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2015/07/19

Não é a Grécia, é a ideologia

Se é verdade que o povo grego rejeitou em referendo a proposta das políticas de austeridade do Eurogrupo, é igualmente verdade que o mesmo povo manifestou e continua a manifestar vontade de permanecer na Euro-zona, de resto como defende o próprio governo grego em cada discurso do seu primeiro-ministro.



Respeitar a vontade do povo significaria, portanto, negociar as condições da permanência no Euro e minimizar, na prática política, os efeitos da "austeridade" imposta. Por isso faz todo o sentido a decisão de Alexis Tsipras de assinar um acordo quando estavam esgotadas todas as possibilidades de cedência do Eurogrupo, num processo duríssimo de negociações.

Mais: teve a coragem de afirmar publicamente que não concordava com os termos do acordo, que o considerava uma chantagem e que assumia as responsabilidades desta opção porque entendeu que esta foi a melhor maneira de salvaguardar os interesses do povo grego - leia-se o financiamento a curto prazo de salários e pensões!


Passos Coelho devia ter vergonha de comparar a sua – a nossa! - obediência submissa e humilhante, com a resistência e a combatividade de Alexis Tsipras num histórico conflito negocial do Eurogrupo.

Quanto às motivações do governo alemão e seus satélites políticos, para as propostas que colocam à Grécia, elas estão bem resumidas nestes dois parágrafos de um discurso de Alexis Tsipras em 21 de Junho de 2015:

«O mais provável é que as instituições tenham motivos políticos para insistir tão obcecadamente apenas em vias impossíveis , além de seguirem um plano para humilhar exemplarmente não só o governo grego, mas também a própria Grécia.

Para disseminar alguma espécie de 'mensagem' para o povo grego e para todos os povos da Europa, de que nenhum governo popular poderá jamais mudar coisa alguma».

2015/05/21

Assim falava Varoufakis (3)



AUTO-CRÍTICA

… Por mais que me satisfaça defender como atitude genuinamente radical a implantação de uma modesta agenda para estabilizar um sistema que desprezo, não fingirei que a coisa me entusiasme. Acho que aí está o que temos de fazer, sob as circunstâncias atuais, mas muito me entristece pensar que provavelmente não viverei para assistir à adoção racional de agenda muito mais radical.

Por fim, uma confissão de natureza muito altamente pessoal: sei que corro o risco de, sub-repticiamente, encobrir a tristeza por estar enterrando qualquer esperança de substituir o capitalismo, no tempo de vida que me resta, deixando-me arrastar pelo sentimento de satisfação por ter-me tornado "palatável" nos círculos da "sociedade polida". A sensação de auto-satisfação, ao ver-me festejado por ricos e poderosos, até começou, sim, uma vez, a implantar-se em mim. E que sensação feia, corrompida, não radical foi aquela!



O meu fundo do poço pessoal aconteceu
num aeroporto.




Um grupo endinheirado havia-me convidado para uma conferência sobre a crise europeia e consumira a quantia escandalosa de dinheiro necessária para enviar-me uma passagem de primeira classe. De volta para casa, cansado e já com muitas horas de voo na bagagem, eu ia andando do lado da longa fila dos passageiros da classe econômica, para chegar à porta de acesso dos ricos. Foi quando, de repente, com considerável horror, dei-me conta de como eu me deixara facilmente infectar pela sensação de que eu "tinha direito" de passar à frente dos hoi polloi [grego no orig., "a plebe"].

Percebi o quão rapidamente eu esquecera o que minha mente de esquerda sempre soubera: que nada se reproduz mais perfeitamente nem mais rapidamente, que um falso senso de "ter direito" a algo.

Forjar alianças com forças reacionárias, como entendo que devamos fazer para estabilizar a Europa hoje, põe-nos sob o risco de sermos cooptados, de deixar nosso radicalismo morrer sufocado sob o calor acintoso da sensação de ter afinal "chegado" aos corredores do poder.

Confissões radicais, como a que tentei escrever aqui, são talvez o único antídoto programático contra deslizes ideológicos que ameaçam nos converter em engrenagens da máquina. Se temos de forjar alianças com o diabo (e.g. com o FMI, com neoliberais os quais, contudo, também têm objeções ao que chamo de bancorruptocracia", etc.), temos de evitar nos converter em socialistas que fracassaram na luta para melhorar o mundo, mas... melhoraram, sim, muito, a própria vida privada.

