2010/02/12

A Informação é deles

A Televisão e a Informação em geral é propriedade dos governantes, dos detentores das respectivas empresas e ainda dos jornalistas da sua confiança. A guerra a que temos assistido, tenha Manuela Moura Guedes ou Mário Crespo como porta-bandeiras, é sobretudo deles antes de ser da liberdade de expressão. Eles estão preocupados com os seus privilégios - ou porque têm programas ou porque têm estações ou porque têm poder político.
Vimos alguma vez a Comunicação Social preocupada com a discriminação que se faz das vozes exteriores ao "arco da governação" representado na imagem acima? Para uns e outros, o que dizem os partidos de esquerda são opiniões desprezíveis que só por razões legais e nessa medida é preciso recolher, e o que manifestam milhares de pessoas nas ruas não valem nada em comparação com a opinião de um qualquer jornalista ou comentador seu convidado - milhares de vozes de trabalhadores são apenas desprezíveis "interesses corporativos" facilmente anulados e contraditados pelos seus doutos juízos.

Da minha experiência em anos de actividade em comissões de trabalhadores e vida sindical, raríssimas foram as vezes em que os jornalistas da RTP, enquanto colectivo, foram solidários com as lutas laborais dos restantes trabalhadores. E esse sentimento de casta não mudou.

Como bem alertou Umberto Eco, os jornais, a Rádio, a Televisão, não são orgãos de "comunicação" mas sim orgãos de "difusão" - não inter-agem com os receptores, dirigem-se a eles sem direito a resposta. E isso confere-lhes o poder de dizer o que está bem e o que está mal, o que interessa e o que não interessa... a todos. Nisto, como o mesmo autor evidenciou, a Internet trouxe a diferença, uma vez que aqui o utilizador não só constroi a sua própria programação como se exprime em relação a opiniões de outros. Um problema que os jornalistas e comentadores publicados tentam compensar com a sua própria participação nestes novos meios que apesar de tudo não têm o mesmo poder dos orgãos sociais de difusão.


É nesta lógica de controlo da "Comunicação Social" por parte da direita política, que se inscreve a estratégia privatizadora desta área do espectro partidário, sabendo-se que só a Direita - representante das classes privilegiadas - tem poder económico para aceder à compra dos meios privados de difusão. Pinto Balsemão ou Eduardo Moniz fazem o seu jogo neste campeonato. O PS, como sempre, disputa-o pela parte que representa do mesmo espectro. E por interesses partidários associados.
A liberdade de informação, tal como a Democracia, é a possível. E quanto mais ampla fôr esta, mais larga será aquela. O resto é o modo como cada um tenta ganhar terreno nestes jogos: governos, partidos, jornalistas! E o modo como cada cidadão eleitor, suposto soberano da nação, reflecte na rua e nas urnas de voto a sua opinião. (E nos blogues, ok!)

2010/02/10

Durão enquanto líder

«O Parlamento Europeu aprovou hoje em Estrasburgo a nova Comissão Europeia liderada por Durão Barroso». Em dia de parabens, fica bem esta gracinha...

2010/02/09

Conversa privada

sobre liberdade de expressão


O PM de cu para cima está metido de cu para baixo num processo de cu para cima sobre a compra de cu para baixo de um canal de cu para cima de televisão de cu para baixo.


Era assim (mutatis mutandis) que brincava a "canalhada" da minha infância quando a Televisão era ainda uma coisa de que se falava que havia na América... E também quando ela veio para o Café Novo Mundo ali à esquina de Costa Cabral com a Rua das Mercês, que era lá que eu via esse mundo novo, isto é, eu na rua, a televisão lá dentro e os vidros pelo meio a demonstrar o que a vida profissional me confirmaria mais tarde: que o som é o aparente pobre do audio-visual.

De vez em quando éramos enxotados porque dava mau aspecto a canalha ali a espreitar para dentro do café... Uma relação de amor-ódio que se manteria muitos anos mais tarde quando fiz da televisão a minha profissão.

