabe: quer apagar as luzes que revelam a sua ideologia impopular e injusta. O seu problema é o velho padadoxo do capitalismo: ele contém em si a contradição que há-de pôr-lhe fim.
Podemos fingir que não vemos a China a dominar a economia mundial, e uma esquerda de novo tipo a romper as alternâncias parlamentares tradicionais, mas a verdade é que a Terra se move…
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2015/05/26
É preciso engravidar a Esquerda
Em jeito de resposta a Varoufakis
Suspender o avanço para carregar as armas e retemperar forças, não constitui um recuo – digo eu. Mas o que leio naquela entrevista não é uma trégua temporária, é uma mudança de inimigo, é um abandono da guerra que se apresenta, em nome de uma que ameaça. E é perder o objectivo, em nome da estratégia.
Que estratégia é esta que Varoufakis defende? “Estabilizar a Europa” como ela se apresenta agora, comprometermos-nos com “um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente”.
Em nome de quê? De evitar um mal maior – a extrema direita. Como se esse perigo maior não viesse pelos caminhos desta Europa!
Mais aconselhável é mudar esses caminhos, é esvaziar a extrema direita do argumento que a União Europeia lhe oferece: o carácter “antidemocrático e irracional”. É mudar “a trilha” ultra-liberal e não percorrê-la ao lado dos seus mentores.
Que a extrema-direita prossiga essa estratégia de se confundir com a direita europeia, faz sentido para aquela – afinal a direita europeia está a fazer a sua política de recessão social; ambas caminham no mesmo sentido e apenas é suposto existirem diferentes limites no percurso. Mas o que se espera da Esquerda é uma mudança de sentido.
Se a crise europeia “não vem grávida de alternativas progressistas”, é preciso engravidá-la! E se Varoufakis se sente impotente para fazê-lo, é talvez porque se convenceu de que a capacidade da Esquerda para vencer, depende apenas da estratégia dos teóricos e não na determinação dos povos.
Ao invés, o que me parece é que, enquanto a Esquerda se dilui na Direita a fim de ganhar "o tempo de que precisamos para formular a alternativa", as bases vão lhe perdendo o respeito e a confiança (vide França). A determinação popular acabará por fazer fogueiras dos tratados europeus e dos acordos de regime, e devolverá Yanis Varoufakis ao seu lugar na universidade mas não na História.
O que mais precisamos para formular a alternativa, é tempo ou é iniciativa? Na resposta a esta questão há que ter presente que as lutas sociais justas são, elas próprias, grávidas de respostas.
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Yanis Varoufakis
2015/05/21
Assim falava Varoufakis (3)
AUTO-CRÍTICA
… Por mais que me satisfaça defender como atitude genuinamente radical a implantação de uma modesta agenda para estabilizar um sistema que desprezo, não fingirei que a coisa me entusiasme. Acho que aí está o que temos de fazer, sob as circunstâncias atuais, mas muito me entristece pensar que provavelmente não viverei para assistir à adoção racional de agenda muito mais radical.
Por fim, uma confissão de natureza muito altamente pessoal: sei que corro o risco de, sub-repticiamente, encobrir a
tristeza por estar enterrando qualquer esperança de substituir o capitalismo,
no tempo de vida que me resta, deixando-me arrastar pelo sentimento de satisfação por ter-me tornado "palatável" nos círculos da "sociedade polida". A sensação de auto-satisfação, ao ver-me festejado por ricos e poderosos, até começou, sim, uma vez, a implantar-se em
mim. E que sensação feia, corrompida, não radical foi aquela!
O meu fundo do poço pessoal aconteceu
num aeroporto.
Um grupo endinheirado havia-me convidado para uma conferência sobre a crise europeia e consumira a quantia escandalosa de dinheiro necessária para enviar-me uma passagem de primeira classe. De volta para casa, cansado e já com muitas horas de voo na bagagem, eu ia andando do lado da longa fila dos passageiros da classe econômica, para chegar à porta de acesso dos ricos. Foi quando, de repente, com considerável horror, dei-me conta de como eu me deixara facilmente infectar pela sensação de que eu "tinha direito" de passar à frente dos hoi polloi [grego no orig., "a plebe"].
Percebi o quão rapidamente eu esquecera o que minha mente de esquerda sempre soubera: que nada se reproduz mais perfeitamente nem mais rapidamente, que um falso senso de "ter direito" a algo.
Forjar alianças com forças reacionárias, como entendo que devamos fazer para estabilizar a Europa hoje, põe-nos sob o risco de sermos cooptados, de deixar nosso radicalismo morrer sufocado sob o calor acintoso da sensação de ter afinal "chegado" aos corredores do poder.
Confissões radicais, como a que tentei escrever aqui, são talvez o único antídoto programático contra deslizes ideológicos que ameaçam nos converter em engrenagens da máquina. Se temos de forjar alianças com o diabo (e.g. com o FMI, com neoliberais os quais, contudo, também têm objeções ao que chamo de bancorruptocracia", etc.), temos de evitar nos converter em socialistas que fracassaram na luta para melhorar o mundo, mas... melhoraram, sim, muito, a própria vida privada.
O truque é evitar o maximalismo revolucionário que, no fim, só ajuda os neoliberais a superarem a oposição à imundície medíocre e autoderrotista deles; e conservar ante nossos olhos a feiúra inerente do capitalismo, quando tentamos salvá-lo, para objetivos estratégicos, dele mesmo. Confissões radicais podem ser úteis para alcançar esse difícil equilíbrio. O humanismo marxista, afinal, ensina a nunca parar de lutar contra isso em que nos estamos convertendo.
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Assim falava Varoufakis (2)
PIOR QUE MAU
(Na Inglaterra da s.ra Thatcher), com a vida cada vez mais miserável, mais brutal e, para muitos, cada vez mais curta (…) as coisas podem piorar perpetuamente, sem jamais melhorarem. A esperança de que a deterioração dos bens públicos, a diminuição da vida da maioria da população, as privações que já chegavam a cada esquina da terra, levariam automaticamente ao renascimento de alguma esquerda, era o que era, nada além do que era: só esperança!