O truque é evitar o maximalismo revolucionário que, no fim, só ajuda os neoliberais a superarem a oposição à imundície medíocre e autoderrotista deles; e conservar ante nossos olhos a feiúra inerente do capitalismo, quando tentamos salvá-lo, para objetivos estratégicos, dele mesmo. Confissões radicais podem ser úteis para alcançar esse difícil equilíbrio. O humanismo marxista, afinal, ensina a nunca parar de lutar contra isso em que nos estamos convertendo.

Assim falava Varoufakis (2)


PIOR QUE MAU

(Na Inglaterra da s.ra Thatcher), com a vida cada vez mais miserável, mais brutal e, para muitos, cada vez mais curta (…) as coisas podem piorar perpetuamente, sem jamais melhorarem. A esperança de que a deterioração dos bens públicos, a diminuição da vida da maioria da população, as privações que já chegavam a cada esquina da terra, levariam automaticamente ao renascimento de alguma esquerda, era o que era, nada além do que era: só esperança!

A noção de que a deterioração das "condições objetivas" (a realidade material) dariam de algum modo origem a "condições subjetivas" (o desejo popular de mudança) das quais emergiria uma nova revolução política, não passava, completamente, de engodo. A única coisa que emergiu do thatcherismo foi gente que vive de especulação, a financialização extrema, o triunfo do shopping mall sobre as lojas da esquina, a fetichização da casa própria e... Tony Blair.

É a razão pela qual estou feliz de confessar o pecado que me tem sido imputado pelos críticos radicais de minha posição "menchevique" sobre a Eurozona: o pecado de escolher NÃO propor programas políticos radicais que visem a explorar a eurocrise como oportunidade para derrubar o capitalismo europeu, para desmantelar toda a Eurozona e para minar a União Europeia dos cartéis e dos banqueiros corruptos.

Ah, sim, eu adoraria poder apresentar aqui aquela agenda mais radical. Mas, não, não estou disposto a cometer o mesmo erro pela segunda vez. O que obtivemos de bom na Grã-Bretanha no inícios dos anos 1980s, promovendo uma agenda de mudança socialista da qual a sociedade britânica zombava, ao mesmo tempo em que afundava, de cabeça, na armadilha neoliberal da Sra. Thatcher? Precisamente nada. 

Que bem nos faria hoje clamar pelo desmonte da Eurozona, da própria União Europeia, se o capitalismo europeu está também ele fazendo de tudo para pôr fim à Eurozona, até à própria União Europeia? Uma saída de Grécia ou de Portugal ou Itália, da eurozona, logo se desenvolverá numa fragmentação do capitalismo europeu, o que gerará uma região a mais de grave superávit recessivo no leste do Reno e norte dos Alpes, enquanto o resto da Europa vê-se nas garras de uma viciosa "estagflação". 

Quem vocês imaginam que se beneficiaria desse desenvolvimento? Alguma Esquerda progressista, que nasceria feito fênix das cinzas das instituições públicas europeias? Ou os nazistas da Alvorada Dourada, os neofascistas de várias origens, os xenófobos, ou especuladores? Não tenho absolutamente dúvida alguma sobre qual desses dois grupos se beneficiaria da desintegração da Eurozona. Eu, de minha parte, não estou interessado em soprar ventos novos nas velas dessa versão pós-moderna dos anos 1930s.

Se tudo isso significa que seremos nós, os adequadamente errantes marxistas, que teremos a tarefa de salvar o capitalismo europeu dele mesmo, que seja! Não por amor a eles, ou de tanto que apreciamos o capitalismo europeu, a Eurozona, Bruxelas ou o Banco Central Europeu , mas só porque queremos minimizar o sofrimento humano desnecessário que essa crise cobrará; as incontáveis vidas que serão ainda mais profundamente esmagadas sem qualquer tipo de benefício, nenhum, para as futuras gerações de europeus.

Cada vez que os lacaios da troika visitam Atenas, Dublin, Lisboa, Madrid; a cada pronunciamento do Banco Central Europeu ou da Comissão Europeia sobre o próximo arrocho no parafuso da austeridade que terá de acontecer em Paris ou Roma, vêm à cabeça as palavras de Bertholt Brecht: Força bruta está fora de moda. Para quê mandar assassinos contratados, se lacaios fazem o mesmo serviço?

