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2016/09/24

Da Rússia contra a Rússia



José Milhazes, nostálgico da União Soviética que tanta falta faz para estimular os sus clientes, assume ainda assim a missão religiosa de combater os partidos comunistas do Minho aos Urais, e ocupa um lugar no altar do Observador. É o que ele sabe fazer!

O José Milhazes mostra definitivamente ao que vem, o que o move. Qual filho pródigo, regressa com a batina de jornalista e vê em Fátima, qual pastorinho de antenho, a salvação da sua obra. 

Com alguma sorte ainda o veremos entrar para um convento e fazer voto de silêncio. Amén.

A imagem apresentada é uma composição deste blogue

2014/08/27

Avante com a festa

Nascido como eu a 15 de Fevereiro (passe a ironia) mas de 1931, o jornal Avante tem a sua festa no fim do período normal de férias, seja porque nessa altura as instituições políticas retomam o seu funcionamento regular, seja porque essa é a mais favorável à construção da Festa e à adesão de visitantes.

A festa deste ano como acontece todos os anos, naturalmente, reflectirá nas participações artísticas e nas representações internacionais, nomeadamente, a capacidade financeira, a dimensão do prestígio e as simpatias internacionais do PCP.

De resto, é a revisitação da História, a actualidade política e os tradicionais pavilhões literários, artísticos e culturais, bem como as gastronomias regionais. Uma pluralidade de ofertas de géneros para uma pluralidade de públicos: desde os mais políticos aos mais apolíticos, dos mais degustativos aos mais festivaleiros.

Se não é possível conhecer a história da ditadura em Portugal, sem conhecer a história de resistência do PCP, o mesmo se pode dizer da importância do jornal Avante, órgão central do PCP, enquanto veículo de divulgação clandestina das verdades proibidas pelo fascismo português.

Quanto à festa em si, ela não só expressa os sentimentos e as lutas dos militantes do PCP como tem sido objecto, em si mesma, do combate partidário anticomunista, através de formas administrativas de boicote à realização do evento por parte dos governos. A interdição de usar espaços para a Festa, sob diversos pretextos, obrigou o Partido Comunista a uma aventura inimaginável: comprar um terreno próprio para a realização da Festa. E assim o conseguiu, no Seixal, através de uma campanha impensável de recolha de fundos.

Enquanto o combate político em Portugal não se fizer com bombardeamentos, vai ser difícil a certas forças políticas obrigarem novamente os comunistas do PCP a carregar a festa às costas. E ainda bem – no interesse destes, é certo, mas com benefício para todos.

CURIOSIDADE:
como assinavam os doadores no tempo da ditadura:

2014/03/28

O discurso irracional em política

A estratégia liberal-capitalista de empobrecimento das populações que está em curso na Europa, bem precisaria de um o “hair-cut” financeiro na dívida pública de alguns países. Mas o melhor é falar do corte de cabelo de Kim Jong-un, o líder da Coreia do Norte.


A "notícia" diz que o presidente norte-coreano obrigou os cidadãos do país a usar um penteado igual ao seu!

É certo que a loucura é a fase avançada da tirania, como comprova a História. Mas tal disparate deveria fazer hesitar alguns espíritos ávidos de argumentos anticomunistas, em vez de se precipitarem em comentários igualmente disparatados. A menos que os autores das “notícias”, os comentadores e os ditadores sejam todos feitos da mesma massa irracional.

A falsa notícia já foi desmentida e ridicularizada, nomeadamente AQUI, mas não será por isso que a estupidez deixará de fazer o seu caminho. Ou não lhe servisse, à falta de melhor, para justificar a falta de caracter dos seus autores e distribuidores, na política e na vida.

A culpa não é só deles, é certo, que nem sempre os defensores do sistema socialista se distanciam consistente e suficientemente de alguns tiranos, mas a crítica irracional da irracionalidade esvazia-a de eficácia. E é pena.

Quanto ao que move a Coreia do Norte, segundo o seu próprio ponto-de-vista, é a convicção de que, se a Coreia do Norte descuidasse a sua defesa, os Estados Unidos da América fariam no seu país o que fizeram no Afeganistão, no Iraque ou na Líbia – ocupariam o país para apoderar-se dos seus recursos e zonas estratégicas.

E neste ponto até não é difícil admitir que seja verdade. Outra coisa é que o “inimigo comum”, real ou imaginário, conforme os casos, seja o grande amigo das políticas repressivas. Seja ele o imperialismo ou o comunismo.

2010/11/20

Jornais que matam

Uma amiga, prestigiada cançonetista, dizia-me que não era grave que dissessem mal dela mas sim que a ignorassem. Ignorar alguém que, pelo seu mérito e interesse público deva ser notícia, é matá-lo. Isto é o que fazem jornais impresssos, falados ou audiovisualisados. É nisto, entre outras razões, que um relevante serviço público de Informação se torna indispensável.