Amor-ódio porque escolhi um emprego onde ganhava quase metade do que poderia ganhar noutro sítio, porque tive oportunidade de seguir jornalismo de que tanto gostava mas renunciei para não ser cúmplice da Censura; porque lutei romanticamente pela democracia, lá dentro, mas sacrifiquei aspectos importantes da vida particular; porque escolhi o caminho da solidariedade e fui rastejado muitas vezes pelo oportunismo. Porque conheci as tripas das vedetas, a indignidade dos vendidos e a injustiça dos "maquiaveis à moda do Minho". Não fui um caso raro, decerto, mas dou o meu testemunho.

É a televisão política, a televisão que faz brilhar ou apagar partidos e figuras políticas, que cria presidentes da República.

Ouço queixas do PSD e do PS sobre o controlo das estações de televisão, e é tanta a hipocrisia, é tal o cinismo sobre isenção de cu para cima e transparência de cu para baixo, que já não há... paciência.


O que fizeram eles e de que forma mais escandalosa, desde 1974, senão usurpar a Televisão, desde as nomeações de quadros a todos os níveis,até à atribuição fraudulenta dos canais, assentes em critérios e acordos políticos?! Uma sujeira de que o PS de Mário Soares foi o campeão, há que ser justo. Uma gestão mafiosa que fez escola como se tem visto nas polémicas sobre os “isentos” Marcelo Rebelo de Sousa e António Vitorino, e no que não se vê mas que faz os conteúdos da informação e da programação.
Um charco que aconselharia algumas figuras mais credíveis a não chafurdar muito para não se sujarem. E a aceitarem o seu “divórcio” profissional com a mesma facilidade com que aceitaram o seu “casamento”, deixando para o público o juízo social.

2010/02/07

Modelos económicos

«A China deverá tornar-se este ano a segunda economia do mundo. E a primeira até 2026, segundo o banco americano Goldman Sachs» – leio no Monde Diplomatique de 5 de Fevereiro de 2010. Estamos a falar do país com o maior crescimento económico dos últimos 25 anos no mundo, com a média do crescimento do PIB em torno de 10% por ano. Estamos a falar de um país socialista.
Marxista à minha maneira como cada um o é à sua, parece-me adequado perguntar o que tem esta China e este processo de desenvolvimento a ver com o Socialismo. E com algum atrevimento acima das minhas posses intelectuais, perguntaria mais: será que o marxismo cometeu um erro fundamental ao politizar a Economia? Isto é: será que as leis económicas podem ser sujeitas a opções ideológicas?

Nacionalizar ou privatizar os meios de produção, por exemplo, são opções do domínio económico que só podem ser avaliadas em contextos específicos, não sendo de estranhar as vantagens de privatizar em contexto socialista, como as vantagens de nacionalizar em contexto capitalista – não é preciso ir longe para encontrar exemplos!

A própria “lógica de mercado” é assimilável pelo Socialismo se tivermos em conta as relações internacionais, não só da China mas até da URSS enquanto existiu. A reclamação de Cuba contra o embargo económico, ela própria, diz muito sobre isso. Afinal as matérias primas, as máquinas e as moedas de troca não têm ideologia, têm funcionalidade, servem a produção, o desenvolvimento, a satisfação de necessidades.

Dir-se-ia, à luz destas experiências históricas, que é o grau de participação de cada estado nas diversas componentes das economias, mais do que a sua inclusão total, o que permite caracterizar o sistema político-económico. E que o resto é retórica ideológica. A própria questão central do capitalismo, o lucro individual, parece sujeitar-se ao critério do grau e não da rigorosa inclusividade ou exclusividade.