A noção de que a deterioração das "condições objetivas" (a realidade material) dariam de algum modo origem a "condições subjetivas" (o desejo popular de mudança) das quais emergiria uma nova revolução política, não passava, completamente, de engodo. A única coisa que emergiu do thatcherismo foi gente que vive de especulação, a financialização extrema, o triunfo do shopping mall sobre as lojas da esquina, a fetichização da casa própria e... Tony Blair.
É a razão pela qual estou feliz de confessar o pecado que me tem sido imputado pelos críticos radicais de minha posição "menchevique" sobre a Eurozona: o pecado de escolher NÃO propor programas políticos radicais que visem a explorar a eurocrise como oportunidade para derrubar o capitalismo europeu, para desmantelar toda a Eurozona e para minar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros corruptos.
Ah, sim, eu adoraria poder apresentar aqui aquela agenda mais radical. Mas, não, não estou disposto a cometer o mesmo erro pela segunda vez. O que obtivemos de bom na Grã-Bretanha no inícios dos anos 1980s, promovendo uma agenda de mudança socialista da qual a sociedade britânica zombava, ao mesmo tempo em que afundava, de cabeça, na armadilha neoliberal da Sra. Thatcher? Precisamente nada.
Que bem nos faria hoje clamar pelo desmonte da Eurozona, da própria União Europeia, se o capitalismo europeu está também ele fazendo de tudo para pôr fim à Eurozona, até à própria União Europeia? Uma saída de Grécia ou de Portugal ou Itália, da eurozona, logo se desenvolverá numa fragmentação do capitalismo europeu, o que gerará uma região a mais de grave superávit recessivo no leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa vê-se nas garras de uma viciosa "estagflação".
Quem vocês imaginam que se beneficiaria desse desenvolvimento? Alguma Esquerda progressista, que nasceria feito fênix das cinzas das instituições públicas europeias? Ou os nazistas da Alvorada Dourada, os neofascistas de várias origens, os xenófobos, ou especuladores? Não tenho absolutamente dúvida alguma sobre qual desses dois grupos se beneficiaria da desintegração da Eurozona. Eu, de minha parte, não estou interessado em soprar ventos novos nas velas dessa versão pós-moderna dos anos 1930s.
Se tudo isso significa que seremos nós, os adequadamente errantes marxistas, que teremos a tarefa de salvar o capitalismo europeu dele mesmo, que seja! Não por amor a eles, ou de tanto que apreciamos o capitalismo europeu, a Eurozona, Bruxelas ou o Banco Central Europeu , mas só porque queremos minimizar o sofrimento humano desnecessário que essa crise cobrará; as incontáveis vidas que serão ainda mais profundamente esmagadas sem qualquer tipo de benefício, nenhum, para as futuras gerações de europeus.
Cada vez que os lacaios da troika visitam Atenas, Dublin, Lisboa, Madrid; a cada pronunciamento do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia sobre o próximo arrocho no parafuso da austeridade que terá de acontecer em Paris ou Roma, vêm à cabeça as palavras de Bertholt Brecht: Força bruta está fora de moda. Para quê mandar assassinos contratados, se lacaios fazem o mesmo serviço?
Fim de transcrição
"Assim falava Varoufakis (3)" irá transcrever uma auto-crítica do autor aqui invocado, retirada da mesma entrevista de 2013 - quando não era ainda ministro.
As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).
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2015/05/20
Assim falava Varoufakis (1)
DE SI MESMO
Marxista, hegeliano, keynesiano, humano, tenho tendência natural a dizer que não sou nada disso; que consumi meus dias tentando tornar-me a abelha de Francis Bacon: uma criatura que prova o néctar de um milhão de flores e converte a coisa, nas próprias entranhas, em algo novo, que deve muito a todas as florações, mas não se define por nenhuma única flor.
… Sim, partilho a ideia de que essa União Europeia não passa de um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente.
… A actual crise europeia (…) ameaça toda a civilização como a conhecemos.
DA ALTERNATIVA
… (mas) temos de deter a queda livre do capitalismo europeu, para conseguir o tempo de que precisamos para formular a alternativa.
… A crise da Europa, como a vejo, não vem grávida de alternativas progressistas, mas só de forças radicalmente atrasistas, regressivas, que têm capacidade para provocar renovados banhos de sangue "humanitários", ao mesmo tempo em que vão matando qualquer esperança de qualquer movimento progressista para as futuras gerações.
… Com as elites europeias em pleno surto de negar evidências, desconcertadas, e com as cabeças enfiadas no buraco, feitos avestruzes, a Esquerda tem de admitir que simplesmente não estamos prontos para remendar os buracos que um capitalismo europeu em colapso abrirá, usando, nós, algum sistema socialista operante, capaz de gerar prosperidade partilhada para as massas.
Nossa tarefa deve ser, pois, dupla: Oferecer uma análise do actual estado para o qual foram empurrados europeus não marxistas bem intencionados, pelas sereias do neoliberalismo, e fazer seguirem-se a essa análise sólida, propostas para estabilizar a Europa – que ponham fim à espiral descendente que, no fim, só reforça os perversos e incuba o ovo da serpente.
Ironicamente, os que mais amaldiçoamos a Eurozona, temos uma obrigação moral de salvá-la!
Eis precisamente o que tentamos fazer com nossa Modest Proposal. Ao nos dirigir a públicos diversos, que vão de ativistas radicais a gerentes de hedge funds, a ideia é forjar alianças estratégicas mesmo com gente da direita, com os quais partilhamos um simples interesse: um interesse em pôr fim ao circuito de realimentação negativa entre "austeridade" [arrocho] e crise, entre estados falidos e apoiantes falidos; um efeito de realimentação negativa que mina o capitalismo, como mina qualquer programa progressista que o substitua.
