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2014/12/05

Sócrates, Juvenal... e eu !

"Quis custodiet ipsos custodes?"é uma frase em latim que pode ser traduzida de várias formas: "Quem vigia os vigilantes?", "Quem vigia os vigias?", "Quem fiscaliza os fiscalizadores?", "Quem guarda os guardas?"…

José Sócrates, na sua quarta carta da prisão, adoptou a última destas traduções – a mais corrente – mas os guardas a que se referia eram expressamente os juízes e os polícias, jornalistas, políticos e professores de Direito.

A questão filosófica colocada por José Sócrates, foi título do meu “post” de 2 de Junho de 2008,a propósito dos Estados Unidos manterem “suspeitos de terrorismo” para interrogatório, em prisões flutuantes, a fim de não serem denunciadas como ilegais nos territórios onde fossem mantidos. Mais recentemente, a propósito da expulsão de magistrados portugueses que trabalhavam em Timor-Leste, escrevi “Quem Julga os Juízes”e, “já agora”, Juvenal colocava a mesma questão, no primeiro século da era cristã.

Recordo que Juvenal é o poeta e filósofo romano que criticou os seus contemporâneos de se satisfazerem com “pão e circo”(panem et circenses) depois de se terem tornado escravos de prazeres corruptores.

Está pois o ex-Primeiro Ministro muito bem acompanhado na sua visão crítica da Sociedade - passe a imodéstia...

2014/12/01

Sócrates livre


Quem faz declarações públicas, há-de esperar comentários públicos. Não serei eu a frustrar as expectativas.

Ao dizer, da prisão, que se sente “mais livre do que nunca”, José Sócrates está a filosofar em torno do conceito de liberdade, porventura inspirado em Kierkegaard, este mesmo discípulo do outro Sócrates. Com efeito, creio que foi aquele filósofo dinamarquês quem disse que “nem todos os que riem das algemas são livres”. Se não foi ele, foi outro ou nenhum porque na verdade eu apanhei a frase no filme “Doutor Jivago”, de Boris Pasternak, onde um preso que é transportado de comboio, responde com aquela frase ao polícia que o leva algemado!

Fica bem a José Sócrates, enfim, este exercício filosófico que coloca a questão de alguém "ser" livre ainda que "esteja" preso - a diferença entre ser e estar. E mais pode acrescentar, invocando agora um comentário de João Cravinho, que “o PS não está preso” mas a voar para o próximo Governo.

Fica aqui e assim a minha modesta contribuição para a confusão geral.

2014/03/27

Rodrigues dos Santos vs Sócrates


José Rodrigues dos Santos tem sido grosseiramente insultado nas redes sociais por ter, alegadamente, facilitado a vida a José Sócrates na entrevista reproduzida no vídeo abaixo.

Comparados os comentários com o conteúdo, percebe-se que essa crítica não tem qualquer correspondência com a atitude do jornalista. Mas a irracionalidade parece dominar o comportamento humano como voltarei a referir, talvez amanhã, a propósito da Coreia do Norte.

Por agora, além do vídeo, deixo a minha transcrição escrita de dois excertos polémicos da mesma.

José Sócrates - Entre 2008 e 2010 havia uma grave crise financeira internacional provocada pelos mercados, não pelo Estado. Todos os países aumentaram o seu défice e a sua dívida. Agora o problema é entre 2011 e 2013 em que nós estamos concentrados só na austeridade e não no crescimento e o que acontece é que não só empobrecemos como a dívida explodiu. A política de austeridade conduz não apenas ao empobrecimento mas também ao descontrolo da dívida: 130%.

J. Rodrigues dos Santos - Mas em Dezembro de 2010 o senhor faz esta afirmação (mostra cópia de notícia): “A austeridade é (enfático) o único caminho”. O que está a dizer agora é o contrário do que disse nessa altura.
J. Sócrates - (…) Mas nunca separei austeridade, do investimento público. … A diferença é que nessa altura o governo fazia investimento (dá exemplos). Espero que agora tenha percebido. (…) Essa austeridade era diferente desta.
(…)
J. Rodrigues dos Santos - O senhor defendeu que não se fizesse reestruturação da dívida.
J. Sócrates (corrigindo) - Que não se fizesse perdão da dívida.
J. Rodrigues dos Santos (mostrando cópia de notícia)- Tenho aqui uma notícia de Maio de 2011 que diz: “Sócrates garante que em nenhuma circunstância pedirá a reestruturação da dívida…”. (Debate com Francisco Louçã).
J. Sócrates (contestando a redacção da notícia publicada) - Não, eu sempre fui contra o “perdão” da dívida (e não contra a reestruturação) nessa altura como agora.

