2010/11/14

Assim falava... Karl Marx
(sobre economia)

Recupero este post que havia publicado em Maio, por razões de crescente actualidade.

Anoto apenas, já que o não fiz na altura, que onde se diz burguês ou burguesia deve ler-se aquele ou aquela classe que detém o poder económico. A razão do termo usado é o contexto histórico em que o texto foi escrito. As imagens e apenas as imagens são actuais. O texto é integralmente de 1848... Embora não pareça!

«A burguesia despiu da sua aparência sagrada todas as actividades até aqui veneráveis e consideradas com pia reverência. Transformou o médico, o jurista, o padre, o poeta, o homem de ciência em trabalhadores assalariados pagos por ela. A burguesia arrancou à relação familiar o seu comovente véu sentimental e reduziu-a a uma pura relação de dinheiro».

«A necessidade de um escoamento sempre mais extenso para os seus produtos persegue a burguesia por todo o globo terrestre. Tem de se implantar em toda a parte, instalar-se em toda a parte, estabelecer contactos em toda a parte».
«A burguesia, pela sua exploração do mercado mundial, configurou de um modo cosmopolita a produção e o consumo de todos os países. (...) As antiquíssimas indústrias nacionais foram aniquiladas, e são ainda diariamente aniquiladas. São desalojadas por novas indústrias cuja introdução se torna uma questão vital para todas as nações civilizadas, por indústrias que já não laboram matérias-primas nativas, mas matérias-primas oriundas das zonas mais afastadas, e cujos fabricos são consumidos não só no próprio país como simultaneamente em todas as partes do mundo».
«Para o lugar das velhas necessidades, satisfeitas por artigos do país, entram [necessidades] novas que exigem para a sua satisfação os produtos dos países e dos climas mais longínquos».

«Para o lugar da velha auto-suficiência e do velho isolamento locais e nacionais, entram um intercâmbio omnilateral, uma dependência das nações umas das outras.

(...) A burguesia, pelo rápido melhoramento de todos os instrumentos de produção, pelas comunicações infinitamente facilitadas, arrasta todas as nações, mesmo as mais bárbaras, para a civilização. Os preços baratos das suas mercadorias são a artilharia pesada com que deita por terra todas as muralhas da China, com que força à capitulação o mais obstinado ódio dos bárbaros ao estrangeiro».

«Compele todas as nações a apropriarem o modo de produção da burguesia, se não quiserem arruinar-se; compele-as a introduzirem no seu seio a chamada civilização, i. é, a tornarem-se burguesas»
.

Excertos do Manifesto do Partido Comunista, de Marx e Engels.

2010/11/11

Novas classes na Greve Geral

A adesão dos magistrados portugueses à Greve Geral de 24 de Novembro, no seguimento da sua greve de Outubro de 2005, revela uma realidade nova no contexto das lutas sociais: a proletarização cada vez mais ampla dos trabalhadores.

Karl Marx previu este fenómeno na forma de passagem dos profissionais independentes a assalariados, mas acresce a isto, se não é o mesmo, a ampliação do caracter hostil do capitalismo (ou dos governos que o suportam) a profissões que até agora pareciam ou estavam protegidas pelo sistema.

Parece inserir-se neste caso, pois, a adesão dos magistrados à Greve Geral de 24 de Novembro, associando as suas reclamações à reclamação geral dos trabalhadores, isto é, revelando a consciência de que o estatuto privilegiado que o sistema lhes oferecia para lhes ganhar a cumplicidade, era hipócrita e efémera.

Para o capitalismo, todo o independente deve ser recrutado para o seu exército e todo o assalariado deve ser explorado a favor do lucro – seja ao nível da remuneração ou do tempo e condições de trabalho, o que vai dar ao mesmo.

De notar que as greves de magistrados não são uma originalidade portuguesa nem europeia sequer.

Mas é claro que isto fere os sentimentos classistas de quem exerce o poder acima da sociedade real – uma sociedade que é una como um navio apesar de serem diversas as funções dos seus tripulantes, e cuja divisão em castas perde sentido quando se trata de salvar a embarcação em que todos estão metidos.

Que este sentimento classista seja partilhado e expresso por aqueles que assimilaram o conceito mesmo sem terem o Poder, é tão velho quanto o argumentário. Cito um exemplo actual:

«Da mesma maneira que não tem qualquer utilidade social haver uma princesa que se comporta precisamente como a nossa vizinha badalhoca do 5º Esquerdo, também se torna difícil conferir dignidade a uma classe de magistrados que se comporta colectivamente da mesma forma que o pessoal da estiva…»

Neste texto*, como se vê, a classe trabalhadora, especialmente retratada no “pessoal da estiva”, é uma “vizinha badalhoca” da qual a elite social deveria evitar o contágio – além do cheiro.