"Assim falava Varoufakis (2)" tratará da experiência britânica como indicador de que, depois do fundo, há mais poço...
As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).
Marxista, hegeliano, keynesiano, humano, tenho tendência natural a dizer que não sou nada disso; que consumi meus dias tentando tornar-me a abelha de Francis Bacon: uma criatura que prova o néctar de um milhão de flores e converte a coisa, nas próprias entranhas, em algo novo, que deve muito a todas as florações, mas não se define por nenhuma única flor.
… Sim, partilho a ideia de que essa União Europeia não passa de um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente.
… A actual crise europeia (…) ameaça toda a civilização como a conhecemos.
DA ALTERNATIVA
… (mas) temos de deter a queda livre do capitalismo europeu, para conseguir o tempo de que precisamos para formular a alternativa.
… A crise da Europa, como a vejo, não vem grávida de alternativas progressistas, mas só de forças radicalmente atrasistas, regressivas, que têm capacidade para provocar renovados banhos de sangue "humanitários", ao mesmo tempo em que vão matando qualquer esperança de qualquer movimento progressista para as futuras gerações.
… Com as elites europeias em pleno surto de negar evidências, desconcertadas, e com as cabeças enfiadas no buraco, feitos avestruzes, a Esquerda tem de admitir que simplesmente não estamos prontos para remendar os buracos que um capitalismo europeu em colapso abrirá, usando, nós, algum sistema socialista operante, capaz de gerar prosperidade partilhada para as massas.
Nossa tarefa deve ser, pois, dupla: Oferecer uma análise do actual estado para o qual foram empurrados europeus não marxistas bem intencionados, pelas sereias do neoliberalismo, e fazer seguirem-se a essa análise sólida, propostas para estabilizar a Europa – que ponham fim à espiral descendente que, no fim, só reforça os perversos e incuba o ovo da serpente.
Ironicamente, os que mais amaldiçoamos a Eurozona, temos uma obrigação moral de salvá-la!
Eis precisamente o que tentamos fazer com nossa Modest Proposal. Ao nos dirigir a públicos diversos, que vão de ativistas radicais a gerentes de hedge funds, a ideia é forjar alianças estratégicas mesmo com gente da direita, com os quais partilhamos um simples interesse: um interesse em pôr fim ao circuito de realimentação negativa entre "austeridade" [arrocho] e crise, entre estados falidos e apoiantes falidos; um efeito de realimentação negativa que mina o capitalismo, como mina qualquer programa progressista que o substitua.
Fim de citações
"Assim falava Varoufakis (2)" tratará da experiência britânica como indicador de que, depois do fundo, há mais poço...
As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).
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2015/03/18
Os empates eleitorais
Os resultados das eleições desta terça-feira, 17 de Março, em Israel, que apontam para 29 deputados do Likud contra 24 da União Sionista, vêm confirmar um fenómeno bastante generalizado nos processos eleitorais, nos países de democracia formal: a tendência para o empate.
Aparentemente, esta tendência para o empate revela que os países tendem a formar duas correntes dominantes de opinião que se equivalem numericamente, o que parece não ter explicação lógica até porque é suposto haver uma maioria desfavorecida em relação de oposição a uma minoria privilegiada.
Mas será que esse problema directamente económico é o que domina as preocupações dos cidadãos? Mais parece que os eleitores colocam acima de tudo os valores da segurança e da estabilidade, o que os torna conservadores. E isso explica o “centrão”, isto é, o domínio do grande espaço político por parte de dois partidos mais ou menos conservadores.
Dois partidos e não um, porquê? Porque os eleitores sentem necessidade de alternância enquanto ilusão de alternativa, que dê justificação ao acto de votar e que dê esperança de melhoria da sua situação, sem riscos. É a lógica do investidor prudente.
Porém, quando a prudência nos deixa para trás na corrida geral, ela deixa de ser vista como um um valor e passa a ser percebida como um estorvo - a "zona de conforto" foi atacada e o homem-prudente evolui para o homem-justo. Estamos no limiar da revolta que sacode o medo e estimula o apoio a partidos mais exigentes, mais consequentes nas suas propostas de mudança. Percebemos finalmente que o nosso descontentamento só está representado nas margens do espectro político.
O sucesso eleitoral do SYRISA, na Grécia, é um caso paradigmático dos efeitos relevantes desta mudança de atitude dos eleitores. Neste caso, as águas que corriam nas margens, foram canalizadas para o centro de decisão. Uma pedrada no charco. Um processo em curso.
Este texto foi revisto em termos formais em 21/Mar.
Aparentemente, esta tendência para o empate revela que os países tendem a formar duas correntes dominantes de opinião que se equivalem numericamente, o que parece não ter explicação lógica até porque é suposto haver uma maioria desfavorecida em relação de oposição a uma minoria privilegiada.
Mas será que esse problema directamente económico é o que domina as preocupações dos cidadãos? Mais parece que os eleitores colocam acima de tudo os valores da segurança e da estabilidade, o que os torna conservadores. E isso explica o “centrão”, isto é, o domínio do grande espaço político por parte de dois partidos mais ou menos conservadores.
Dois partidos e não um, porquê? Porque os eleitores sentem necessidade de alternância enquanto ilusão de alternativa, que dê justificação ao acto de votar e que dê esperança de melhoria da sua situação, sem riscos. É a lógica do investidor prudente.
Porém, quando a prudência nos deixa para trás na corrida geral, ela deixa de ser vista como um um valor e passa a ser percebida como um estorvo - a "zona de conforto" foi atacada e o homem-prudente evolui para o homem-justo. Estamos no limiar da revolta que sacode o medo e estimula o apoio a partidos mais exigentes, mais consequentes nas suas propostas de mudança. Percebemos finalmente que o nosso descontentamento só está representado nas margens do espectro político.