2013/03/31

Porque hoje é domingo (35)

Na história da Páscoa, os coelhos ocorrem como fenómeno da Primavera – a altura em que os animais saíam das suas tocas para a luz do sol, fenómeno celebrado por povos ancestrais. É no mesmo contexto que aparece a tradição dos ovos. Na nossa Páscoa, porém, quem saiu da toca foi José Sócrates com a intenção de enterrar Passos Coelho. São as ironias da História.

Desde a antiga bíblia capitalista até ao evangelho ultra-liberal, não faltam pregadores e profetas, falta a verdade e os milagres que nos permitam atravessar o rio do desemprego, despir o sudário da austeridade, libertar dos faraós financeiros. Messias há muitos. Já os havia no tempo em que Jesus era apenas mais um judeu que frequentava o templo e a sinagoga. Ele que sairia da gruta onde o sepultaram, nesta mesma época do ano.

Com Sócrates acorrem a terreiro nesta Primavera, discípulos e até rivais da mesma Igreja, primeiro António Costa, depois António Seguro, amplificando as vozes de protesto que há muito se ouviam nas hostes do PC e do BE, da CGT e dos sectores mais diversos e numerosos da população. Até do seio da maioria artificial emergem cada vez mais vultos desiludidos com a “religião” que professam.

A Primavera parece começar a florir. Seria uma feliz coincidência que Portugal ressuscitasse em Abril. Mas se for em Maio, ainda é Primavera. Haja fé e persistência apostólica e popular.

2013/03/27

O debate em debate

O anúncio das entrevistas a José Sócrates que hoje se iniciam após a sua saída da governação, não ainda o conteúdo das entrevistas, note-se, mas a sua realização, criou uma carga dramática elucidativa do que é verdadeiramente a natureza da "Comunicação" Social: espectáculo!

Por detrás da preocupação com “o interesse nacional” e até com o “interesse social”, esconde-se no discurso de muitos analistas, a sua preocupação dominante: a afirmação da sua competência, da “sua” razão.

Felismente “o povo não é estúpido” e até porque é feito da mesma massa, sabe destas fragilidades da condição humana e dá algum desconto aos pareceres dos comentadores públicos.

Entretanto, quando a figura pública é identificável ideologicamente, ela representa para o espectador a sua ideologia, logo, o próprio espectador - se o representante do meu grupo ideológico vence ou perde um debate, eu ganho ou perco com ele. Isto é, o espectador não é isento e é com essa falta de isenção que ele próprio irá repercutir no espaço familiar ou social o conteúdo do comentário ou do debate público a que assistiu.

Mais, antes do espectador, os próprios jornalistas que são feitos da mesma massa que os políticos e os cidadãos comuns, interferem com os seus preconceitos neste jogo de prestígio e assim alimentam o conflito dramático.

Se juntarmos a tudo isto,que "a comunicação é mais de 90% afectiva e pouco mais de um por cento informativa", é caso para perguntar o que sobra de verdadeiro, rigoroso, credível, no fim de um debate ou de uma entrevista polémica.

Sobra apenas o espectáculo, portanto, se os intervenientes não forem excepcionais como raramente acontece. Não me parece que seja o caso de José Sócrates de quem espero apenas a desinteressante defesa da "sua" razão. Mas reconheço que eu próprio sou feito da mesma massa de que são feitos os preconceituosos.

2012/07/06

Anestesia política

A indiferença dos cidadãos perante as mentiras dos governantes, a tolerância perante a incompetência e a corrupção, e a apatia perante o abuso de poder, são os efeitos perversos da repetição, da persistência no erro.

O México é um laboratório trágico mas revelador dos extremos efeitos anestesiantes da crueldade continuada.

Dezenas de corpos decapitados, com mãos e pés decepados, foram encontrados e removidos na rua de uma cidade do Norte do México. Entretanto, mais adiante, na mesma rua, andavam casais a passear de mãos dadas, crianças brincavam... Todos os dias as pessoas passam pelas bancas de jornais onde se exibem fotografias chocantes dos corpos mais recentes. Os mexicanos acostumaram-se com o número de mortos que cresce continuamente em cada cidade.

Protestos, manifestações e iniciativas artísticas homenageando as muitas vítimas, pouco contribuiram para alterar a realidade.


