2012/04/12

Educado para o mercado

Não tenho que preocupar-me em ser sério mas sim eficiente. As minhas virtudes são pueris; o meu sucesso económico, se o alcançar, esse sim é a minha glória. Sou uma criação do Estado para servir o Estado.

Eu não sou um homem com sentimentos e necessidades próprias, com valores e dignidade, membro solidário de uma sociedade; eu sou um instrumento produtivo, uma máquina, se necessário sou também um guerreiro, uma arma; eu faço parte das forças produtivas e o meu valor é aferido pelo rendimento que dou no mercado de trabalho, eu sou mercadoria.

Foi para isso que fui instruído na escola - não para aprender a viver ou a sobreviver, mas sim para aprender a produzir, a render na profissão que me couber. Não fui ensinado a lidar com a minha saúde, com as leis que me regem e com os caminhos da vida; fui ensinado a cuidar da saúde das empresas, dos interesses dos empresários e da captação de lucros. Nem medicina nem filosofia – engenharia e comércio.

Não perguntem a um médico como se opera um rasgão no seu casaco; não perguntem a um engenheiro como se constroi uma relação feliz; não perguntem a um economista como se alimenta e vive uma família cujos rendimentos não chegam para as despesas elementares. Eles têm coisas “mais importantes” para fazer – a bem do país, por assim dizer.


Um dia deixarão de ser doutores e engenheiros, funcionários competentes, colaboradores indispensáveis. Dar-se-ão conta disso quando lhes chamarem reformados ou, antes disso, excedentários”.

Sobreviventes ao prazo de validade, fantasmas do sistema, máquinas ferrugentas, estorvos do Serviço Nacional de Saúde, serão um problema para o Governo resolver. Não me admira que os nosso governantes, às ordens de quem os governa, porventura, decretem numa noite destas, em segredo:

Ninguém será cremado ou sepultado após a sua morte. O seu corpo será lançado no mercado, orgão a orgão, depois de avaliado, para ajudar a pagar as dívidas e alcançarmos o ajustamento de que “o país” tanto necessita.

Ficam dispensados desta obrigação, aqueles cujas famílias indemnizem o Estado para o efeito, através de uma multa de X milhares de euros.

2012/04/09

Subversões virtuosas

Agora que Victor Gaspar, ministro das nossas finanças, deu em fazer humor nas suas respostas aos deputados, para se libertar da rigidez formal com que inaugurou o seu mandato, ocorre-me lembrar a importância da ironia no confronto político.

Não o faço para apoiar o co-autor da ordem vigente, VG, mas sim para homenagear aqueles que usam a ironia de forma virtuosa contra a lógica autoritária, nomeadamente os artistas, de forma elevada, os subversivos, de forma corajosa, e os bêbados, da forma que adiante se vê.

2012/04/08

Porque hoje é domingo (14)

... de Páscoa

Não posso deixar de desejar
a todos os portugueses uma Páscoa feliz na companhia do coelho que escolheram para o efeito. O coelho da Páscoa, sim, o que põe ovos.

E, por ovos, vamos ao princípio.

Maria Madalena, que tudo indica ser mulher solteira ou viúva sem filhos, é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”. Vê que foi retirada a pedra que fechara o sepulcro. Corre então para Simão Pedro e João. “Retiraram o Senhor do sepulcro..." - diz ela sem saber o que se passou de facto . "Maria não olhou para dentro, ela se inclina para ver dentro, somente na segunda vez que vai ao sepulcro" (v.11).

Uma lenda que corria naquele tempo dizia que de noite roubavam o corpo do defunto (Mt 28,13 - 15). Nos nossos dias o roubo seria feito na véspera de um fim-de-semana ou de um feriado. Mas... «ao chegar ao lugar, os discípulos examinaram tudo e compreenderam que “os ladrões não teriam tanto tempo para desenrolar o morto e dobrar o sudário como foi encontrado"(V.7)». Curiosamente não demoraria tempo nenhum a tirar o calhau que fechava a gruta - digo eu.