O sucesso eleitoral do SYRISA, na Grécia, é um caso paradigmático dos efeitos relevantes desta mudança de atitude dos eleitores. Neste caso, as águas que corriam nas margens, foram canalizadas para o centro de decisão. Uma pedrada no charco. Um processo em curso.
Este texto foi revisto em termos formais em 21/Mar.
2015/02/26
Até Freitas
O que menos interessaria nas negociações do governo grego com o Eurogrupo, é saber quem “leva a bicicleta”. O resultado deste jogo está à vista: a Alemanha salva a sua face e a Grécia salva a sua tesouraria.
A narrativa corrente, segundo a qual “o governo grego teve que ceder em toda a linha”, obriga porém a uma resposta. E para quê invocar Marx, Lenine ou Rosa Luxemburgo, se Freitas do Amaral explica tudo e bem e em português?
A Alemanha recuou muito mais que a Grécia:
- o governo grego acabou com o tabu de que a política neoliberal da União Europeia não podia ser discutida ou modificada, e pôs toda a europa a discutir os méritos e deméritos dessa política;
- o governo grego conseguiu mais 5 milhões de euros de financiamento para a banca grega, como pretendia;
- o governo grego “dobrou a Alemanha” que não queria qualquer acordo e foi obrigada a aceitar um acordo
As medidas propostas pelo governo grego foram aprovadas por todo o eurogrupo – é a reforma do Estado!
Vai haver disciplina orçamental, sim, mas a austeridade pura e dura morreu. Como morreu a troika – as discussões deixam de ser ao nível de funcionários e passam a fazer-se ao nível de ministros.
(2015-02-26 Freitas do Amaral em “Grande Entrevista / RTP Info.)
Na foto:
Margarida Marante modera debate com Freitas do Amaral, Pinto Balsemão, Mário Soares e Álvaro Cunhal
A narrativa corrente, segundo a qual “o governo grego teve que ceder em toda a linha”, obriga porém a uma resposta. E para quê invocar Marx, Lenine ou Rosa Luxemburgo, se Freitas do Amaral explica tudo e bem e em português?
A Alemanha recuou muito mais que a Grécia:
- o governo grego acabou com o tabu de que a política neoliberal da União Europeia não podia ser discutida ou modificada, e pôs toda a europa a discutir os méritos e deméritos dessa política;
- o governo grego conseguiu mais 5 milhões de euros de financiamento para a banca grega, como pretendia;
- o governo grego “dobrou a Alemanha” que não queria qualquer acordo e foi obrigada a aceitar um acordo
As medidas propostas pelo governo grego foram aprovadas por todo o eurogrupo – é a reforma do Estado!
Vai haver disciplina orçamental, sim, mas a austeridade pura e dura morreu. Como morreu a troika – as discussões deixam de ser ao nível de funcionários e passam a fazer-se ao nível de ministros.
(2015-02-26 Freitas do Amaral em “Grande Entrevista / RTP Info.)
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2015/02/24
Grécia vista pelo KKE
Não é só a Alemanha e os seus 17 cordeiros que combatem o SYRISA. Do mesmo se encarregam os ultra-radicais de esquerda, entre “syrisistas” e comunistas do KKE.
Desta parte semeiam-se algumas dúvidas: «como é que o povo continuará a pagar o alto preço pela dívida que ele não criou; como é que a competitividade dos grupos de negócios será reforçada; como prosseguirão as "reformas" (as quais são objectivos do governo, ninguém está a impor-lhes); e quão prontamente o dinheiro será assegurado para a recuperação do capital?». Aqui fica alguma lenha de esquerda para alimentar a fogueira da direita política interna e externa.
E o PKK denuncia ainda o «novo programa, em acordo com os prestamistas e a garantia de que os compromissos para com os "predadores dos mercados" serão observados, o que significa que o povo pagará pelos empréstimos». Além de que «este governo honrará suas "obrigações" para com a NATO».
O que faria o KKE se fosse governo, é a grande questão… em que os gregos não estão interessados, a avaliar pelos resultados eleitorais de 25 de janeiro, em que o partido comunista teve 5,5% dos votos – comparável ao resultado dos Gregos Independentes (ANEL) com quem o SYRISA teve de coligar-se.
É que o KKE, “ao contrário do SYRISA” «luta pelo cancelamento unilateral da dívida, a saída da Grécia da União Europeia e da NATO e a socialização dos meios de produção básicos».
Se o KKE acreditasse em Lenine, reconheceria que vale a pena dar um passo atrás quando isso permite dar dois passos à frente.
Desta parte semeiam-se algumas dúvidas: «como é que o povo continuará a pagar o alto preço pela dívida que ele não criou; como é que a competitividade dos grupos de negócios será reforçada; como prosseguirão as "reformas" (as quais são objectivos do governo, ninguém está a impor-lhes); e quão prontamente o dinheiro será assegurado para a recuperação do capital?». Aqui fica alguma lenha de esquerda para alimentar a fogueira da direita política interna e externa.
E o PKK denuncia ainda o «novo programa, em acordo com os prestamistas e a garantia de que os compromissos para com os "predadores dos mercados" serão observados, o que significa que o povo pagará pelos empréstimos». Além de que «este governo honrará suas "obrigações" para com a NATO».
O que faria o KKE se fosse governo, é a grande questão… em que os gregos não estão interessados, a avaliar pelos resultados eleitorais de 25 de janeiro, em que o partido comunista teve 5,5% dos votos – comparável ao resultado dos Gregos Independentes (ANEL) com quem o SYRISA teve de coligar-se.
É que o KKE, “ao contrário do SYRISA” «luta pelo cancelamento unilateral da dívida, a saída da Grécia da União Europeia e da NATO e a socialização dos meios de produção básicos».
Se o KKE acreditasse em Lenine, reconheceria que vale a pena dar um passo atrás quando isso permite dar dois passos à frente.