Fim de transcrição

"Assim falava Varoufakis (3)" irá transcrever uma auto-crítica do autor aqui invocado, retirada da mesma entrevista de 2013 - quando não era ainda ministro.

As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).


2015/05/20

Assim falava Varoufakis (1)

DE SI MESMO

Marxista, hegeliano, keynesiano, humano, tenho tendência natural a dizer que não sou nada disso; que consumi meus dias tentando tornar-me a abelha de Francis Bacon: uma criatura que prova o néctar de um milhão de flores e converte a coisa, nas próprias entranhas, em algo novo, que deve muito a todas as florações, mas não se define por nenhuma única flor.

… Sim, partilho a ideia de que essa União Europeia não passa de um cartel fundamentalmente antidemocrático e irracional, que meteu os povos europeus numa trilha de misantropia, conflito e recessão permanente.

… A actual crise europeia (…) ameaça toda a civilização como a conhecemos.

DA ALTERNATIVA

… (mas) temos de deter a queda livre do capitalismo europeu, para conseguir o tempo de que precisamos para formular a alternativa.

A crise da Europa, como a vejo, não vem grávida de alternativas  progressistas, mas só de forças radicalmente atrasistas, regressivas, que têm capacidade para provocar renovados banhos de sangue "humanitários", ao mesmo tempo em que vão matando qualquer esperança de qualquer movimento progressista para as futuras gerações.

… Com as elites europeias em pleno surto de negar evidências, desconcertadas, e com as cabeças enfiadas no buraco, feitos avestruzes, a Esquerda tem de admitir que simplesmente não estamos prontos para remendar os buracos que um capitalismo europeu em colapso abrirá, usando, nós, algum sistema socialista operante, capaz de gerar prosperidade partilhada para as massas.

Nossa tarefa deve ser, pois, dupla: Oferecer uma análise do actual estado para o qual foram empurrados europeus não marxistas bem intencionados, pelas sereias do neoliberalismo, e fazer seguirem-se a essa análise sólida, propostas para estabilizar a Europa – que ponham fim à espiral descendente que, no fim, só reforça os perversos e incuba o ovo da serpente. 

Ironicamente, os que mais amaldiçoamos a Eurozona, temos uma obrigação moral de salvá-la!

Eis precisamente o que tentamos fazer com nossa Modest Proposal. Ao nos dirigir a públicos diversos, que vão de ativistas radicais a gerentes de hedge funds, a ideia é forjar alianças estratégicas mesmo com gente da direita, com os quais partilhamos um simples interesse: um interesse em pôr fim ao circuito de realimentação negativa entre "austeridade" [arrocho] e crise, entre estados falidos e apoiantes falidos; um efeito de realimentação negativa que mina o capitalismo, como mina qualquer programa progressista que o substitua. 

Fim de citações

"Assim falava Varoufakis (2)" tratará da experiência britânica como indicador de que, depois do fundo, há mais poço...

As citações aqui transcritas são excertos das declarações de Varoufakis no artigo Confissões de um Marxista Errante, nas Sombras de uma Revoltante Crise Europeia, publicadas no seu próprio blog em 2013, na tradução de Vila Vudu para o blog A Comuna (UDP).

2015/01/26

A Grécia falou e disse

Os mentores da ordem estabelecida deviam agradecer
a partidos da "esquerda radical" como o SYRIZA , absorverem os descontentamentos mais exaltados, evitando assim que se tornem descontrolados, violentos, terroristas ou como queiram chamar-lhes.


A esperança que geram estas correntes a que alguns chamam “extremistas”, é o que evita incêndios e apedrejamentos, sabotagens e atentados – extremismos verdadeiros.

É neste sentido da esperança que Alexis Tsipras proclamou, no seu “discurso de vitória” o primado da dignidade sobre a humilhação, a recusa da submissão sem perda de responsabilidade, o respeito recíproco, a urgência de “tratar as feridas da catástrofe”, a atenção à voz do eleitorado contra “a voz da “troika” e da austeridade”…

São questões de princípio, é certo, mas é a falta destes princípios que tem arruinado as economias europeias, que tem empobrecido as populações. Comparadas com o discurso recente de Obama, estas simples questões de princípio são um tratado político.

