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2020/03/18

"Semana Santa" de 2020

Nesta semana haverá lava-mãos em vez de lava-pés? Pode ser que a Igreja aproveite para dar sinais de actualização.

Até porque Jesus deixava que outros (outras) lhe lavassem os pés com perfume - caso de Maria Betânia, irmã de Lázaro e não de Caetano.

2018/04/01

Porque hoje é domingo (94)

Que perigo representava Jesus para as autoridades da época, que as levou a persegui-lo até à morte? Afinal, profetas como ele que se diziam ser o Messias anunciado no Antigo Testamento, havia e houvera muitos. E ele nem sequer ambicionava tomar o poder – o poder político, entenda-se. Ou sim?

Cabe lembrar que já naquela altura a Palestina lutava contra um ocupante – não Israel, como agora, mas o Império Romano. E que Jesus nasceu na pátria ocupada.

Jesus, com mais legitimidade do que Trump, dirigia-se para Jerusalém, no dia que hoje se celebra, sendo então proclamado Rei. Não é de estranhar que isto tivesse um significado político se nos lembrarmos que o rei David, de quem Jesus era descendente, a seu tempo conquistou Jerusalém! – a fazer fé no que diz a Bíblia.

Se existe uma cidade que possa designar-se capital da violência religiosa, talvez seja Jerusalém. Donald Trump, esse profeta apocalíptico tal como Jesus e João Baptista, proclamou por estes dias, ele próprio, que Jerusalém é capital de Israel.

Esforça-se a Igreja em interpretar que no caso de Jesus se tratava de um reinado meramente espiritual – o reino de Deus. Um Jesus político destinado a resgatar a independência dos judeus, como sugere a inscrição que será afixada sobre a sua cruz “JNRJ” (Jesus Nazareno Rei dos Judeus), entraria em contradição com a sua afirmação “a Deus o que é de Deus e a César o que é de César”. Isto para já não falar do descontentamento que causaria aos republicanos (futuros) a ideia de que o Filho de Deus era monárquico...

Fosse por razões políticas ou religiosas ou ambas, andavam os sacerdotes e os escribas atarefados em perseguir Jesus. Foi então que Judas Iscariotes, traindo aquele que seguia até aí como apóstolo, se prestou a indicar aos perseguidores quem eles procuravam. Nada que o perseguido não tivesse previsto e anunciado: "Em verdade vos digo: Um de vós, que está comigo à mesa, há-de entregar-Me".

Portanto, o que ficou sempre a intrigar alguns entre os quais me incluo, é se esta morte, que veio a ocorrer, se deveu a razões religiosas ou políticas, como já referi. Mas certamente que Donald Trump nos virá esclarecer no seu twitter.

(Este post foi refeito às 23h00 de 1 de Abril de 2018)

2014/04/20

Porque hoje é domingo (48)

... de Páscoa.


Quando Jesus nasceu, nasceu com ele uma nova esperança na luta do povo judeu contra a dominação romana. A visita dos três “reis magos” fazia parte desse plano independentista. Mas a divinização de Jesus, fosse de quem fosse a ideia – do próprio, por razões espirituais, ou dos reis por razões estratégicas – deu no que deu: uma seita religiosa sem ambições políticas. O Messias trocou a salvação das nações oprimidas pela salvação das almas e recusou a luta de libertação nacional: “a César o que é de César; a Deus o que é de Deus” – diria.

Quem assumiu o confronto com o império foi, entre outros, Barrabás. Se Marcos ou João, santos evangelistas que relataram os factos, fossem abertos ao contraditório argumentativo, é provável que tivessem registado deste militante judaico esta resposta: “ao Povo o que é do Povo!”. Mas não conveio à cristandade que a luta heroica dos rebeldes ofuscasse o protagonismo do Salvador na narrativa sempre parcial da História pelo que apenas podemos vislumbrar a preferência popular pela estratégia da luta armada, quando o juiz Pilatos perguntou ao Povo quem queriam que fosse libertado, e este escolheu o Barrabás e não Jesus.

Foi assim, ao que consta, que Jesus foi morto na passada sexta-feira. A notícia boa é que no mesmo dia Barrabás foi libertado. Mas se considerarmos que Cristo teria ressuscitado uns três dias depois, sendo Maria Madalena a primeira a sabê-lo, é caso para pensar que foi tudo planeado.