Para manter o nível da conversa, cito Brecht:
«Para quem tem uma boa posição social, falar de comida é baixo. É compreensível: eles já comeram».

Historicamente, a greve, antes de ser um facto regulado por lei, já era um facto regulado pela vontade dos seus actores, os trabalhadores, no exercício da sua liberdade natural. Ao contrário do que pensam alguns, não são as leis que fazem a sociedade; é a sociedade que faz as leis.


* Consulta integral do texto citado, AQUI.

Relacionado com este tema publiquei aqui em Março um artigo a propósito da greve dos pilotos: «Pilotos e Classes Sociais»

2010/11/09

Acudam ao Capitalismo

Assim abria o "Prós e Contras" desta noite (8 Nov)
– quatro frases, quatro disparates:

«O modelo de economia capitalista vai ter que se humanizar para garantir a sua própria sobrevivência. Esta ideia está a ganhar cada vez mais adeptos. E já hoje é visível a multiplicação de iniciativas particulares na área social e sobretudo a aposta na chamada economia social.
Empresas que não colocam os lucros como objectivo máximo a atingir e conseguem evitar o prejuízo».
(...)
«O futuro passa pela inovação social, pelo empreendorismo, pelas redes de solidariedade social, e pelo voluntariado».
(...)
«Pretende-se que o debate desta noite seja a alavanca dessa redobrada consciência social e que se torne por sua vez numa mobilização para a acção».

Pese embora a ingenuidade aparente da apresentadora, já a escolha do “painel” e mais obviamente ainda a cândida tese do “capitalismo humanizado” deram uma imagem pungente do que é o esforço dos orgãos de informação ao serviço de uma ideologia e do que é o desespero patético dos seus funcionários mais fiéis e/ou mais convictos.

Dir-se-ia que o capitalismo está mesmo por um fio, mas receio que esse pânico seja precipitado. Para já, que eu saiba, é só uma greve geral. E é só no dia 24.

2010/11/04

JORNAL (é) DE NOTÍCIAS

(ou não é jornal)

Não se entenda isto como piada contra o jornal de Mário Crespo ou até o de Ana Lourenço que eu ouço e vejo (respectivamente?) com interesse. Mas jornal quer notícias e quer-se universal. Fica aqui a nota deste “provedor”.
Quanto à Imprensa, gostaria de partilhar uma “impressão” que tem tanto de gráfico como de sentimental: o proveito e o prazer que me dá o Jornal de Notícias, jornal "de preferência" se não fôr "de referência".

Bastaria ao JN a crónica habitual de Manuel António Pina para justificar a consulta do jornal. Mas “além disso” que afinal é jornalismo de opinião, o que surpreende num leitor do século XXI, é que o diário é rico de noticiário – porventura mais que nunca por razões de concorrência. Que gaste muito papel com os crimes de faca e alguidar, anúncios suspeitos e publicidade mortuária, não é menos legítimo do que ouvir horas a fio, dias, semanas, meses..., os mentores convidados das televisões a dizer as mesmas coisas sobre os mesmos assuntos, tão falsamente discordantes entre si como José Sócrates e Passos Coelho.

Pelo contrário, não só é legítimo como é necessário. Na medida em que a “vox populi” *, fica ali melhor representada do que nas entrevistas de rua, pescadas à rêde e posteriormente editadas como se assim não fôsse.

Na medida, também, em que as tais notícias de histórias individuais de grande impacte, são materiais com valor sociológico maior do que as opiniões de Francisco Van Zeller, marido de Maria João Avilez, irmã de Maria José Nogueira Pinto, esposa de Jaime Nogueira Pinto..., por mais representativas que sejam as suas opiniões sobre as empresas e "as famílias".


* “vox populi” é uma expressão que ficou consagrada no jornalismo para designar a recolha improvisada de opiniões na rua, lá onde a "voz do povo" se pode escutar, supostamente livre e genuína.

2010/11/01

Brincando ao arco (2ª versão)


«Toda esta noite o rouxinol cantou,
gemeu, chorou, gritou perdidamente.
Alma de rouxinol, alma de gente,
tu és talvez»... ministro das finanças.

As horas passam, perdem-se as esperanças
e os banqueiros perdem a paciência:
- Assinem um acordo; dêem uma conferência.
Precisamos de carne p’ró banquete!

Diz o mandatário competente:
- Se baixarmos salários e subirmos impostos,
nós salvamos a Pátria e a finança anima.

Mas o povo sussurra em cada esquina:
- Ora queimam a lenha, ora nos pedem pão.
Maldito “arco da governação”!


2010 OUT 30 às 23h20min