2015/02/20
2015/02/17
O outro lado do mundo
Como se a Terra fosse plana e não esférica, nós, europeus, perdemos facilmente de vista o que se passa do outro lado do mundo. Há mesmo quem recorra a esta ilusão de optica para nos convencer que o mundo somos nós e o que vemos à nossa volta, apenas.
Era assim que se imaginava o mundo, realmente, até os gregos – lá está! - nos revelarem que há mais Terra, mais territórios, mais nações, mais gente, mais economias, mais exércitos além da nossa linha de horizonte.
Com efeito, Pitágoras e Aristóteles – que não eram do SYRISA – já terão problematizado o consenso sobre a forma da Terra, e nem foram os primeiros gregos a levantar o problema. Curiosamente foi preciso esperar por um português para provar a tese, muitos séculos mais tarde, com a viagem de circum-navegação. Foi Fernão de Magalhães, em 1522. A História tem o seu tempo.
O que era a grande heresia até cinco séculos antes de Cristo, revelou ser a grande verdade!
É isto que me lembra o argumento em que se apoiam os greco-cépticos quando invocam a posição dos 18 ministros das Finanças da zona do euro que se opõem à posição do governo grego (dando de barato que se trata de uma posição realmente unânime sobre o mesmo conteúdo).
Embora Varoufakis afirme que a Grécia não tem um plano “B” e que vai continuar no euro, eu julgo oportuno transcrever um excerto do discurso do ministro chinês, Wang Yi num encontro de três países – China, Rússia e Índia – estranhos à União Europeia e relativamente próximos da Grécia, no princípio deste mês de Fevereiro:
"China, Rússia e Índia são grandes países, dos maiores do mundo; e somos, todos, economias de mercado emergentes. Todos temos compromisso com política independente para a paz, e com a via do desenvolvimento pacífico. Geramos sempre mais energia positiva para o resto do mundo, e trabalharemos sem descanço para tornar o mundo mais seguro e mais estável. Nossos três países unem-se para cooperação mais próxima, mutuamente benéfica, e para nosso desenvolvimento comum. A união beneficiará diretamente mais de 40% da população do planeta Terra".
E não será só em matéria de “desenvolvimento”, digo eu. Nem será só entre estes três países. O mundo é bem maior do que parece a alguns, apostados em isolar a Grécia.
Era assim que se imaginava o mundo, realmente, até os gregos – lá está! - nos revelarem que há mais Terra, mais territórios, mais nações, mais gente, mais economias, mais exércitos além da nossa linha de horizonte.
Com efeito, Pitágoras e Aristóteles – que não eram do SYRISA – já terão problematizado o consenso sobre a forma da Terra, e nem foram os primeiros gregos a levantar o problema. Curiosamente foi preciso esperar por um português para provar a tese, muitos séculos mais tarde, com a viagem de circum-navegação. Foi Fernão de Magalhães, em 1522. A História tem o seu tempo.
O que era a grande heresia até cinco séculos antes de Cristo, revelou ser a grande verdade!
É isto que me lembra o argumento em que se apoiam os greco-cépticos quando invocam a posição dos 18 ministros das Finanças da zona do euro que se opõem à posição do governo grego (dando de barato que se trata de uma posição realmente unânime sobre o mesmo conteúdo).
Embora Varoufakis afirme que a Grécia não tem um plano “B” e que vai continuar no euro, eu julgo oportuno transcrever um excerto do discurso do ministro chinês, Wang Yi num encontro de três países – China, Rússia e Índia – estranhos à União Europeia e relativamente próximos da Grécia, no princípio deste mês de Fevereiro:
"China, Rússia e Índia são grandes países, dos maiores do mundo; e somos, todos, economias de mercado emergentes. Todos temos compromisso com política independente para a paz, e com a via do desenvolvimento pacífico. Geramos sempre mais energia positiva para o resto do mundo, e trabalharemos sem descanço para tornar o mundo mais seguro e mais estável. Nossos três países unem-se para cooperação mais próxima, mutuamente benéfica, e para nosso desenvolvimento comum. A união beneficiará diretamente mais de 40% da população do planeta Terra".
E não será só em matéria de “desenvolvimento”, digo eu. Nem será só entre estes três países. O mundo é bem maior do que parece a alguns, apostados em isolar a Grécia.
2015/01/29
Os greco-cépticos
Primeiro era porque o SYRISA seria extremista ou/e radical; depois era porque havia moderado o seu discurso; a seguir, era porque fez uma coligação com um partido de direita… Até já se ouviu comentar que Alexis vive em “união de facto” o que seria uma situação “polémica”!
Agora “o problema” é que não há um ministério dirigido por uma mulher! Que haja ministro invisual não conta para os zelosos da igualdade. Tão preocupados que andam os greco-cépticos. Só não se preocupam em saber se há algum corrupto no Governo, porque, isso sim, seria normal.
Em que raio de faculdade de astrologia é que o J. G. Ferreira estudou jornalismo??? De um jornalista enquanto tal, a gente espera notícias, informação, actualidade; não é ficção.
Se quer fazer manipulação “jornalística”, ao menos aprenda com o outro Zé, o Rodrigues dos Santos – seleccione uma parte da realidade e fale só disso, descontextualizando.
Eles não sabem disso? Claro que sabem. Mas aqui como nos governos, “o maior cego é aquele que não quer ver”.
Agora “o problema” é que não há um ministério dirigido por uma mulher! Que haja ministro invisual não conta para os zelosos da igualdade. Tão preocupados que andam os greco-cépticos. Só não se preocupam em saber se há algum corrupto no Governo, porque, isso sim, seria normal.
ORGULHO PRECONCEITO
O mais orgulhoso comentador económico que não é comentador, José Gomes Ferreira, entre vários “mas eu sou jornalista” e “nós os jornalistas”, excede-se na SIC-Notícias, em anunciar a desgraça que aí vem com o SYRISA. E se nem os seus bem escolhidos convidados querem sujar a reputação, o J. G. Ferreira dá corda: “porque nós os jornalistas temos obrigação de antecipar cenários”.
