2014/10/10

Brasil já escolheu

No “campeonato nacional” das presidenciais, do passado domingo, o Brasil escolheu: Dilma Rousseff ganhou as eleições com 41,59% enquanto Aécio Neves teve 33,55% e Marina Silva teve 21,32%. Dilma recebeu mais oito milhões de votos do que o segundo classificado.
Mas…


Mas Dilma não é da família política do PS nem do PSD, como são Marina e Aécio, respectivamente. 
Logo…

Logo, as notícias em Portugal não são a vitória de Dilma Rousseff mas sim…

QUE Dilma Rousseff, do PT, conseguiu a vitória, mas não os votos suficientes para evitar uma 2ª volta.
QUE Aécio Neves vence primeira volta… em Portugal.
QUE Aécio e Dilma decidem presidência do Brasil na segunda volta

Agora, a notícia é que o Partido Socialista brasileiro vai apoiar o social-democrata Aécio Neves na segunda volta das eleições presidenciais, a 26 de Outubro, para impedir a reeleição de Dilma Rousseff.

E a (minha) previsão é que os órgãos de Informação em Portugal já afiaram as unhas para arranhar o  Partido dos Trabalhadores. Mais certa do que a previsão da Datafolha!

O Instituto Datafolha, um dos principais centros de sondagens e estudos do país, divulgava em 10 de Setembro a sua sondagem, em que Dilma Rousseff surgia com 36% dos votos, seguida de Marina Silva com 33% e do social-democrata Aecio Neves com 15%.

Quanto à segunda volta, Datafolha já está a fazer o seu trabalho...


Nota: A primeira volta das eleições gerais brasileiras de 2014, realizadas no dia 5 de outubro destinaram-se a escolher não só o presidente da República, mas também os vinte e sete governadores das unidades federativas, um terço dos membros do Senado Federal, a totalidade dos membros da Câmara dos Deputados e os representantes dos poderes legislativos estaduais.

2014/10/06

Paroles, paroles, paroles…


Repare-se no vídeo, entre os 03’55” e os 04’17”, como Raul Castro exalta o respeito pela diversidade … e “a convicção de que o diálogo e a cooperação são o caminho para a solução das diferenças, a convivência civilizada de quem pensa de forma diferente”

No entanto, os Castros correm o risco de ficar para a História, não como os construtores de uma “Cuba Libre” mas sim como os construtores de uma “escravidão generosa” – para dizê-lo de alguma maneira!

O que há de comum entre um discurso de Raul Castro e um discurso de Cavaco Silva, é que “Para a mentira ser segura e atingir profundidade, tem que trazer à mistura qualquer coisa de verdade”, como dizia o poeta popular António Aleixo.

“O País necessita urgentemente de um acordo de médio prazo entre os partidos que subscreveram o Memorando de Entendimento com a União Europeia e com o Fundo Monetário Internacional, PSD, PS e CDS”, como diz Cavaco Silva, ou necessita de um acordo dos governos com os seus compromissos eleitorais?

2014/09/29

Socialismo como quem diz

Com esta aposta em António Costa, o PS matou dois coelhos, aliás dois PC's: Passos Coelho e o Partido Comunista. Se não matou, ameaçou.

Para que a ameaça se concretize, à direita, o PS não precisa fazer nada - o Governo já faz. Mas para filtrar o fluxo dos descontentes que encontram no PCP a verdadeira alternativa, o PS terá que ultrapassar-se - e eu duvido que António Costa queira ir tão longe, ou possa.

Pois bem se pode dizer em Portugal como se diz em França, que no PS já ninguém sabe exactamente o que é o socialismo - «au PS, plus personne ne sait au juste ce qu'est le socialisme». Voilá!

2014/09/28

Porque hoje é domingo (56)

«Havia um homem que tinha dois filhos. Chegando ao primeiro, disse: 'Filho, vá trabalhar hoje na vinha. E este respondeu: 'Não quero!'. Mas depois mudou de ideias e foi! Depois o pai chegou ao outro filho e disse a mesma coisa e este respondeu: 'Sim, senhor!'. Mas não foi!».

Depois de contar esta pequena história (Mt 21,28-32), Jesus perguntou: «Qual dos dois fez a vontade do pai?».

Ora aí está!

Pode o António Costa não ter avançado mais cedo, mas quando viu que o trabalho do "irmão" estava a dar muita parra e pouca uva, avançou! E a vinha medrou.

Agora há que saber se vem aí bom vinho...

NOTAS:
1) A parábola aqui invocada é aquela que serve de tema às missas deste domingo.
2) Este post é publicado quando as votações ainda estão no início (10H30)
3) A pintura é de MURILLO (1617/18–1682)

2014/09/25

António Costa à varanda

Como António José Seguro vê António Costa

Quando o presidente de um partido diz que os respectivos autarcas fazem política à janela da Câmara Municipal, envergonha quem quer que o apoie. E perde quaisquer condições para continuar a dirigir o partido.