É claro que há aqui matéria controversa que deixo ao cuidado da Procuradoria Geral da República mandar investigar. Entretanto, para facilitar o trabalho da Polícia Judiciária, posso adiantar que Madalena suspeitou de que fosse o jardineiro quem levou o corpo, chegando a interrogá-lo nestes termos:"Se foste tu que o levaste, diz-me ... e eu irei buscá-lo.” (v. 15).

Importa também adiantar sobre a fiabilidade do testemunho desta Madalena, que era uma mulher da qual Jesus tinha expulsado sete demónios, o que, em termos modernos, significa que não era boa... da cabeça. Mais consta num trecho do evangelho apócrifo de Filipe [32]: três eram as que caminhavam continuamente com o Senhor: sua mãe Maria, a irmã desta e Madalena a quem se designa como companheira. [koinonós]... Mas não vamos por aqui.

Onde eu queria chegar com este exemplo de contradições era que, um lapso, qualquer pode ter, quanto mais o Ministro das Finanças, um dos 12 discípulos de Cavaco Silva. Mas também para dizer que no fim de 2013, quando os portugueses forem espreitar a luz anunciada ao fundo do túnel, não encontrarão senão um país escuro e vazio, que é como quem diz triste e falido.

Porém, haverá sempre os incapazes de aceitar a realidade, proclamando que o país ressuscitou... para quem tiver fé ou imaginação.

Ou visões delirantes - digo eu.

2012/04/05

Nunca houve subsídios
de Férias e de Natal

Enquanto se discutem os cortes ilegais dos chamados subsídios de férias e de Natal, trago à reflexão um assunto que toda a gente sabe mas que uma parte finge não saber.

As remunerações dos trabalhadores são negociadas entre sindicatos e empresas em termos anuais e nunca em termos mensais. Não há subsídios de férias e de Natal! O que há é uma forma de pagamento das remunerações anuais que é repartida desigualmente durante o ano.

Nessas negociações dos acordos colectivos de trabalho, há um capítulo designado de “Tabelas Salariais” e é aí que a remuneração anual de cada categoria profissional é negociada. Se uma dada categoria profissional aufere 10.000 euros por ano, pouco importa para as contas da empresa, se esse valor é pago em prestações iguais ou desiguais. Mas já faz toda a diferença que o trabalhador receba o total acordado, isto é, 12 vezes 12 avos (10.000 €) ou 12 vezes 14 avos (8.571 €).

Pagar o mesmo valor anual em doze prestações desiguais não dá qualquer legitimidade a que se chame “subsídios” às prestações mais altas. Continuar a falar em subsídios, neste caso, cumpre porém uma função falaciosa: dá a entender que se trata de um donativo extra. É por isto que me parece vantajoso que as retribuições anuais sejam pagas de forma igual pelos doze meses do ano. O trabalhador recebe o mesmo, o patrão paga o mesmo e os subsídios desaparecem!

2012/04/02

Cuidado com os gatunos

Com tantas caixas de multibanco que há por aí espalhadas, o Estado assalta o nosso mealheiro.

A NOTÍCIA
«Os agricultores vão ter uma redução de seis meses
nos pagamentos à Segurança Social».


COMENTÁRIO
E aqueles que andaram a descontar dos seus ordenados, toda a vida, para a Segurança Social, deram autorização para que alguns, só porque são tradicionalmente eleitores do CDS, deixassem de pagar a sua parte?

Os agricultores, sendo empresários e proprietários, não deveriam tratar o problema do seu negócio, junto da Banca, em vez de afectarem o mealheiro colectivo? Ou não foi para isso que o Governo "injectou" milhões de euros nos bancos? - dinheiro dos impostos que nos cobra, uma vez mais!

O Estado já é bom quando serve para tirar dinheiro aos trabalhadores e dar aos empresários e banqueiros?

2012/03/30

Há riscos - dizem eles.

Finalmente as artes têm lugar no discurso político.
Vamo-nos habituando a ouvir os governantes dizerem que a política seguida é boa mas "há riscos". E eu penso em Nadir Afonso (em cima) e Vieira da Silva (em baixo).