Quando o escândalo se vulgariza, já não escandaliza. É a “anestesia política” a fazer efeito.

2012/01/13

Compromissos políticos

(antes e depois)

ANTES DA POSSE:

O nosso partido cumpre o que promete.
Só os tolos podem crer que
não lutaremos contra o desemprego.
Porque, se há algo certo para nós, é que
a honestidade e a transparência são fundamentais
para alcançar os nossos ideais.
Mostraremos que é uma grande estupidez crer que
as máfias continuarão no governo, como sempre.
Asseguramos sem dúvida que
a justiça social será o alvo da nossa acção.
Apesar disso, há idiotas que imaginam que
se possa governar contra a população.
Quando assumirmos o poder, faremos tudo para que
se termine com os “lobby for the boys”.
Não permitiremos de nenhum modo que
os trabalhadores e os reformados fiquem na miséria.
Cumpriremos os nossos propósitos mesmo que
os recursos económicos do país se esgotem.
Exerceremos o poder até que
compreendam que
somos a grande mudança.

DEPOIS DA POSSE:
Ler o mesmo texto, DE BAIXO PARA CIMA

2011/04/06

FMI jamais!

O primeiro-ministro e líder do PS, José Sócrates, revelou (no dia 19 de Março) que não está disponível para governar o país com a ajuda do Fundo Monetário Internacional (FMI) e reafirmou que Portugal não precisa de ajuda externa.

"Eu não estou disponível, da minha parte, para governar com o FMI", afirmou Sócrates, que falava na apresentação da moção de recandidatura como secretário-geral do Partido Socialista (PS), no Porto.


Sócrates disse que "a agenda do FMI e da ajuda externa levaria o país a suportar programas que põem em causa não só o nosso estado social mas também o que é a qualidade de vida de muitos portugueses".

2011/03/24

Rei morto, rei posto!


Alguém disse que José Sócrates não tentou um acordo?

2011/03/06

Porque hoje é domingo (3)

“Nem todo aquele que diz: ‘Senhor, Senhor’, entrará no reino dos céus, mas sim o que põe em prática a vontade de meu Pai que está nos céus”.

Até aqui, digo eu, é a metáfora destinada àqueles que cantam loas a José Sócrates, seja porque inaugura ou porque encerra, porque nacionaliza ou porque privatiza (prejuízos e lucros respectivamente) . Não quero citar nomes para não ofender Emídio Rangel que tanto me faz rir, ou Vital Moreira que tanto me faz chorar, entre outros.

Mas onde a mensagem do Evangelho deste domingo é inequívoca, é quando cita: “quem ouve estas minhas palavras e as põe em prática, é como um homem prudente que construiu sua casa sobre a rocha. Caiu a chuva, vieram as enchentes, os ventos deram contra a casa, mas a casa não caiu, porque estava construída sobre a rocha...”

Não se pense que há aqui alguma indirecta para João Jardim. Esta precisão é um recado acerca do estado das escolas, dos tribunais, das esquadras de polícia e outros edifícios públicos. E com razão. Nem é preciso ser cristão para reconhecer a verdade que habita estas palavras. Para que serve encher a boca com tecnologias, emprego e “Estado social”, se tudo isso é pó para os olhos dos cidadãos – lembra-te, homem, que é pó.

E que a gente sabe!

2011/01/24

Eleições... penitenciais

Daqui envio os meus parabéns... a José Sócrates!

2010/11/01

Brincando ao arco (2ª versão)


«Toda esta noite o rouxinol cantou,
gemeu, chorou, gritou perdidamente.
Alma de rouxinol, alma de gente,
tu és talvez»... ministro das finanças.

As horas passam, perdem-se as esperanças
e os banqueiros perdem a paciência:
- Assinem um acordo; dêem uma conferência.
Precisamos de carne p’ró banquete!

Diz o mandatário competente:
- Se baixarmos salários e subirmos impostos,
nós salvamos a Pátria e a finança anima.

Mas o povo sussurra em cada esquina:
- Ora queimam a lenha, ora nos pedem pão.
Maldito “arco da governação”!


2010 OUT 30 às 23h20min

2010/10/24

scut ou ccut

Sobre a cobrança de portagens nas estradas designadas “sem custos para os utilizadores", vulgo SCUT, já não há discussão que valha a pena. O melhor mesmo é disfrutar destes “registos” sobre o modo como Bin Laden comenta e como Hitler pondera o problema.