A não ser que se trate do PS!...

2014/09/22

Marxistas e cristãos

Continuação do assunto tratado em
“Porque Hoje é Domingo (55)”


Aquilo que o proprietário distribui pelos trabalhadores não é a sua riqueza – a sua terra. Esta permanecerá integralmente nas suas mãos. O que ele distribui é a riqueza que os trabalhadores produzem, fazendo uso dos meios do proprietário. São os trabalhadores, eles sim, colectivamente, que acrescentam riqueza! São eles os reais produtores

Portanto, o que o proprietário distribui em forma de “retribuição”, é aquilo que não lhe pertence e, ainda assim, só uma parte disso, visto que se apropria de outra parte para si.

Nesta distribuição da riqueza produzida pelo trabalho, entre os trabalhadores, o proprietário (dos meios de produção) e o Estado (através de impostos que supostamente voltam para a comunidade em forma de serviços e bens públicos), o que distingue o sistema socialista é que o propietário-capitalista não faz parte do sistema, logo a riqueza produzida reverte toda ela para os trabalhadores, de forma directa ou indirecta.

O socialismo assim entendido como o entendem os marxistas, não pode ignorar que há proprietários e há trabalhadores que escapam a esta lógica. Isto é: há proprietários que têm um papel positivo também na economia socialista, e há trabalhadores que não trabalham ou não o fazem em proporção com os seus rendimentos.

A primeira questão tem sido respondida caso a caso, país a país e de forma diferente em épocas diferentes. Por exemplo: actualmente, em Cuba, promove-se o trabalho por conta própria, "los cuentrapropistas" em alguns sectores de actividade que antes estavam interditos.

Talvez se possa dizer que o socialismo moderno tende a consentir na propriedade privada dos meios de produção conforme a dimensão destes e a sua importância estratégica para a economia nacional. Água, electricidade, comunicações e banca, muito dificilmente se enquadram no grupo de actividades privadas no sistema socialista.


A segunda questão, a retribuição dos trabalhadores, é a que se prende com a parábola de Jesus que invoquei no artigo anterior “Porque Hoje é Domingo (55)”! É a questão de saber os critérios de distribuição da riqueza produzida.

O critério subjectivo do proprietário, apresentado na parábola e aprovado por Jesus, é completamente injusto e incoerente, porque beneficia os que trabalham menos, com o esforço dos que trabalham mais – é uma forma de exploração de uns trabalhadores por outros trabalhadores.

O critério subjectivo de classe, segundo o qual há sub-classes privilegidas que auferem rendimentos desproporcionados em relação a outras – administrativos em relação a operários, p. e. – é também considerado injusto e é contrariado no critério marxista. Voltando a Cuba como exemplo, um professor ou um médico ganha ao nível de um empregado sem qualificações académicas relevantes. Escusado será dizer que este “critério subjectivo de classe” que vigora nos países capitalistas, se encontra frequentemente na prática de países socialistas de forma perversa.

Curiosamente, o marxismo apresenta um critério de distribuição da riqueza produzida, que não é, também ele, objectivo. Isto é: não se trata de atribuir a cada um segundo o seu trabalho. A máxima é: "de cada um segundo as suas possibilidades, a cada um segundo as suas necessidades" . E isto conciliaria Karl Marx com Jesus e o proprietário na parábola, se este, na sua distribuição desproporcionada do dinheiro, a fizesse em razão das necessidades de cada um. Mas nada indica que fosse o caso.

Este critério marxista, em todo o caso, não é praticado na fase de retribuição directa do trabalho (no salário) mas sim no âmbito das responsabilidades sociais do Estado (nos preços dos serviços). E a social-democracia burguesa, ela própria, tem sido obrigada a aplicá-lo em certa medida, por força das exigências populares. É o caso dos apoios do Estado aos cidadãos mais carenciados, em matéria de saúde, ensino, transportes, etc.

A Venezuela, um país capitalista com um governo socialista de inspiração marxista, desenvolve desde 2003 campanhas de apoio material e efectivo às camadas mais desfavorecidas da população, através das chamadas “misiones”: misión vivienda, misión barrio adentro, misión mercal, etc., etc.


E enquanto a acção política prossegue a sua missão de promover a exploração ou a justiça social, a religião apela… às orações. É a apologia do imobilismo, da rendição ao poder constituído, justificado com aquela sentença de Jesus “politicamente correcta”: a César o que é de César…

Como se a Igreja não soubesse que Jesus estava “entalado” quando teve que dar aquela resposta. Como se a riqueza de César não fosse resultado da exploração desenfreada e dos saques perpetrados nas sanguinárias guerras imperiais.