Os jovens revoltosos não-organizados que tiveram particular expressão nos anos 60, manifestavam-se então por dois fenómenos: o aparecimento de novas designações (incluindo neologismos) e de “fogachos”, isto é, ocorrências desordenadas. As designações originais respondem a características da juventude: inadaptação ao sistema socio-político, necessidade de identificação e comunicação próprias de grupo, de bando.
No final dos anos 50 e princípios dos anos 60 do século 20, a Suécia, a França a Inglaterra, a Índia assistiram a violentas acções de massas de jovens, por vezes grupos com menos de 20 anos de idade, no seio das quais se integram vadios mas também sectores desfavorecidos do meio laboral, em todo o caso rebeldes sem causas instituídas, sem organização prévia e sem lideranças.
Uma existência angustiada e uma força vital impetuosa, parecendo contraditórias embora, coincidem num sentimento estimulante para a luta e para a luta desorganizada: o desespero! Lá onde as revoltas se identificam com motivações socio-políticas mais concretas do que a contestação da ordem e da autoridade, como seja a recusa da guerra (como na Argélia e no Vietname) e a recusa da repressão política (fascismos e estalinismos), as lutas dos jovens encontram por vezes eco noutras camadas etárias e organizadas.
O meio universitário é particularmente combustível para acções de contestação e reivindicação colectiva de autonomia e de reformas. Do Líbano a Paris, da Itália à Inglaterra, da Checoslováquia comunista à Espanha franquista, os estudantes exigem, combatem e contagiam. E por exigência natural das próprias acções que desencadeiam, organizam–se.
Da contestação abstracta à identificação de objectivos, dos confrontos anárquicos à luta organizada, as revoltas dos jovens não-organizados ganham em eficiência o que perdem em tempo? Talvez haja espaço para as duas formas de intervenção, certos que haverá algumas colisões entre as duas correntes. Mas isso é outro tema que talvez venha a tomar a pretexto do "Maio de 68".
NOTA: O título deste artigo reproduz o título da obra onde recorto a maior parte da informação aqui produzida. O autor do livro de 1969 é J. Joussellin. Uma sugestão para a Feira do Livro em curso.
Senhor, não Vos entendo. Para mim, pobre ovelha desorientada, é mais fácil perceber o António Lobo Antunes do que o apóstolo João, co-autor do Evangelho, santo e pescador. Narra ele, o S. João (capítulo 14, versículos 15 a 21): Naquele tempo, disse Jesus a seus discípulos: (15) Se me amais, guardareis os meus mandamentos,(16) e eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor,para que permaneça sempre convosco: (17) o Espírito da Verdade, que o mundo não é capaz de receber, porque não o vê nem o conhece. Vós o conheceis, porque ele permanece junto de vós e estará dentro de vós. (18) Não vos deixarei órfãos. Eu virei a vós. (19) Pouco tempo ainda, e o mundo não mais me verá, mas vós me vereis, porque eu vivo e vós vivereis. (20) Naquele dia sabereis que eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós. (21) Quem acolheu os meus mandamentos e os observa, esse me ama. Ora, quem me ama, será amado por meu Pai,e eu o amarei e me manifestarei a ele.
Vamos então por partes:
«15) eu rogarei ao Pai, e ele vos dará um outro Defensor» - Como é que sabe se o Pai dará ou não se ainda nem rogou? pode, quem roga, estar assim tão certo de obter o que pretende?
« ele vos dará um outro Defensor, para que permaneça sempre convosco» - Mas então Deus não estava já sempre connosco? Outro para quê? Não será um desperdício de deuses?
18 a 20 – para quê tantas viagens de ida e vinda a nenhures? E o que quer dizer (20) « eu estou no meu Pai e vós em mim e eu em vós»?
« Quem me ama, será amado por meu Pai, e eu o amarei e me manifestarei a ele» - dando de barato que isto faça algum sentido, ainda assim pergunto: e quem não “me ama”? A Humanidade está dividida em classes, os que amam a Deus e os que não amam? Não somos todos irmãos e tal?
Espero que da próxima vez que passes pela Terra tenhas tempo de explicar melhor a tua ideia. Pelo menos a mim que devo ser o único que dou importância às cousas que dizem que disseste. NOTA: Os versículos aqui citados são a leitura do Evangelho adoptada pela Igreja Católica paea este domingo 29. NA FOTO: O da direita é o santo! - o evangelista S. João, segundo escultura de Donatello
São massas invisíveis e instáveis que, em momentos críticos, abalam, imprevisíveis e incontroláveis, a crusta suave e firme em que se desenrola a vida superficial.
Na Natureza tem um nome estranho, “tectónica de placas”; na Sociedade, mais prosaicamente chama-se “revolta”. Bem-vistas as coisas são designações equivalentes com que se exprime a desconstrução de um edifício ou, por extensão, de um sistema.
A questão política é esta: não se trata de "apoiar" um partido - em última análise, ninguém representa ninguém, ninguém merece a confiança total de ninguém. Do que se trata é de tomar “posição”, de mudar o caminho aos acontecimentos, de atrever-se por mares não navegados. É de comparar sistemas, inútil como é esta cacofonia social-democrata em busca de diferenças in-significantes.
E aqui não se trata, uma vez mais, de escolher os programas à venda – trata-se de agir, de abrir sulcos no caminho dos consensos paralizantes, de remover escolhos formais, destruir os alicerces da exploração, furar a crusta da corrupção, estremecer a Terra e libertar o Homem da asfixia a que chegou neste momento histórico. Cientes – e daí? – que a História não acaba aqui. Os políticos, os partidos, saberão "como" mudar o rumo, mas aos cidadãos comuns compete saber "para onde" querem ir.
Era noite em Angola, no Cuango. Ou foi na Cabaca? No isolado destacamento apareceram vultos agitados; no silêncio da floresta que nos rodeava, rompiam vozes atormentadas – era um pelotão que regressava de uma operação no mato e trazia um morto e vários feridos. Eles e nós, os que tinhamos ficado no aquartelamento, tentávamos organizar o socorro, acorrer aos mais necessitados. A certa altura o médico, alferes-miliciano, alertou para darmos atenção aos que não gritavam nem gemiam de dor. Afinal, era entre esses que estavam os doentes mais graves – os que nem força tinham para falar.
Por isso, quando vejo as manifestações que decorrem no Médio-Oriente e no Magreb, penso naqueles e naquelas que na mesma região se sentem impotentes para protestar, e quando assisto ás grandes concentrações em Madrid, penso em Cuba onde a repressão contra os direitos mais elementares dos cidadãos continua diariamente.
Ganha pois uma dupla importância o grito dos que têm capacidade para fazê-lo: exprimem as suas dores e chamam a atenção para as dores daqueles que nem gemer podem.