O que interessa, parafraseando os revolucionários venezuelanos, é que: Cristo vive; la luta sigue!

2012/04/08

Porque hoje é domingo (14)

... de Páscoa

Não posso deixar de desejar
a todos os portugueses uma Páscoa feliz na companhia do coelho que escolheram para o efeito. O coelho da Páscoa, sim, o que põe ovos.

E, por ovos, vamos ao princípio.

Maria Madalena, que tudo indica ser mulher solteira ou viúva sem filhos, é a primeira a dirigir-se ao túmulo de Jesus, ainda o sol não tinha nascido, na manhã do “primeiro dia da semana”. Vê que foi retirada a pedra que fechara o sepulcro. Corre então para Simão Pedro e João. “Retiraram o Senhor do sepulcro..." - diz ela sem saber o que se passou de facto . "Maria não olhou para dentro, ela se inclina para ver dentro, somente na segunda vez que vai ao sepulcro" (v.11).

Uma lenda que corria naquele tempo dizia que de noite roubavam o corpo do defunto (Mt 28,13 - 15). Nos nossos dias o roubo seria feito na véspera de um fim-de-semana ou de um feriado. Mas... «ao chegar ao lugar, os discípulos examinaram tudo e compreenderam que “os ladrões não teriam tanto tempo para desenrolar o morto e dobrar o sudário como foi encontrado"(V.7)». Curiosamente não demoraria tempo nenhum a tirar o calhau que fechava a gruta - digo eu.

É claro que há aqui matéria controversa que deixo ao cuidado da Procuradoria Geral da República mandar investigar. Entretanto, para facilitar o trabalho da Polícia Judiciária, posso adiantar que Madalena suspeitou de que fosse o jardineiro quem levou o corpo, chegando a interrogá-lo nestes termos:"Se foste tu que o levaste, diz-me ... e eu irei buscá-lo.” (v. 15).

Importa também adiantar sobre a fiabilidade do testemunho desta Madalena, que era uma mulher da qual Jesus tinha expulsado sete demónios, o que, em termos modernos, significa que não era boa... da cabeça. Mais consta num trecho do evangelho apócrifo de Filipe [32]: três eram as que caminhavam continuamente com o Senhor: sua mãe Maria, a irmã desta e Madalena a quem se designa como companheira. [koinonós]... Mas não vamos por aqui.

Onde eu queria chegar com este exemplo de contradições era que, um lapso, qualquer pode ter, quanto mais o Ministro das Finanças, um dos 12 discípulos de Cavaco Silva. Mas também para dizer que no fim de 2013, quando os portugueses forem espreitar a luz anunciada ao fundo do túnel, não encontrarão senão um país escuro e vazio, que é como quem diz triste e falido.

Porém, haverá sempre os incapazes de aceitar a realidade, proclamando que o país ressuscitou... para quem tiver fé ou imaginação.

Ou visões delirantes - digo eu.

2007/04/06

Páscoa sem ovos



Nesta quadra religiosa não resisto a invocar aqui,
ainda que muito resumido,o famoso Sermão de Santo António na Assembleia da República:

Vós sois o sal da terra – diz Cristo aos pregadores!


O efeito do sal é impedir a corrupção, mas quando a terra se vê tão corrupta como está a nossa, havendo tantos nela que têm ofício de sal, qual será a causa desta corrupção?

Ou é porque o sal não salga ou porque a terra se não deixa salgar, ou os pregadores não pregam a verdadeira doutrina ou os ouvintes a não querem receber, ou os ouvintes querem antes imitar o que eles fazem do que fazer o que eles dizem…

Se o sal perder a substância e a virtude e o pregador faltar à doutrina e ao exemplo, o que se lhe há-de fazer é lançá-lo fora como inútil…

E à terra que se não deixa salgar que se lhe há-de fazer? Como fez Santo António: mudou o pregador de púlpito e de auditório».

Notas finais:

1. Esta referência do Padre António Vieira é muito anterior à saída do Governo, quer de António Guterres quer de Durão Barroso;
2. Como é sabido, Santo António foi pregar aos peixes de quem disse terem duas boas qualidades: ouvir e não falar!
3. António Vieira nasceu em Lisboa em 6 de Fevereiro de 1608 – aquariano e alfacinha, portanto.