Para voltar ao caso da China, o respectivo governo reformou a economia do país no final da década de 1970, no sentido de abri-la ao mercado e valorizar o sector privado. O resultado foi o rápido crescimento que se tem visto e sem que o governo deixasse de se reivindicar e organizar em moldes socialistas.O que resta ao socialismo para se diferenciar do capitalismo no domínio económico ? Ou essa é uma falsa questão e toda a Economia é uma só, como a Ecologia? Neste caso a ideologia socialista deveria confinar-se à política, garantida que estivesse a subordinação da economia à sua soberania.

Saber como este modelo se pode conformar com a “libertação dos povos” proclamada pelo socialismo marxista, sabendo nós que a própria China não é (ainda?) um exemplo nesta matéria, eis a questão.

Questão tão pertinente e incontornável como lembrar que foi o carácter socialista do regime chinês, isto é, a subordinação da economia ao poder político, que permitiu à China dispor e injectar rapidamente dinheiro na economia quando o mundo entrou em crise financeira! É uma vantagem da banca nacionalizada.

2010/02/06

E se os preços subirem?

Se os salários e as pensões sociais não descerem mas os preços aumentarem, o Governo cumpre a sua promessa e as 800 grandes empresas cumprem o seu lucro. E até algumas famílias ganham - as famílias dos grandes empresários!

Quanto a nós, cabe-nos apenas reparar no aumento silencioso do custo de vida, fechar os olhos aos escândalos económicos e financeiros, fugir ou mesmo reprovar a agitação social, votar no PS e seus aliados e rezar para que estas "maningâncias" económicas atinjam mais o nosso vizinho do que a nós mesmos - o que já é uma consolação.

2010/02/03

Economia todavia


Não sei se é por causa das famosas « dietas mediterrânicas », mas as comparações de Portugal com a Grécia e a Espanha estão a enfraquecer a proclamada «confiança» na nossa economia. A menos que os autores destas análises não sejam, eles próprios, confiáveis.

O "chief economist" do FMI, Olivier Blanchard, analisa a situação económica da zona euro, para LesEchos.fr.

A dada altura...

OB - Maintenant, avec la crise, le Portugal, l'Espagne et la Grèce éprouvent de sérieuses difficultés. Celles-ci impliquent des ajustements très pénibles. Surtout lorsque l'environnement inflationniste est très bas. Le rétablissement de leur compétitivité peut nécessiter de lourds sacrifices, comme une baisse des salaires.

LE - Le Portugal et la Grèce peuvent-ils se le permettre ?

OB - Ils n'ont guère le choix. Ce sera long et douloureux. Les problèmes du Portugal ont d'ailleurs commencé bien avant la crise. Cette dernière rend seulement l'ajustement encore plus ardu.

Estas observações de 1 de Fevereiro, seguem-se às seguintes de Janeiro :


El pasado 13 de enero, Moody's advirtió que la economía de Portugal corre un "alto riesgo" de "muerte lenta" en los próximos años. Y equiparaba los problemas lusos a los de Grecia en estos términos: "Son dos ejemplos de países con baja competitividad dentro de la unión monetaria, que se traducen en déficit externos muy elevados".

(...)El FMI ha añadido más leña el fuego en el informe divulgado el pasado 20 de enero, que insiste en señalar al déficit, la deuda pública y la falta de competitividad como las principales causas de la vulnerabilidad de la economía portuguesa, con el efecto consiguiente en la destrucción de empleo (los puestos de trabajo perdidos alcanzarán el medio millón en 2013) y un crecimiento al ralentí, que no llegará al 1% en los cuatro años de la presente legislatura.

A las causas internas de Portugal, el Fondo añade los estrechos lazos económicos y financieros con España, que ha dado pie a que algunos medios lusos ironicen con la recurrente "relación peligrosa". Describe el FMI a España como el socio comercial clave de Portugal, al que vende entre el 25% y el 30% de las exportaciones, del que recibe el 15% de los ingresos turísticos y con vínculos casi de sangre entre los bancos de ambos países. En este escenario es inevitable concluir que si a España le van mal las cosas, a Portugal no le pueden ir mejor.EL PAIS 24Jan2010