Pressionar nos respectivos nomes para ver as gravações devidamente traduzidas)


Entretanto ficam três fotogramas a título de sugestão

2010/07/07

Engana-me que eu gosto

Enquanto Passos Coelho prepara as malas para viajar até S. Bento e ali abrir as portas a Portas, se necessário, José Sócrates abre as janelas do palácio (já não digo os portões!) aos ventos da esquerda, para acolher seus boletins de voto esvoaçantes.

Cansado de puxar sozinho a carroça nacional, apela à colaboração de quem pode ajudá-lo a sair do pântano. Apela, não, seduz, atrai, namora. Um sorriso para o lado de Alegre, um esgar para o lado de Passos, tudo bem ensaiado e acessorado, hei-lo a representar um papel novo de que se orgulhariam Jerónimo ou Louçã. “Espectáculo!” – diria Fernando Mendes.

E, no entanto, talvez seja um grande equívoco esta ideia dominante na opinião publicada, de que o PSD ganhará as próximas eleições que se prevêem antecipadas.

Mas não avisem o líder do PS – deixem-no dizer aquelas coisas que nos agrada tanto ouvir, nem que o faça apenas por mêdo e calculismo.

Recorte: Público 2010-07-06

2009/12/24

PS contra PS



A birra do PS contra o resultado das eleições legislativas de 2009 era mais gritante do que a dramatização patética da Presidência da República nos últimos meses, mas a opinião publicada não se dava conta. Perdiam-se os “opinion makers” no côro dos argumentos e contra-argumentos dos partidos: ora que o PS não percebeu ainda que perdeu a maioria absoluta, ora que a Oposição não percebeu que o PS deve governar com o seu programa e não outro, ora agora repito eu, ora agora repetes tu, ora repetimos todos ao mesmo tempo para que isto se pareça mais com um debate.

José Sócrates provocava, os dirigentes do PS provocavam, já havia vidros partidos, cabeças rachadas, mortos pelas ruas, quando se começou a dizer que havia um problema: o PS não aceitava os resultados eleitorais. Governar em maioria relativa, governar com os outros partidos, era-lhe insuportável. O golpe-de-estado democrático fazia o seu curso no PS e a arrogância política dava lugar à insolência verbal. Contra todos os partidos e sem deixar de fora o próprio Presidente da República.

Chegados ao ponto de ruptura desejado pelo PS, já não se discutirá como vai José Sócrates governar em maioria relativa, mas sim, até quando!

Já o PPD sonhou para si «um governo, uma maioria, um presidente» Mas não se recusava a governar; era “apenas” um sonho... Nada que a aventura do PS, em curso, não possa proporcionar finalmente ao PSD.

2009/06/10

M & M


Nas eleições presidenciais de 2006, Manuel Alegre recolheu mais 6,4% de votos do que o candidato que apoiava o Governo… e foi o candidato da direita que venceu. Nas eleições europeias de 2009, Manuela Ferreira Leite recolheu mais 5% do que o candidato que apoiava o Governo…

“Não se enforque o desprezado nem o prezado se envaideça”. Os votos perdidos pelo PS em ambos os actos eleitorais não se destinam ao Manel nem à Manela – destinam-se a avisar o Governo que por este percurso político terão este resultado eleitoral. O que vem a dar no mesmo se o Governo não arrepia caminho. E não é pela direita que sobe – esse é o pântano em que se meteu. Se a direita ganhou com o descontentamento popular foi na base de um discurso de esquerda associado ao conceito de “voto útil”.

Como dizia um cidadão em Yorkshire a propósito do resultado desastroso dos trabalhistas e do crescimento da extrema-direita, na Inglaterra, esta direita limitou-se a recolher o voto de protesto. Mas que, cá como lá, mutantis mutandis, é perigoso governar à direita em nome da esquerda, é. Muito perigoso.

2009/02/28

O Povo é quem...

Do discurso de José Sócrates, preocupado em esvaziar o descontentamento da ala esquerda do PS: "O Povo é quem mais ordena!".
Lembrando nós a hostilidade com que o seu governo tem tratado os mais diversos sectores sociais, dos professores aos magistrados, dos militares aos funcionários públicos e aos trabalhadores em geral (Código do Trabalho), alguém devia perguntar-lhe de que povo é que ele fala. Mas não, os congressistas estão contentinhos.


E se alguém tiver ainda dúvidas, vale a pena lembrar a importância que teve a vontade do Povo no caso do Tratado Europeu ou Tratado de Lisboa !...