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2016/12/24

Os limites do humor

Concordo com aqueles que defendem que a liberdade de fazer humor obedece ou deve obedecer às mesmas regras que a liberdade de expressão em geral. O “nosso” Ricardo Araújo Pereira já exprimiu esta mesma opinião. 

Acrescentaria apenas  que aquilo que torna a crítica humorística mais tolerável é o facto de se assumir como expressão não rigorosa mas antes distorcida de uma ideia ou de uma forma, assumir-se não como verdade mas caricatura reconhecível como tal. 

  “Morra o Dantas, morra!” pronunciado por Almada Negreiros, não levou o autor do poema satírico para a cadeia em 1916 como não levaria em 2016, exactamente porque o poeta não está a incentivar à morte, está sim a usar formas de estilo literário que recorrem à ironia e ao sarcasmo, ao exagero e à metáfora, para aumentar o dramatismo literário de um texto.

A identidade do autor, o contexto da frase e o absurdo da ideia, ao contrário de sugerirem a prática de um crime, antes põem a ridículo a própria sentença. Este é o álibi do humor.


A imagem é um auto-retrato de Almada.

2011/05/21

A importância do protesto

Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos. Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.

Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.

Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.

2010/05/30

Isto é fascismo

O Sapo diz que estiveram “centenas de portugueses” na manifestação, o Clix diz que “ a CGTP contou com trezentos participantes” ! O Correio da Manhã é um pouco mais generoso ao conceder que terão protestado “milhares” de pessoas. O Público, “jornal de referência” na propaganda anti-sindical e anti-progressista em geral, não assume uma contagem; diz que os organizadores disseram que... Mas acrescenta num português de referência: “A possibilidade do valor estar inflacionado é uma possibilidade”.

A revista “Visão”, essa ainda está a fazer contas. O JN não tem espaço para estas futilidades, ocupado como está em informar o país de que uma bébé nasceu numa padaria... A TSF destaca as declarações... da Ministra do desemprego, remetendo a notícia da manifestação para um “link” que volta a destacar a ministra e a UGT e só lá para o fim refere que estiveram na manifestação... “centenas de pessoas” !

Fotos, nem vê-las! – não se dê o caso de alguém contar as cabeças...

Para os jovens a quem é sempre difícil explicar o que era o fascismo, aqui está um exemplo!


2010 Maio 30 - Recortes de "notícias" de jornais on-line, sobre a manif. de 29.

2010/02/12

A Informação é deles

A Televisão e a Informação em geral é propriedade dos governantes, dos detentores das respectivas empresas e ainda dos jornalistas da sua confiança. A guerra a que temos assistido, tenha Manuela Moura Guedes ou Mário Crespo como porta-bandeiras, é sobretudo deles antes de ser da liberdade de expressão. Eles estão preocupados com os seus privilégios - ou porque têm programas ou porque têm estações ou porque têm poder político.
Vimos alguma vez a Comunicação Social preocupada com a discriminação que se faz das vozes exteriores ao "arco da governação" representado na imagem acima? Para uns e outros, o que dizem os partidos de esquerda são opiniões desprezíveis que só por razões legais e nessa medida é preciso recolher, e o que manifestam milhares de pessoas nas ruas não valem nada em comparação com a opinião de um qualquer jornalista ou comentador seu convidado - milhares de vozes de trabalhadores são apenas desprezíveis "interesses corporativos" facilmente anulados e contraditados pelos seus doutos juízos.

Da minha experiência em anos de actividade em comissões de trabalhadores e vida sindical, raríssimas foram as vezes em que os jornalistas da RTP, enquanto colectivo, foram solidários com as lutas laborais dos restantes trabalhadores. E esse sentimento de casta não mudou.

Como bem alertou Umberto Eco, os jornais, a Rádio, a Televisão, não são orgãos de "comunicação" mas sim orgãos de "difusão" - não inter-agem com os receptores, dirigem-se a eles sem direito a resposta. E isso confere-lhes o poder de dizer o que está bem e o que está mal, o que interessa e o que não interessa... a todos. Nisto, como o mesmo autor evidenciou, a Internet trouxe a diferença, uma vez que aqui o utilizador não só constroi a sua própria programação como se exprime em relação a opiniões de outros. Um problema que os jornalistas e comentadores publicados tentam compensar com a sua própria participação nestes novos meios que apesar de tudo não têm o mesmo poder dos orgãos sociais de difusão.


É nesta lógica de controlo da "Comunicação Social" por parte da direita política, que se inscreve a estratégia privatizadora desta área do espectro partidário, sabendo-se que só a Direita - representante das classes privilegiadas - tem poder económico para aceder à compra dos meios privados de difusão. Pinto Balsemão ou Eduardo Moniz fazem o seu jogo neste campeonato. O PS, como sempre, disputa-o pela parte que representa do mesmo espectro. E por interesses partidários associados.
A liberdade de informação, tal como a Democracia, é a possível. E quanto mais ampla fôr esta, mais larga será aquela. O resto é o modo como cada um tenta ganhar terreno nestes jogos: governos, partidos, jornalistas! E o modo como cada cidadão eleitor, suposto soberano da nação, reflecte na rua e nas urnas de voto a sua opinião. (E nos blogues, ok!)