Em que raio de faculdade de astrologia é que o J. G. Ferreira estudou jornalismo??? De um jornalista enquanto tal, a gente espera notícias, informação, actualidade; não é ficção.
Se quer fazer manipulação “jornalística”, ao menos aprenda com o outro Zé, o Rodrigues dos Santos – seleccione uma parte da realidade e fale só disso, descontextualizando.
José Gomes Ferreira... à direita
Para ser sincero, eu nem creio que estes efeitos de manipulação sejam ideologicamente estruturados, politicamente motivados. Especialmente no caso de Rodrigues dos Santos, mais me parece superficialidade. O caso do outro, é um certo sentimento de autoridade intelectual congénita produzida pelo efeito hipnótico do “estrelato” e alimentada pela reverência conveniente dos actores políticos – é uma doença que ataca muito alguns apresentadores de jornais e outros espectáculos.
Eles não sabem disso? Claro que sabem. Mas aqui como nos governos, “o maior cego é aquele que não quer ver”.
2015/01/26
A Grécia falou e disse
Os mentores da ordem estabelecida deviam agradecer
a partidos da "esquerda radical" como o SYRIZA , absorverem os descontentamentos mais exaltados, evitando assim que se tornem descontrolados, violentos, terroristas ou como queiram chamar-lhes.
A esperança que geram estas correntes a que alguns chamam “extremistas”, é o que evita incêndios e apedrejamentos, sabotagens e atentados – extremismos verdadeiros.
É neste sentido da esperança que Alexis Tsipras proclamou, no seu “discurso de vitória” o primado da dignidade sobre a humilhação, a recusa da submissão sem perda de responsabilidade, o respeito recíproco, a urgência de “tratar as feridas da catástrofe”, a atenção à voz do eleitorado contra “a voz da “troika” e da austeridade”…
São questões de princípio, é certo, mas é a falta destes princípios que tem arruinado as economias europeias, que tem empobrecido as populações. Comparadas com o discurso recente de Obama, estas simples questões de princípio são um tratado político.
“O caminho faz-se caminhando”, como dizia António Machado. Mas ao fazê-lo, o caminhante não está perdido se souber ler as estrelas. Por isso, se não é sensato desenhar um roteiro teórico, também não é prudente caminhar de olhos fechados e mente vazia, ao deus-dará (porque “deus não dá”)!
A gente acredita – mostrou que acredita – na capacidade do SYRIZA para ver e interpretar as dificuldades e as possibilidades. E, sobretudo, a coragem de as assumir. Em nome do povo grego mas também “da Europa que está contra a austeridade”, como ele disse.
Neste sentido, já valeu a pena que a Grécia falasse.
Nota: A imagem inicial é uma foto-montagem
a partidos da "esquerda radical" como o SYRIZA , absorverem os descontentamentos mais exaltados, evitando assim que se tornem descontrolados, violentos, terroristas ou como queiram chamar-lhes.
A esperança que geram estas correntes a que alguns chamam “extremistas”, é o que evita incêndios e apedrejamentos, sabotagens e atentados – extremismos verdadeiros.
É neste sentido da esperança que Alexis Tsipras proclamou, no seu “discurso de vitória” o primado da dignidade sobre a humilhação, a recusa da submissão sem perda de responsabilidade, o respeito recíproco, a urgência de “tratar as feridas da catástrofe”, a atenção à voz do eleitorado contra “a voz da “troika” e da austeridade”…
São questões de princípio, é certo, mas é a falta destes princípios que tem arruinado as economias europeias, que tem empobrecido as populações. Comparadas com o discurso recente de Obama, estas simples questões de princípio são um tratado político.
“O caminho faz-se caminhando”, como dizia António Machado. Mas ao fazê-lo, o caminhante não está perdido se souber ler as estrelas. Por isso, se não é sensato desenhar um roteiro teórico, também não é prudente caminhar de olhos fechados e mente vazia, ao deus-dará (porque “deus não dá”)!
A gente acredita – mostrou que acredita – na capacidade do SYRIZA para ver e interpretar as dificuldades e as possibilidades. E, sobretudo, a coragem de as assumir. Em nome do povo grego mas também “da Europa que está contra a austeridade”, como ele disse.
Neste sentido, já valeu a pena que a Grécia falasse.
Nota: A imagem inicial é uma foto-montagem
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2015/01/23
Trauma de guerra financeira
Quando eu estava na guerra, nós levávamos sempre uma bazuca connosco nas operações. Não funcionava, é certo, mas era suposto que assustasse o inimigo…!
Foi o que me ocorreu quando ouvi dizer que o BCE se prepara para usar a bazuca para defender a moeda única. Isto é, que O Banco Central Europeu vai comprar dívida no valor de 60 mil milhões de euros por mês aos bancos dos países da Zona Euro.
Quando a Grécia está a dias de rejeitar democraticamente as políticas da União Europeia, na sequência de imposições destrutivas dos estados, de sacrifícios intoleráveis das populações e de ameaças arrasadoras em relação às eleições do próximo domingo, o Banco Central Europeu (BCE) revela agora - ó segredo bem guardado - que não havia necessidade…!
Não podia ser mais oportuno, digo, oportunista.
Face à coragem do povo grego em confrontar Merkel e o seu califado neoliberal, com o desprezo e a repulsa populares, desferindo um golpe democrático incalculável na União Europeia, esta já abre os cordões à bolsa e tira de lá uma “bazuca” financeira de 1.140 mil milhões de Euros!. Afinal, "temos que pagar a dívida" mas…!
