2016/01/14

As horas de trabalho

Aumentar o número de horas de trabalho, é impor trabalho não-pago.

Os acordos salariais que são celebrados pelos trabalhadores com as empresas ou com o Estado, não se limitam a estabelecer os rendimentos, mas também o tempo de trabalho associado a esses rendimentos. Uma coisa é ganhar dez mil euros por 1630 horas de trabalho, outra coisa é ganhar o mesmo por 1840 horas!

No primeiro exemplo, que reflecte a opção PSD/CDS, o salário/hora é de € 5,43 enquanto no segundo exemplo, que reflecte a opção PS/BE/PCP/PEV, o salário/hora é de € 6,13. Melhor dizendo, esta segunda opção não é senão a que estava em vigor até à intervenção abusiva do governo de Passos Coelho.

Quando os trabalhadores negoceiam, aceitam os valores salariais em associação com as horas de trabalho e com outros valores eventuais, como subsídios de refeição, de transporte ou outros complementos. Isto é: aceitam aquelas remunerações em função dos benefícios que lhes estejam associados. Alterar essas compensações dos salários é alterar indirectamente os próprios salários.

É neste contexto que se podem fazer comparações entre tabelas salariais de diferentes sectores laborais ou entidades empregadoras.


O que a maioria de esquerda faz, neste aspecto, é respeitar os acordos fixados em devido tempo e em sede própria, nomeadamente a reposição do horário semanal das 35 horas na Administração Pública. É repor a legalidade onde ela foi violada.

2016/01/12

Desconcertando a Concertação Social

A «descoberta» da concertação social pela social-democracia no pós-guerra teve os mesmos objectivos que tem hoje: paralisar a acção reivindicativa de massas, integrar os sindicatos no sistema, numa fase de ascenso do movimento operário.

A «descoberta» da concertação social pela social-democracia no pós-guerra teve os mesmos objectivos que tem hoje: paralisar a acção reivindicativa de massas, integrar os sindicatos no sistema, numa fase de ascenso do movimento operário.

Excertos de um texto  de Domingos Abrantes, em O Militante de Novembro de 2015.

Domingos Abrantes é um destacado e histórico dirigente do PCP. Foi deputado à AR de 1976 a 1991. Em 18 de Dezembro de 2015 foi escolhido para integrar o Conselho de Estado.

2015/12/31

Profissão: canivete suíço

Vou com frequência ao Centro Comercial Arrábida, em Gaia, por razões de proximidade, de comodidade e de qualidade – como se diria em Marketing.

Há tempos tomei café num dos muitos balcões que se estendem e espalham pela área de “restauração”, situada no piso superior.

O café sabia a queimado mas eu admiti que fosse uma vez, por azar, e voltei lá mais tarde. O empregado era o mesmo e eu tive o cuidado de recomendar que não se repetisse o mau sabor da vez anterior. Mas repetiu-se.

Ao pagar, chamei a atenção para o incidente repetido e sujeitei-me a ouvir, como resposta que ninguém se tinha queixado antes! O empregado ficou satisfeito por me fazer ver que o problema estava em mim e eu, da vez seguinte, fui tomar café a outro lado.

Dias mais tarde, fui ao mesmo Centro Comercial para almoçar. Muita variedade, preços acessíveis…

Reparei no bom aspecto do peixe que se exibia numa das montras, e foi o que pedi. Adiantei logo o pagamento do café que iria buscar no fim da refeição e assim foi.

Depois de comer um peixe que de fresco tinha pelo menos a temperatura a que foi servido, voltei ao balcão a pedir o café. O empregado transmitiu a ordem para outro que veio trazê-lo. Sabem quem era? O mesmo que me havia atendido com alguma displicência uns dias antes no outro balcão! Ao que parece o empregado foi corrido, e bem, da loja anterior, e encontrou aqui quem o acolhesse.

A minha segunda surpresa foi que o café sabia a água. Claro que não fui reclamar. Nem voltei lá.

O terceiro episódio não tem nada. digo quase nada a ver com os anteriores. Passou-se no piso intermédio, numa loja de calçado.

O calçado dispõe-se ao longo de um espaço amplo, por cima de caixas que se amontoam. Tudo está feito para que o cliente disponha sem precisar de ajuda. Mas há alguns empregados que deambulam pela sala, a oferecer ajuda. Eu fixei-me, a dada altura, nuns sapatos castanhos com aspecto robusto como a época requer. 

Enquanto me debruçava para procurar nas caixas do fundo o número que me servia, fui surpreendido por uma voz que perguntava: “Precisa de ajuda?”. “Estou a procurar…” – e, dizendo isto, ergo-me e encaro, ó Deus, o mesmo empregado dos cafés mal servidos. O desgraçado, incompetente para servir cafés, encontrara um serviço mais rasteiro, por assim dizer. E eu fugi daquela sapataria como foge Deus do diabo ou vice-versa.

Continuo a frequentar o Centro Comercial Arrábida pelas razões apresentadas inicialmente. Afinal, vender cafés, sapatos, telemóveis, flores, relógios ou títulos bancários, não faz qualquer diferença desde que o profissionalismo foi banido em proveito da “flexibilidade”, do “trabalho temporário”, da “competitividade”.

Adeus à competência.
Viva o canivete suíço!


Imagem recortada em rubipresentes.com.br

2015/12/20

Falência monetária internacional

O Fundo Monetário Internacional (FMI) assume falhas nos programas de "ajustamento" que ajudou a implementar durante os últimos sete anos, e de que Portugal é uma das vítimas mais evidentes. 
(Ler, p.e., no Público)

Não são raros os países em que “as ajudas” do FMI se traduziram na falência económica e na degradação democrática dos mesmos. Está demonstrado que o faz intencionalmente, para condicionar as opções políticas nacionais.

Também não são raras as auto-críticas emanadas do FMI acerca das suas intervenções. Mas… tais críticas não se traduzem pela rectificação da sua estratégia; são rapidamente seguidas de novas medidas práticas de empobrecimento dos países intervencionados!

Que coisa é esta?

Com sede (física e política) nos Estados Unidos da América (EUA), o FMI foi criado para estabilizar as economias saídas da 2ª Guerra Mundial, elevar o crescimento económico sustentável e o emprego e reduzir a pobreza em todo o mundo. Em bom rigor, o seu objectivo fundamental era o de promover a estabilidade do sistema monetário internacional com base no dólar.

«Teoricamente, os governadores elegem o presidente do FMI, porém, na prática, o presidente do Banco Mundial (Bird) é sempre um cidadão dos Estados Unidos, escolhido pelo governo norte-americano». (Wikipedia)

O poder de voto depende da contribuição de cada país que, por sua vez, é calculada em função do respectivo Produto Interno Bruto (PIB). A Portugal corresponde 0,43% em comparação com perto de 17,5% dos EUA, por exemplo! França, Reino Unido e Alemanha correspondem a níveis de 5 a 6% aproximadamente.

O papel dominante dos EUA determina que a instituição seja refém dos interesses específicos e dos valores daquele país, nomeadamente no domínio económico-financeiro e no domínio geoestratégico.