Quase só como pretexto, que os há muitos e todos os dias, trago por razões de actualidade a notícia da morte de Joaquim Gomes que não era cantor nem actor nem jogador de futebol nem ministro – era apenas um homem que passou a vida inteira a lutar contra a ditadura salazarista, primeiro, e contra a tirania capitalista, então e sempre.

Dos que “apesar de tudo, falam” para expressar ódios anti-comunistas, não reproduzo o que dizem mas algumas respostas que mereceram:

«... Este comentário deve ser lido por todos para que se apenda quais os limites da ignorância, do ódio, da falta de verdade e de vergonha. Este tipo de pensamento é que nos arrasta para o buraco em que nos encontramos, mas já é antigo. Vê-se coisa idêntica nos textos dos que atacavam o Mestre de Avis e queriam dar o Reino de Portugal aos Espanhois. Encontrava-se nos que resistiam aos Filipes de Espanha, nos que defederam o Salazarismo e de forma geral dos que sempre estiveram do lado errado da História, aquele que sempre trocaram a inteligência e a cultura pela traição ao seu povo».

Não resisti também a escrever:

«Imbecis anónimos que se colocam do lado dos assassinos contra as vítimas, do lado dos carrascos, contra os perseguidos, do lado dos opressores contra os oprimidos, "eunucos que se devoram a si mesmos", fazem sobresair ainda mais a grandeza e a dignidade, a generosidade, a coragem e a actualidade de homens como Joaquim Gomes, valores que estão muito acima de quaisquer polémicas sobre opções de percurso».

Mas falta uma palavra sobre as atitudes mais graves de que falava a minha amiga cantora – os silêncios que matam.

A "Visão online" (de manifesto pendor “socialista”) começou por remeter para espaço escondido a notícia sobre um homem que dedicou a vida à resistência anti-fascista e à defesa dos mais fracos. Nada que se compare com as notícias que destaca, desde o rádio que foi atirado à cabeça de Scolari, à montagem do espectáculo de Shakira, da deputada argentina que dá uma bofetada numa colega até ao que se diz sobre um anúncio de Bayoncé... e outras frivolidades ainda menos interessantes e importantes.

Mas enquanto eu escrevia este comentário, a notícia envergonhada sobre Joaquim Gomes, foi simplesmente eliminada... Assim vai a cegueira da Visão.

2010/03/04

Angola é nossa irmã

Destacamento militar da Cabaca / Angola

A nossa guerra era de sobrevivência, não só às armas mas também ao tédio, ao cansaço, à aviação inimiga (os mosquitos), e às minas antipessoais mais irascíveis (que não as mais perigosas) - as malditas matacanhas e as formigas mordedoras.

Também havia as outras minas, é claro, as instantâneas e letais, e não se passou o tempo todo sem termos disso a prova e as vítimas, como se invoca nesta lápide onde inscrevi a legenda que invoca uma morte. (O militar que posa para a foto que recortei da Net, esse não conheço).*

Naqueles tempos em que a vida dos portugueses - até ao último soldado, como dizia Salazar - não valia nada em comparação com a propriedade das colónias, a rádio emitia uma espécie de hino onde se cantava "Angola é nossa". A expressão ainda hoje me causa calafrios.

Em vez de proclamar que Angola era nossa, sendo que todos os que me rodeavam - talvez todos - estariam dispostos a vender ou a dar a sua parte!, eu inscrevia muito discreta e inutilmente na pala do meu boné (o quico), a sigla A.P.A. que queria dizer "Angola Para os Angolanos". Ainda não era um posição anti-americana e menos ainda anti-soviética, era tão simplesmente anti-colonial - na minha cabeça e no meu cérebro apenas, visto que quase ninguém mais sabia o significado...!

Hoje que Angola se esforça por aumentar os níveis de exportação de petróleo que foram drasticamente reduzidos nos últimos meses, é caso para colocar-se esta questão filosófica: sendo o petróleo angolano uma componente do seu (sub)solo, importá-lo, apropriá-lo, é uma forma de colonização? Paradoxalmente, é o contrário.


No entanto, aquela era a leitura forçada que faziam os anti-comunistas acerca do apoio da União Soviética ao povo colonizado de Angola, assim como viria a acontecer com o apoio de Cuba e com o próprio apoio a Cuba por parte da URSS. A questão, portanto, não está no que se aliena mas sim na liberdade e no interesse legítimo de o fazer.

Não sei o que é que a União Soviética ou Cuba ganharam com o apoio que deram nas lutas de libertação de Angola, mas sei que foi com a sua ajuda que o hino colonial ganhou uma versão muito mais digna: «Angola é nossa, é nossa irmã»!

Pena é que esta fraternidade não beneficie da mesma maneira todos os membros da grande família angolana que é suposto ser o seu povo, mas nem os titulares das lutas de libertação escapam à moral do capitalismo quando esse é o sistema que preconizam.

Notas:
O militar que posa junto da lápide deve ser da Companhia que nos foi render. Recortei a foto na Net.
A menina que aparece na última foto é Isabel dos Santos, filha primogénita do presidente angolano.