“O caminho faz-se caminhando”, como dizia António Machado. Mas ao fazê-lo, o caminhante não está perdido se souber ler as estrelas. Por isso, se não é sensato desenhar um roteiro teórico, também não é prudente caminhar de olhos fechados e mente vazia, ao deus-dará (porque “deus não dá”)!

A gente acredita – mostrou que acredita – na capacidade do SYRIZA para ver e interpretar as dificuldades e as possibilidades. E, sobretudo, a coragem de as assumir. Em nome do povo grego mas também “da Europa que está contra a austeridade”, como ele disse.

Neste sentido, já valeu a pena que a Grécia falasse.


Nota: A imagem inicial é uma foto-montagem

2013/04/15

Portugal e o bloqueio

O desaparecimento do bloco socialista europeu no contexto do bloqueio económico imposto pelos EEUU, deixou Cuba, de um dia para o outro, sem o seu principal fornecedor de alimentos e petróleo.

Uma das medidas do Governo para fazer face à crise de transportes decorrente da falta de combustível, foi a importação de mais de um milhão de bicicletas para que os cubanos pudessem deslocar-se, bem como a instituição da boleia generalizada com caracter obrigatório para as viaturas oficiais, e caracter facultativo para as particulares.

Por seu lado, a escassez de alimentos só podia ser "resolvida" com a fome e doenças associadas.

Segundo New England Medicine em 1995, o pior efeito foi uma epidemia de “neuritis óptica” e polineuropatia periférica provocada por nutrição inadequada e falta de vitaminas como o complexo B. Dezenas de milhares de pessoas foram afectadas. A mortalidade materno-infantil aumentou substancialmente.

Mas Portugal não depende da URSS, só depende da Alemanha. E não está sujeito a um bloqueio económico. Ou está?

2013/03/18

Nós não somos Chipre...

Tanto Chipre como aqueles que hoje dizem “mas nós não somos Chipre” deveriam perguntar, em tempo útil, se vale mais preservar a Zona Euro ou o sistema bancário.

2011/12/08

Sair ou não sair do euro,
eis a questão!

Se a UE tivesse soluções, há muito que as teria tomado.

A Alemanha não pode ajudar ninguém e dificilmente se ajuda a ela própria. Os elevados recursos de que precisa para sustentar o seu grau de competição com os EUA e o Japão na corrida das tecnologias avançadas, com taxas de retorno muito reduzidas no curto prazo, exigem-lhe recursos de capital que não se compadecem com políticas generosas ou solidárias.

O que a Alemanha precisa é que os seus bancos transformem em capital real o capital fictício de que estão atulhados, e precisam de mão-de-obra barata de países empobrecidos e controlados na UE.

Por outro lado, fora da Europa a UE não tem aliados.

Os EUA transformaram a Europa num satélite: ao mesmo tempo que se servem dela para a sua política de dominação territorial global, movem-lhe uma guerra financeira na competição do dólar contra o euro.

Os BRIC, por seu lado, já demonstraram que ignoram os problemas do euro. A China e a Rússia não têm qualquer interesse estratégico em fortalecer à sua custa os que estão incondicionalmente do lado dos Estados Unidos da América.

Os custos da nossa saída da zona euro seriam temporários, ao passo que os custos de permanecermos serão inultrapassáveis pois apenas aprofundaremos a situação a que chegámos – sem riqueza, sem emprego e sem soberania.

Dizer que passaríamos a viver com 25 ou 40% menos é errado. É confundir o valor dos bens com a sua expressão monetária. Os bens transaccionáveis manteriam o seu valor expresso em euros ou noutra moeda. Põe-se o problema, sim, de como pagar as importações, que se reduziriam. Mas como pagá-las, estando na zona euro? Endividando-nos sem fim.

Ficando no euro, a dívida em 2013 será superior à de 2010 e em 2012 os juros atingem 8 800 M€. Daqui a tal promessa (ou antes, ameaça) de Markel de que dentro de 10 anos…

A questão é, pois, produzir bens transaccionáveis. Ora, com o euro não o conseguimos, como está mais que provado; a única forma de o fazer é de facto negociar a saída da zona euro.