Entretanto, as medidas milagrosas anunciadas por Mario Draghi, a que alguém chamava “pós-traumáticas”, fazem pensar:
1) Quanto ao aproveitamento dos recursos europeus em Portugal, a gente lembra-se do que aconteceu ao dinheiro que veio da CEE quando o actual Presidente da República era Primeiro-Ministro. Além da corrupção nunca condenada, só serviu para enriquecer os marajás. Isto é, o BCE vai ajudar os bancos! E eu?
2) O euro desvaloriza, logo os preços sobem! Isto é, o custo de vida aumenta. Obrigado!
3) A inflacção que “deverá” resultar desta medida, deveria trazer aumentos salariais e correspondente aumento do poder de compra. Pois era, mas a gente sabe que não traz aumentos, até porque “não podemos voltar a cair no facilitismo blá blá blá”!
4) Haverá um aumento do investimento externo, devido à descida dos preços na exportação – diz-se. E será feito por quem e onde, uma vez que a medida abrange todos os países da zona euro?
5) As taxas de juros descem. Pois, mas isso não basta para que as empresas invistam se os seus produtos não tiverem procura! E as famílias não vão pedir empréstimos para consumo, neste contexto de austeridade.
Enfim, esta bazuca não me oferece muita confiança. Mas talvez isto seja o meu trauma de guerra.
Foi o que me ocorreu quando ouvi dizer que o BCE se prepara para usar a bazuca para defender a moeda única. Isto é, que O Banco Central Europeu vai comprar dívida no valor de 60 mil milhões de euros por mês aos bancos dos países da Zona Euro.
Quando a Grécia está a dias de rejeitar democraticamente as políticas da União Europeia, na sequência de imposições destrutivas dos estados, de sacrifícios intoleráveis das populações e de ameaças arrasadoras em relação às eleições do próximo domingo, o Banco Central Europeu (BCE) revela agora - ó segredo bem guardado - que não havia necessidade…!
Não podia ser mais oportuno, digo, oportunista.
Face à coragem do povo grego em confrontar Merkel e o seu califado neoliberal, com o desprezo e a repulsa populares, desferindo um golpe democrático incalculável na União Europeia, esta já abre os cordões à bolsa e tira de lá uma “bazuca” financeira de 1.140 mil milhões de Euros!. Afinal, "temos que pagar a dívida" mas…!
Entretanto, as medidas milagrosas anunciadas por Mario Draghi, a que alguém chamava “pós-traumáticas”, fazem pensar:
1) Quanto ao aproveitamento dos recursos europeus em Portugal, a gente lembra-se do que aconteceu ao dinheiro que veio da CEE quando o actual Presidente da República era Primeiro-Ministro. Além da corrupção nunca condenada, só serviu para enriquecer os marajás. Isto é, o BCE vai ajudar os bancos! E eu?
2) O euro desvaloriza, logo os preços sobem! Isto é, o custo de vida aumenta. Obrigado!
3) A inflacção que “deverá” resultar desta medida, deveria trazer aumentos salariais e correspondente aumento do poder de compra. Pois era, mas a gente sabe que não traz aumentos, até porque “não podemos voltar a cair no facilitismo blá blá blá”!
4) Haverá um aumento do investimento externo, devido à descida dos preços na exportação – diz-se. E será feito por quem e onde, uma vez que a medida abrange todos os países da zona euro?
5) As taxas de juros descem. Pois, mas isso não basta para que as empresas invistam se os seus produtos não tiverem procura! E as famílias não vão pedir empréstimos para consumo, neste contexto de austeridade.
Enfim, esta bazuca não me oferece muita confiança. Mas talvez isto seja o meu trauma de guerra.
2015/01/03
António Costa e Papandreu,
a mesma luta !
Para que o Partido Comunista, em Portugal, e o Syrisa, na Grécia, não beneficiem do descontentamento popular que é gerado pelas políticas neo-liberais dos partidos social-democratas (PSD e PS), os partidos “Socialistas” dos dois países introduzem no panorama partidário um elemento de confusão, uma suposta alternativa às verdadeiras alternativas – uma nova direcção ou um novo partido, “agora sim”, para corresponder aos sentimentos e anseios dos cidadãos.
“É tempo para construir, em conjunto, uma nova casa política que acolha os valores progressistas, os valores que nos unem”, diz Geórgios Papandreu como se o Syrisa não fosse claramente essa nova casa, com a vantagem de já acolher a confiança dos cidadãos, de já ter construído um espaço capaz de disputar com vantagem o próximo Governo da Grécia. Mas Papandreu, divergindo oficialmente do seu partido socialista, o Pasok, faz de conta que o Syrisa não existe!
Nas eleições parlamentares de Maio de 2012, o Pasok foi fortemente reprovado pelos eleitores, ficando-se por 12,28%, devido à sua política de alinhamento com a “troika” internacional e às violentas políticas anti-populares associadas. O Syrisa ascendeu então a uma posição inesperada e apresenta-se agora com fortes possibilidades de vencer as eleições de 25 de Janeiro.
O SYRISA (Coligação da Esquerda Radical), com uma ideologia anti-liberal e de ruptura com o sistema bi-partidário, não sendo um partido comunista, afigura-se para os partidos social-democratas como um seu equivalente nas circunstâncias actuais.
A questão é que, na Grécia, é o Syrisa que ameaça o sistema, e não o Partido Comunista Grego. Este foi reduzido a 4,5% nos resultados eleitorais de 2012, enquanto o Syrisa, com 26,89%, ficou a menos de 3% de distância do partido mais votado e tudo indica que ganhará as próximas eleições.
A estratégia dos partidos “Socialistas” para desviar as correntes revolucionárias, nomeadamente para filtrar a influência dos partidos comunistas nas “massas populares”, já vem de longe. Vem da fundação da II Internacional em 1889, posteriormente designada “Internacional Socialista”.
No contexto português em curso, o lançamento de António Costa para contrariar a tendência de crescimento do PCP já iniciada nas eleições europeias, é a expressão dessa estratégia do Partido Socialista. Por isso é tão bem tolerado pela direira.
António Costa e o PS estão no seu direito, entenda-se. Em democracia, todos os partidos e movimentos têm o direito de defender os seus programas e de se oporem politicamente aos outros. O que não têm é a mesma moral. Era disto que falava Álvaro Cunhal quando invocava “a superioridade moral dos comunistas” – moral de classe, entenda-se. E não cabe aqui apenas um juízo de valor, é sobretudo um juízo de facto sobre o apoio das bases do PS e sobre a própria vontade de A. Costa.
A foto inicial é uma montagem para este blogue.
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2013/09/23
Da crise à troika (II)
A crise norte-americana contagiou inevitavelmente a economia
mundial e desencadeou a crise financeira internacional.
Num contexto de economia globalizada como aquele que vivemos, a quebra de confiança, aliás justificada, no sistema financeiro internacional, faria prever as consequências mais graves a todos os níveis.
O fantasma da crise de 1929, também conhecido por Grande Depressão, pairou no imaginário colectivo de forma mais ou menos assumida e não está de modo algum eliminado. Os sintomas são demasiado semelhantes para serem ignorados.
Os governos injectam dinheiros públicos nas instituições financeiras para salvá-las e recuperar a confiança dos depositantes e dos mercados, e adoptam políticas fiscais e monetárias para incentivar a produção, o consumo interno e as exportações. Por seu lado, instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio articulam-se para apoiar os governos dos países mais necessitados mediante a inposição de regras.
Na Europa, em particular, a crise foi causada pela dificuldade de alguns países do continente em pagar as suas dívidas.
O crescimento económico da Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, nomeadamente, não gera recursos suficientes para pagar os empréstimos dos seus credores, acumulados durante décadas. O risco de incumprimento é visível e tem consequências que ultrapassam a própria zona euro. Na Grécia, por exemplo, o primeiro-ministro George Papandreou foi o primeiro a assumir que a Grécia não tinha mais condições de pagar as suas contas.
Os investidores reagiram de imediato, exigindo maiores rentabilidades sobre os títulos da Grécia, o que elevou o custo dos encargos da dívida do país e exigiu uma série de salvamentos pela União Europeia (UE) e Banco Central Europeu (BCE). A partir do episódio grego, o mercado passou a exigir maiores rentabilidades sobre os títulos dos outros países endividados da região, tentando antecipar problemas semelhantes ao que ocorreu na Grécia.
"Para tentar equilibrar a economia dos países em maior dificuldade", a troika (FMI, BCE e CE) adoptaram medidas que se traduzem na libertação de uma série de empréstimos, os famosos pacotes de resgate, mas que são acompanhados de pacotes de austeridade em matéria de governação política que muitos consideram estrangular a capacidade de sobrevivência do país, para além dos mostruosos efeitos sociais.
O presidente do Eurogrupo afirmava há um mês que a Grécia precisará de um terceiro resgate no próximo ano, a juntar aos 240 mil milhões de euros que o país já recebeu das instituições internacionais desde o início da crise. Angela Merkel e o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble o haviam defendido, aliás.
Uma vez mais se poderá dizer que "Portugal não é a Grécia", mas o percurso do nosso país, pesem embora essas diferenças, levar-nos-há a outro destino?
Próximo post: parte III - Portugal
Num contexto de economia globalizada como aquele que vivemos, a quebra de confiança, aliás justificada, no sistema financeiro internacional, faria prever as consequências mais graves a todos os níveis.
O fantasma da crise de 1929, também conhecido por Grande Depressão, pairou no imaginário colectivo de forma mais ou menos assumida e não está de modo algum eliminado. Os sintomas são demasiado semelhantes para serem ignorados.
Os governos injectam dinheiros públicos nas instituições financeiras para salvá-las e recuperar a confiança dos depositantes e dos mercados, e adoptam políticas fiscais e monetárias para incentivar a produção, o consumo interno e as exportações. Por seu lado, instituições internacionais como o FMI, o Banco Mundial e a Organização Mundial de Comércio articulam-se para apoiar os governos dos países mais necessitados mediante a inposição de regras.
Na Europa, em particular, a crise foi causada pela dificuldade de alguns países do continente em pagar as suas dívidas.
O crescimento económico da Grécia, Portugal, Irlanda, Itália e Espanha, nomeadamente, não gera recursos suficientes para pagar os empréstimos dos seus credores, acumulados durante décadas. O risco de incumprimento é visível e tem consequências que ultrapassam a própria zona euro. Na Grécia, por exemplo, o primeiro-ministro George Papandreou foi o primeiro a assumir que a Grécia não tinha mais condições de pagar as suas contas.
Os investidores reagiram de imediato, exigindo maiores rentabilidades sobre os títulos da Grécia, o que elevou o custo dos encargos da dívida do país e exigiu uma série de salvamentos pela União Europeia (UE) e Banco Central Europeu (BCE). A partir do episódio grego, o mercado passou a exigir maiores rentabilidades sobre os títulos dos outros países endividados da região, tentando antecipar problemas semelhantes ao que ocorreu na Grécia.
"Para tentar equilibrar a economia dos países em maior dificuldade", a troika (FMI, BCE e CE) adoptaram medidas que se traduzem na libertação de uma série de empréstimos, os famosos pacotes de resgate, mas que são acompanhados de pacotes de austeridade em matéria de governação política que muitos consideram estrangular a capacidade de sobrevivência do país, para além dos mostruosos efeitos sociais.
O presidente do Eurogrupo afirmava há um mês que a Grécia precisará de um terceiro resgate no próximo ano, a juntar aos 240 mil milhões de euros que o país já recebeu das instituições internacionais desde o início da crise. Angela Merkel e o seu ministro das Finanças, Wolfgang Schäuble o haviam defendido, aliás.
Uma vez mais se poderá dizer que "Portugal não é a Grécia", mas o percurso do nosso país, pesem embora essas diferenças, levar-nos-há a outro destino?
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