Adaptação e resumo de “Ficar ou sair da zona euro”,
de Daniel Vaz de Carvalho, publicado em resistir.info
Recomendo do mesmo autor: EURO E ESCOLHAS

2010/05/21

A força centrífuga da UE

Depois da descolonização geográfica que libertou países empobrecidos e escravizados da América do Sul e de África, pelas potências mundiais – ao tempo, Portugal, Espanha, França, Inglaterra, Holanda – vamos assistindo às lutas independentistas dos países menos desenvolvidos contra a dominação económica das grandes potências.
Cansados da dominação norte-americana, os países foram procurando condições para a sua autonomia, através de uniões económicas que valorizam os seus próprios recursos e iniciativas em vez de se submeterem a directivas imperiais que perpetuaram atrasos económicos e politicos. Naquele propósito independentista, criou-se na América Latina o Mercosul (1) e outras organizações, e desenvolveu-se na Europa a União Europeia, a partir da CEE e herdeira do BENELUX.
Mercosul

No plano mundial, parece significativo, por exemplo, um artigo recente da revista inglesa The Economist, onde se falava do temor com que o congresso norte-americano olhava para o Bric, um bloco composto por Brasil, Rússia, Índia e China, e que pareceria vocacionado “para anunciar aos Estados Unidos que os maiores países em desenvolvimento têm opiniões próprias”. No âmbito da União Europeia, as mesmas razões que obrigaram os respectivos países a organizarem-se autonomamente para responder ao domínio económico dos EUA, podem fazer com que alguns deles, os mais débeis, se reorganizem contra a dominação(2) exercida pelas grandes potências europeias em relação a si próprios, se vingar a “lei dos mais fortes” no seio da organização, ou o princípio de “cada um por si” (que chegou a ser defendido por Merkel no início da crise financeira e de que voltou a ser acusada agora, a propósito do comportamento dos especuladores financeiros) .

Com efeito, aquelas potências europeias, nomeadamente a Alemanha, a França e o Reino Unido, enquanto se relacionam com os outros países da União em termos autoritários ou coercivos, relacionam-se com a Rússia ou a China, os EUA ou o Brasil, em termos negociais.

Na busca de novas solidariedades, a Grécia volta-se para a muçulmana Turquia que tem uma relação de amor-ódio com a Europa; a Espanha reforça os laços económicos com as suas antigas colónias (América Latina e Caribe); Portugal tem todo o interesse em consolidar o mais possível, as suas relações económicas com o Brasil e Angola, sobretudo, ainda que não seja um parceiro privilegiado de qualquer destes do ponto de vista económico como decorre do estatuto do Brasil como grande potência emergente e , no caso de Angola – e de Moçambique por maioria de razão – devido às afinidades destes com os vizinhos da “Comunidade para o Desenvolvimento da África Austral” – sem que se ignore o seu próprio problema de dependância regional em relação à Àfrica do Sul e sem que se ignore o seu interesse nas relações económicas com a UE, no que Portugal finge que tem um papel a desempenhar.

A força centrífuga da União Europeia, portanto, parece atirar os países do sul da europa para outras galáxias. Tanto mais depressa quanto menor se continuar a revelar a força da gravidade, isto é, a força de atracção que liga aqueles países à zona euro.

Que os grandes líderes europeus não estejam interessados nisso, como se vê todos os dias em declarações, parece confirmar a quem interessam as políticas que prosseguem.


(1)Actualmente o Mercosul é composto por Argentina, Brasil, Paraguai, Uruguai e Venezuela, como estados membros, e por Bolívia, Chile, Colômbia, Equador e Peru como estados associados.
Outros países da região, criaram a ALBA, com um caracter ideológico de esquerda e inscrevendo a solidariedade social como preocupação dominante. Fazem parte Venezuela e Cuba, fundadores, e ainda Bolívia, Nicarágua, Dominica, Equador, Antigua e Barbuda e São Vicente e Granadinas

(2)“Como português, tenho pena, mas passámos a ser uma espécie de protectorado da Alemanha, do ponto de vista financeiro. Mas quando os nativos não se sabem governar, uma boa dose de colonialismo não deixa de ser saudável” – disse Campos e Cunha, antigo vice-governador do Banco de Portugal, professor da Faculdade de Economia da Universidade Nova e actual presidente da SEDES.